O que é Doença coronariana?
Quando atendo um paciente na clínica popular ou no posto do SUS e ele chega com aquela queixa de “dor no peito” ou “aperto no coração”, uma das primeiras hipóteses que levanto é a doença coronariana. Popularmente conhecida como “entupimento das artérias do coração”, essa condição ocorre quando as artérias coronárias — os vasos que levam sangue rico em oxigênio para o músculo cardíaco — ficam obstruídas por placas de gordura, colesterol e outras substâncias (processo chamado aterosclerose). Na prática, pense no coração como um motor que precisa de combustível constante: se os canos que levam esse combustível entopem, o motor começa a falhar.
No Brasil, a doença coronariana é uma das principais causas de morte e de internação no SUS. Dados do Ministério da Saúde indicam que as doenças cardiovasculares, incluindo a coronariana, são responsáveis por cerca de 30% dos óbitos no país — mais de 400 mil mortes por ano. Na minha rotina, vejo muitos homens acima dos 45 anos e mulheres após a menopausa com fatores de risco como hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo e obesidade. A realidade das clínicas populares é que muitos chegam com o diagnóstico tardio, quando os sintomas já estão avançados, justamente por falta de acesso a exames preventivos. Por isso, reforço sempre a importância de um acompanhamento básico no SUS, como o check-up anual com eletrocardiograma e exames de sangue.
A doença coronariana não é uma sentença. Com o tratamento adequado — que vai desde mudanças no estilo de vida até medicamentos disponíveis na farmácia popular ou procedimentos como angioplastia e cirurgia de ponte de safena — muitos pacientes recuperam qualidade de vida. O primeiro passo é entender que a dor no peito, especialmente durante esforço, não é “normal” e merece investigação.
Como funciona / Características
Imagine que as artérias coronárias são canos finos que levam sangue para o músculo do coração. Na doença coronariana, placas de gordura (ateromas) vão se acumulando na parede desses canos, estreitando o espaço por onde o sangue passa. Esse processo começa silenciosamente, muitas vezes décadas antes dos primeiros sintomas. O coração, quando está em repouso, ainda consegue receber sangue suficiente. Mas, quando você sobe uma ladeira, carrega uma compra pesada ou sente uma emoção forte, o coração precisa trabalhar mais e exige mais oxigênio. Se as artérias estão estreitadas, o fluxo não dá conta, e surge a angina — aquela sensação de aperto, queimação ou peso no peito, que pode irradiar para o braço esquerdo, mandíbula ou costas.
Na rotina da clínica popular, vejo muitos pacientes que descrevem a dor como “um nó no peito” ou “gas presa”, confundindo com problemas digestivos. Um exemplo clássico: seu João, 58 anos, motorista de ônibus, chega dizendo que “sente um peso no peito quando anda rápido para pegar o ponto”. Ele parou de jogar futebol aos domingos porque “falta o ar”. Esses sinais, típicos de angina estável, indicam que o coração está pedindo socorro. Se uma placa se rompe e forma um coágulo, pode obstruir totalmente a artéria, causando um infarto agudo do miocárdio — o famoso “ataque cardíaco”. Nessa situação, a dor é intensa, prolongada e não passa com repouso.
Além da obstrução progressiva, a doença coronariana pode se manifestar de forma atípica, especialmente em mulheres, diabéticos e idosos: cansaço incomum, falta de ar, náuseas, dor nas costas ou no estômago. Por isso, no dia a dia, sempre pergunto: “O senhor/senhora sente algo diferente quando faz esforço? Tem sentido mais cansaço ultimamente?” — essas perguntas simples salvam vidas.
Tipos e Classificações
Na prática clínica, classificamos a doença coronariana de acordo com a apresentação e a gravidade. As principais categorias usadas no Brasil, seguindo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), são:
- Angina estável: É a forma mais comum. A dor ou desconforto no peito aparece com esforço físico, estresse emocional ou frio, e melhora com repouso ou uso de nitrato (comprimido debaixo da língua). Indica que há obstrução fixa, mas não total, de uma ou mais artérias.
- Síndrome coronariana aguda (SCA): É uma emergência. Inclui a angina instável (dor que piora, aparece em repouso ou com pouquíssimo esforço) e o infarto agudo do miocárdio (IAM). No infarto, o músculo cardíaco começa a morrer por falta de oxigênio. Os exames mostram alterações no eletrocardiograma e enzimas cardíacas (troponina) elevadas.
