O que é Dissecção?
A dissecção é uma condição médica grave em que ocorre uma ruptura na camada mais interna de uma artéria (a íntima), permitindo que o sangue se infiltre entre as camadas da parede do vaso. Esse sangramento forma um “falso canal” ou falso lúmen, que pode se expandir, comprimir o canal verdadeiro e comprometer o fluxo sanguíneo para órgãos vitais. Embora o termo seja mais conhecido na dissecção de aorta – a maior artéria do corpo –, ele também pode ocorrer em artérias carótidas, vertebrais, renais ou coronárias.
No dia a dia de uma clínica popular ou no pronto‑atendimento do SUS, esse diagnóstico costuma surgir de forma abrupta. Um paciente chega com dor torácica súbita em rasgadura, acompanhada de sudorese fria e queda de pressão, ou com sintomas neurológicos como fraqueza de um lado do corpo e dificuldade para falar. Muitas vezes, a pessoa tem histórico de hipertensão arterial não controlada, tabagismo ou alguma doença do tecido conjuntivo (como a síndrome de Marfan). A dificuldade no SUS é que a dissecção é uma emergência que exige diagnóstico por imagem (angiotomografia) e abordagem cirúrgica ou endovascular em centro de referência – nem sempre disponível com rapidez em todas as regiões do Brasil.
Dados do Ministério da Saúde indicam que as doenças da aorta (incluindo dissecção e aneurisma) são responsáveis por cerca de 2% das mortes cardiovasculares no país, com incidência estimada de 3 a 4 casos por 100.000 habitantes/ano. A maioria dos casos ocorre em homens acima de 60 anos, mas a dissecção carotídea é uma causa relevante de AVC em adultos jovens (30–50 anos). O diagnóstico precoce e o encaminhamento rápido são cruciais para reduzir a mortalidade, que pode chegar a 50% nas primeiras 48 horas sem tratamento.
Como funciona / Características
Imagine a parede de uma artéria como um tubo de três camadas: a íntima (interna), a média e a adventícia (externa). Na dissecção, a íntima se rasga e o sangue, sob pressão, entra nesse espaço, criando um falso lúmen. Esse falso canal pode se estender ao longo do vaso, obstruir ramos arteriais (como as artérias que irrigam o cérebro, os rins ou a medula espinhal) ou até romper a camada externa, causando hemorragia fatal.
No consultório de um clínico geral, os sinais mais comuns incluem:
- Dor torácica ou abdominal intensa e migratória – o paciente descreve como “algo rasgando” por dentro, que se desloca do peito para as costas ou para o abdome.
- Diferença de pressão arterial entre os braços (≥ 20 mmHg) – sinal clássico de dissecção de aorta proximal.
- Sintomas neurológicos – AVC, desmaio, paraplegia (se a dissecção comprometer a irrigação da medula).
- Dor cervical ou cefaleia súbita em casos de dissecção carotídea ou vertebral.
Em clínicas populares, a principal dificuldade é distinguir a dissecção de outras causas de dor torácica aguda, como infarto do miocárdio ou embolia pulmonar. Por isso, a avaliação inclui exame físico cuidadoso (palpação de pulsos, ausculta de sopros) e solicitação de exames complementares de urgência (ECG, raio‑X de tórax e, se possível, angiotomografia). A conduta imediata é controlar a pressão arterial com medicamentos intravenosos (como beta‑bloqueadores) e encaminhar o paciente para um hospital terciário com cirurgia cardiovascular.
Tipos e Classificações
No Brasil, a classificação mais usada para dissecção de aorta é a classificação de Stanford:
- Tipo A: envolve a aorta ascendente (próxima ao coração). É a mais grave, pois pode causar tamponamento cardíaco, insuficiência aórtica ou obstrução das artérias coronárias. Exige cirurgia de emergência.
- Tipo B: limita‑se à aorta descendente (após a saída das artérias subclávias). O tratamento inicial é clínico (controle da pressão) e, se houver complicações (ruptura, má perfusão de órgãos), pode ser necessária intervenção endovascular.
Outras classificações incluem a classificação de DeBakey (I, II e III), mais detalhada, mas na prática clínica a de Stanford é a mais difundida. Além da aorta, existem as dissecções de artérias cervicais (carótida interna e vertebral) e dissecções coronarianas (espontâneas ou iatrogênicas).
O Ministério da Saúde recomenda que todo serviço de urgência tenha protocolo para suspeita de dissecção, com fluxo rápido para centro de referência. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) publica diretrizes sobre o manejo, e o CFM orienta que o diagnóstico por imagem (angiotomografia ou ressonância) deve ser priorizado nas primeiras horas.
