O que é O que é Distúrbio do sono?
O Distúrbio do sono é qualquer condição que altera a qualidade, a duração ou o ciclo natural do sono, afetando o descanso e a recuperação do corpo e da mente. No meu dia a dia como clínico do SUS e de clínicas populares, vejo pacientes de todas as idades que chegam com queixas como “não consigo pegar no sono”, “acordo várias vezes à noite” ou “durmo, mas acordo cansado”. Esses relatos, tão comuns nos corredores dos postos de saúde, muitas vezes escondem distúrbios como insônia, apneia obstrutiva ou síndrome das pernas inquietas.
No Brasil, estima-se que cerca de 35% da população adulta sofra de insônia crônica ou eventual, segundo dados da Associação Brasileira do Sono (ABS). O impacto disso vai muito além do cansaço: influencia o risco de hipertensão, diabetes, obesidade e até depressão. No contexto do SUS, o médico clínico geral é a porta de entrada para o diagnóstico inicial, muitas vezes com poucos recursos – um exame clínico atento, questionários específicos e, quando necessário, encaminhamento para polissonografia (exame do sono) nos centros de referência.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica os distúrbios do sono como um problema de saúde pública, e o Ministério da Saúde brasileiro recomenda a abordagem integrada na Atenção Básica. Na prática, isso significa que, ao ouvir a queixa de sono, devemos investigar não só o padrão noturno, mas também os hábitos diurnos, uso de medicações, saúde mental e condições ambientais. Muitas vezes, uma simples orientação sobre higiene do sono – como evitar telas antes de dormir ou manter horários regulares – já resolve o problema sem precisar de remédios.
Como funciona / Características
O distúrbio do sono pode se manifestar de várias maneiras, mas as características mais comuns que aparecem no consultório são: dificuldade para iniciar o sono (insônia inicial), despertar frequente durante a noite (insônia de manutenção), acordar muito cedo sem conseguir voltar a dormir (insônia terminal), sonolência excessiva durante o dia (hipersonia), ronco alto e pausas respiratórias durante o sono (apneia), movimentos involuntários das pernas (síndrome das pernas inquietas) ou comportamentos anormais como sonambulismo.
Na clínica popular, vejo muitos pacientes que acham normal “dormir mal” e só procuram ajuda quando o cansaço já atrapalha o trabalho ou a vida social. Um exemplo típico: seu José, 52 anos, motorista de ônibus, chegou queixando de “cansaço o dia todo”. Ele roncava alto, a esposa reclamava que ele parava de respirar à noite. Após exame clínico e encaminhamento para polissonografia, diagnosticamos apneia obstrutiva moderada. O tratamento com CPAP (um aparelho que mantém a via aérea aberta) transformou a qualidade de vida dele – reduziu a sonolência e melhorou a pressão arterial.
Outro caso comum é o de Maria, 35 anos, professora, que relatava demorar mais de uma hora para dormir, acordar várias vezes e se sentir ansiosa. Ela tinha o hábito de usar o celular na cama até tarde. A orientação de higiene do sono (desligar telas 1 hora antes, criar um ritual relaxante) e, em alguns casos, o uso de melatonina em baixas doses por curto período, trouxe melhora significativa. Esses exemplos mostram que os distúrbios do sono têm tratamento, mas o primeiro passo é reconhecer que não se trata de “frescura” e sim de uma condição de saúde que merece atenção.
Tipos e Classificações
A Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e a Classificação Internacional de Distúrbios do Sono (ICSD-3) organizam os principais tipos. No Brasil, usamos essas referências para diagnóstico e encaminhamento. Os mais frequentes na prática são:
- Insônia: dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou sono não reparador, por pelo menos três noites por semana, por mais de três meses (insônia crônica). Aguda quando dura menos de um mês.
- Apneia obstrutiva do sono (AOS): pausas na respiração durante o sono devido ao colapso das vias aéreas superiores. Relacionada a ronco, obesidade e hipertensão. Muito comum em homens acima de 40 anos.
- Síndrome das pernas inquietas (SPI): sensação de desconforto nas pernas em repouso, aliviada com movimento, que piora à noite e atrapalha o início do sono.
- Distúrbios do ritmo circadiano: dessincronia entre o relógio biológico e o ciclo claro-escuro, comum em trabalhadores noturnos, jet lag ou atraso de fase do sono (típico de adolescentes).
- Hypersonia: sonolência excessiva diurna, mesmo após dormir tempo suficiente. Inclui narcolepsia (ataques súbitos de sono) e hipersonia idiopática.
- Parassonias: comportamentos anormais durante o sono, como sonambulismo, terror noturno, pesadelos ou bruxismo (ranger os dentes). Comuns em crianças, mas podem persistir na vida adulta.
