sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Distrofia mielofibrosa

O que é Distrofia mielofibrosa?

A distrofia mielofibrosa (termo que na prática médica chamamos de mielofibrose primária) é uma doença rara da medula óssea, classificada como uma neoplasia mieloproliferativa crônica. Isso significa que a medula óssea — o “berço” das células do sangue — começa a funcionar de forma desordenada, produzindo células anormais e, com o tempo, sendo substituída por tecido fibroso (cicatricial). Essa fibrose impede a produção normal de glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas, levando a anemia, infecções e sangramentos. Além disso, o corpo tenta compensar essa falha fazendo com que o baço e o fígado passem a produzir células sanguíneas, o que causa um aumento desses órgãos (esplenomegalia) e sintomas como cansaço extremo, desconforto abdominal e perda de peso.

No dia a dia de uma clínica popular brasileira ou do SUS, o paciente chega geralmente com queixas vagas: “doutor, estou muito cansado, parece que carrego um peso na barriga”. Muitas vezes já passou por vários médicos, tratou anemia com ferro sem melhora, fez exames de rotina que mostraram plaquetas altas ou baixas, e o baço aumentado foi descoberto em um ultrassom de abdome. A suspeita de mielofibrose vem daí: anemia inexplicada, alterações nas séries sanguíneas e esplenomegalia. O diagnóstico definitivo é feito por biópsia de medula óssea, que mostra a fibrose. No Brasil, a doença é considerada rara, com incidência estimada em cerca de 1-2 casos por 100 mil habitantes por ano (Manual de Hematologia Clínica — Ministério da Saúde). Acomete principalmente pessoas acima de 60 anos, mas pode surgir em adultos jovens.

Embora não seja um câncer no sentido comum (como leucemia aguda), a distrofia mielofibrosa é uma neoplasia crônica que pode evoluir para leucemia aguda em uma minoria dos casos. O diagnóstico precoce é fundamental para controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. No SUS, o paciente é referenciado para serviços de hematologia, onde são realizados exames especializados e tratamentos como medicamentos inibidores de JAK2 (ruxolitinibe) e, em casos selecionados, transplante de medula óssea. A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) publica diretrizes nacionais que orientam o manejo da doença (Guia de Hematologia — SBHH).

Como funciona / Características

Para entender a mielofibrose, imagine a medula óssea como uma “fábrica” de células sanguíneas. Nessa doença, uma célula-tronco sofre uma mutação genética (geralmente no gene JAK2 ou CALR) e começa a se multiplicar de forma descontrolada. Essas células anormais liberam substâncias (citocinas) que estimulam células chamadas fibroblastos a produzirem fibras de colágeno e reticulina, criando um “emaranhado” de tecido cicatricial dentro da medula. Com o tempo, a fábrica fica cheia de fibrose e não consegue mais produzir células normais.

O corpo reage ativando “fábricas alternativas”: o baço e o fígado passam a produzir células sanguíneas (hematopoese extramedular). Isso faz com que esses órgãos aumentem muito de tamanho. Na prática clínica, o paciente sente uma “barriga inchada”, dor no lado esquerdo (baço), sensação de saciedade precoce (o baço comprime o estômago) e, às vezes, dores ósseas. Os exames de sangue mostram anemia (hemoglobina baixa), alteração na contagem de plaquetas (ora altas, ora baixas) e desvio à esquerda nos glóbulos brancos (presença de formas jovens). O esfregaço de sangue periférico pode mostrar hemácias em forma de lágrima (dacriócitos), um sinal clássico.

No cotidiano de uma clínica popular, um exemplo típico é o do seu José, 65 anos, hipertenso, que sempre teve uma “anemia de leve” que não melhorava com sulfato ferroso. Ele chegou reclamando de cansaço intenso e uma “bola” no lado esquerdo da barriga. Ao exame, o baço estava palpável a 4 dedos do rebordo costal. Um ultrassom confirmou esplenomegalia. Pedimos então um hemograma completo: hemoglobina 9,0 g/dL, plaquetas aumentadas (600.000/mm³) e glóbulos brancos com formas jovens. A biópsia de medula óssea revelou fibrose grau 2-3. Diagnosticamos distrofia mielofibrosa e iniciamos acompanhamento com hematologista.

Tipos e Classificações

A mielofibrose é classificada de acordo com sua origem e com o estágio de fibrose:

  • Mielofibrose primária (idiopática): surge sem causa aparente, diretamente da mutação em células-tronco. É a forma mais comum.
  • Mielofibrose secundária (pós-policitemia vera ou pós-trombocitemia essencial): ocorre em pacientes que já tinham outra neoplasia mieloproliferativa (policitemia vera ou trombocitemia essencial) e evoluem para fibrose medular.

Classificação pelo grau de fibrose (escala de 0 a 3):

  • Grau 0 – sem fibrose;
  • Grau 1 – fibrose reticulínica leve;
  • Grau 2 – fibrose reticulínica difusa ou colágena focal;
  • Grau 3 – fibrose colágena difusa (medula “osso compacto”).

Essa graduação é feita na biópsia e ajuda a determinar o prognóstico e a necessidade de tratamento.

No Brasil, os hematologistas usam sistemas de estadiamento como o DIPSS (Dynamic International Prognostic Scoring System) ou o DIPSS-plus, que levam em conta idade, sintomas, contagens sanguíneas e blastos no sangue. O escore classifica os pacientes em baixo, intermediário-1, intermediário-2 e alto risco, orientando a conduta (expectante, medicação ou transplante). O Ministério da Saúde disponibiliza protocolos clínicos para essas doenças (Página sobre Mielofibrose — gov.br).

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