Quando procurar um médico
Procure imediatamente um pronto‑socorro se você ou alguém próximo apresentar:
- Dor torácica ou abdominal súbita, intensa e em rasgadura, especialmente se irradiar para as costas ou pescoço.
- Diferença de pressão entre os braços ou ausência de pulso em um deles.
- Sintomas neurológicos repentinos: fraqueza ou dormência de um lado, dificuldade para falar, perda de visão em um olho.
- Desmaio (síncope) sem causa aparente, principalmente em hipertensos crônicos.
- Dor cervical ou cefaleia intensa associada a incômodo no olho ou zumbido pulsátil (pode ser dissecção carotídea).
Nas clínicas populares, muitas vezes o paciente chega com queixas vagas, como “dor nas costas” ou “enxaqueca”. O médico deve estar atento a fatores de risco: hipertensão não controlada, tabagismo, doenças do colágeno (Marfan, Ehlers‑Danlos), uso de cocaína ou trauma recente. Se houver suspeita, a orientação é: não demore, não tome anti‑inflamatórios (que podem mascarar a dor e piorar a hipertensão) e vá ao hospital com capacidade de realizar exames de imagem.
Termos Relacionados
- Aneurisma de aorta: dilatação permanente da parede arterial. Diferente da dissecção, não há ruptura da íntima, mas o aneurisma pode evoluir para dissecção ou ruptura.
- Hematoma intramural: sangramento dentro da camada média da artéria, sem ruptura da íntima. É considerado um precursor da dissecção e tem manejo semelhante.
- Úlcera penetrante de aorta: lesão ulcerada na placa aterosclerótica que penetra na camada média. Pode evoluir para hematoma intramural ou dissecção.
- Hipertensão arterial sistêmica: principal fator de risco para dissecção. O controle rigoroso da pressão (abaixo de 130/80 mmHg) reduz significativamente a incidência.
- Síndrome de Marfan: doença genética do tecido conjuntivo que fragiliza a parede arterial, aumentando o risco de dissecção em jovens.
- Angiotomografia computadorizada: exame padrão‑ouro para diagnóstico de dissecção, disponível em hospitais terciários do SUS.
- Endoprótese: stent recoberto usado no tratamento endovascular da dissecção tipo B, procedimento menos invasivo que a cirurgia aberta.
- AVC (Acidente Vascular Cerebral): pode ser consequência de dissecção carotídea ou vertebral, especialmente em adultos jovens.
Perguntas Frequentes sobre O que é Dissecção
O que exatamente acontece no corpo durante uma dissecção?
Ocorre uma ruptura na camada interna da artéria. O sangue, sob pressão, penetra entre as camadas da parede, criando um falso canal. Esse falso lúmen pode se expandir, comprimir o canal verdadeiro e reduzir o fluxo de sangue para órgãos como cérebro, rins ou medula. Se a parede externa romper, há hemorragia interna grave.
Dissecção de aorta tem cura?
Sim, mas o tratamento deve ser imediato. Na dissecção tipo A, a cirurgia de emergência (substituição da aorta ascendente) é curativa em muitos casos, com sobrevida de 70‑90% quando feita precocemente. Na tipo B, o controle clínico rigoroso da pressão arterial e, se necessário, a colocação de uma endoprótese podem conter a progressão. O acompanhamento com exames de imagem ao longo da vida é essencial.
Quem tem mais risco de ter dissecção?
Homens acima de 60 anos com hipertensão não controlada são os mais afetados. Outros fatores importantes: tabagismo, doenças do tecido conjuntivo (Marfan, Ehlers‑Danlos), válvula aórtica bicúspide, uso de cocaína e trauma (acidentes automobilísticos, lesões de pescoço). Pessoas com histórico familiar de aneurisma ou dissecção também devem ter mais atenção.
É possível prevenir a dissecção?
Em grande parte, sim. A principal medida é o controle rigoroso da pressão arterial com medicamentos e mudanças de estilo de vida (dieta com pouco sal, exercício, cessação do tabagismo). Em indivíduos com síndrome de Marfan ou válvula bicúspide, o acompanhamento cardiológico com exames de imagem periódicos ajuda a detectar a dilatação da aorta antes da dissecção. Evitar uso de drogas ilícitas (cocaína) e dirigir com segurança (uso de cinto de segurança) também reduz riscos.
Qual a diferença entre dissecção e aneurisma?
Aneurisma é a dilatação de uma artéria, geralmente por fraqueza da parede. Dissecção é a ruptura e separação das camadas do vaso. Um aneurisma pode evoluir para dissecção (principalmente se houver hipertensão) ou para ruptura. O tratamento do aneurisma é geralmente eletivo (cirurgia ou endoprótese) quando atinge determinado tamanho; já a dissecção é uma emergência.