Na Atenção Primária, avaliamos inicialmente com perguntas simples (Escala de Epworth para sonolência, critérios de insônia) e exames como glicemia, função tireoidiana e polissonografia domiciliar quando disponível. O SUS oferece polissonografia em hospitais de referência, embora o acesso ainda seja limitado em muitas regiões.
Quando procurar um médico
Procure um clínico geral no posto de saúde ou na clínica popular se você apresenta:
- Dificuldade para dormir por mais de três noites por semana, por mais de um mês
- Acordar cansado e sem disposição para as atividades diárias
- Ronco alto ou pausas respiratórias percebidas por outra pessoa
- Sonolência excessiva durante o dia (como dormir no volante ou em reuniões)
- Movimentos involuntários das pernas ao deitar que atrapalham o sono
- Despertares com sensação de sufocamento ou falta de ar
- Mudanças de humor, irritabilidade ou dificuldade de concentração associadas
Na clínica popular, muitos pacientes adiam a consulta por achar que “dormir mal é normal”. Porém, distúrbios do sono não tratados aumentam o risco de acidentes de trânsito, doenças cardiovasculares e piora da saúde mental. O médico pode solicitar exames simples (hemograma, TSH, glicemia) para descartar causas secundárias (anemia, hipotireoidismo, diabetes) e, se necessário, encaminhar para neurologista ou pneumologista especializado em sono. O importante é não normalizar o sofrimento.
Termos Relacionados
- Higiene do sono: conjunto de hábitos saudáveis que favorecem um bom descanso, como manter horários regulares, evitar cafeína à noite e ter um ambiente escuro e silencioso.
- Polissonografia: exame que registra ondas cerebrais, oxigênio no sangue, frequência cardíaca, respiração e movimentos durante o sono, usado para diagnosticar apneia e outros distúrbios.
- Insônia: o distúrbio do sono mais comum, com dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou sono não reparador.
- Apneia obstrutiva: condição em que a via aérea superior colapsa repetidamente durante o sono, causando pausas na respiração e queda da oxigenação.
- CPAP: aparelho de pressão positiva contínua nas vias aéreas, tratamento de primeira linha para apneia obstrutiva do sono.
- Ritmo circadiano: ciclo biológico de aproximadamente 24 horas que regula o sono, a temperatura e os hormônios; alterações comuns com turnos noturnos ou mudança de fuso horário.
- Melatonina: hormônio natural produzido à noite que induz o sono; suplementos podem ser usados como auxílio (com orientação médica).
- Sonolência diurna excessiva: tendência a cochilar involuntariamente durante o dia, principal queixa de quem tem apneia ou narcolepsia.
Perguntas Frequentes sobre O que é Distúrbio do sono
Dormir mal pode causar doenças?
Sim. O distúrbio do sono está associado a maior risco de hipertensão, diabetes tipo 2, obesidade, infarto, AVC, depressão e comprometimento da imunidade. O sono é um processo restaurador; quando interrompido, o corpo sofre inflamação crônica e desregulação metabólica.
Quantas horas de sono são suficientes?
A maioria dos adultos precisa de 7 a 9 horas por noite. Crianças e adolescentes podem precisar de 9 a 12 horas. O mais importante é que o sono seja contínuo e reparador. Dormir 6 horas com má qualidade pode ser pior que dormir 8 horas com interrupções.
Tomar chá de camomila ou maracujá ajuda?
Chás e infusões podem ter efeito placebo e relaxante leve, mas não tratam distúrbios como apneia ou insônia crônica. São úteis como parte da higiene do sono, mas não substituem avaliação médica se o problema for persistente.
Remédio para dormir vicia? Quais os riscos?
Vários indutores do sono, especialmente os benzodiazepínicos (como clonazepam, diazepam), podem causar dependência, tolerância e efeitos colaterais como sonolência diurna e alterações de memória. Por isso, devem ser usados apenas com prescrição médica, por curto período e em doses baixas. O SUS prioriza opções mais seguras como a melatonina controlada e terapias não medicamentosas.
Criança que não dorme direito tem distúrbio do sono?
Muitas crianças têm insônia comportamental ou parassonias (terror noturno, sonambulismo) que melhoram com orientação sobre rotina. Se o problema persiste, atrapalha o desenvolvimento ou está associado a ronco, é importante investigar para descartar apneia (que pode afetar o crescimento). O pediatra do SUS pode auxiliar.
O que a clínica popular pode fazer pelo meu problema de sono?
O médico clínico da unidade básica ou da clínica popular realiza a primeira avaliação: escuta sua queixa, aplica questionários, investiga causas, solicita exames simples (sangue, urina) e orienta higiene do sono. Se necessário, encaminha para especialistas (neurologista, pneumologista) ou para polissonografia. É o lugar mais acessível para começar o tratamento.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