- Doença coronariana obstrutiva vs. não obstrutiva: Nem toda doença coronariana tem placas que obstruem completamente o vaso. A doença microvascular (que afeta os pequenos vasos) e a vasoespasmo coronariano também entram nesse guarda-chuva. Na prática, muitas mulheres jovens com dor no peito têm coronárias normais no cateterismo, mas enfrentam sintomas por espasmo ou disfunção dos pequenos vasos.
- Classificação pelo número de artérias afetadas: No cateterismo, o médico cardiologista identifica se a obstrução está em uma (unilateral), duas (bilateral) ou três artérias coronárias. Quanto mais artérias comprometidas, maior o risco e mais complexo o tratamento.
No SUS, a classificação orienta o fluxo de atendimento: pacientes com angina estável são acompanhados na atenção básica com medicamentos e exames periódicos; já os com síndrome coronariana aguda são encaminhados com urgência para hospitais de referência em cardiologia.
Quando procurar um médico
Se você ou alguém próximo apresentar algum dos sinais abaixo, não espere: procure um serviço de saúde imediatamente. Na emergência, cada minuto conta para salvar o músculo cardíaco.
- Dor ou desconforto no peito — sensação de aperto, peso, queimação ou pontada que dura mais de 10 minutos, principalmente se irradiar para braço esquerdo, ombro, mandíbula ou costas.
- Falta de ar repentina — mesmo sem dor no peito, especialmente em diabéticos e idosos.
- Suor frio, náuseas, vômito ou tontura associados a desconforto torácico.
- Dor no peito que piora com esforço e melhora com repouso — mesmo que seja leve, merece investigação.
- Palpitações, desmaio ou sensação de morte iminente.
Para quem tem fatores de risco (hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo, obesidade, histórico familiar), a recomendação é fazer check-up anual com médico clínico ou cardiologista. No SUS, você pode agendar consulta na UBS mais próxima. Exames como eletrocardiograma, teste ergométrico (esteira) e ecocardiograma estão disponíveis na rede pública, embora muitas vezes com fila de espera. Se houver suspeita de doença coronariana, o encaminhamento para um cardiologista é prioridade.
Termos Relacionados
- Aterosclerose: Processo de acúmulo de placas de gordura, colesterol e inflamação na parede das artérias. É a base da doença coronariana.
- Angina (estável/instável): Dor ou desconforto no peito causado pela falta temporária de oxigênio no coração. A angina estável é previsível (com esforço); a instável é imprevisível (em repouso) e sinal de risco.
- Infarto agudo do miocárdio (IAM): Morte do músculo cardíaco por obstrução total de uma artéria coronária. Popularmente “ataque cardíaco”.
- Cateterismo cardíaco (cineangiocoronariografia): Exame invasivo que utiliza um cateter para injetar contraste nas artérias coronárias e visualizar obstruções. É o padrão-ouro para diagnóstico.
- Angioplastia (com stent): Procedimento no qual um balão desobstrui a artéria e um stent (pequena tela de metal) é colocado para mantê-la aberta. Disponível no SUS em hospitais de referência.
- Cirurgia de revascularização (ponte de safena): Para obstruções complexas, utiliza-se um pedaço de veia da perna ou artéria do tórax para contornar o bloqueio. Também ofertada pelo SUS.
- Dislipidemia: Alteração nos níveis de gordura no sangue (colesterol LDL e triglicerídeos altos, HDL baixo). Principal fator de risco modificável.
- Fatores de risco cardiovascular: Hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo, estresse e histórico familiar. Identificá-los na consulta é o primeiro passo para prevenir.
Perguntas Frequentes sobre O que é Doença coronariana
1. A doença coronariana tem cura?
A doença coronariana é uma condição crônica — não tem “cura” no sentido de fazer as placas desaparecerem completamente. Mas com o tratamento certo, é possível controlar os sintomas, evitar que a doença progrida e prevenir o infarto. Isso inclui mudanças no estilo de vida (alimentação saudável, exercícios, parar de fumar), medicamentos controlados (como estatina, aspirina, anti-hipertensivos) e, quando necessário, procedimentos como angioplastia. Muitos pacientes vivem décadas com qualidade após o diagnóstico. O segredo é o acompanhamento regular.
2. Quem tem mais risco de desenvolver doença coronariana?
Os principais fatores são: idade (homens >45 anos, mulheres >55 anos ou pós-menopausa), hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo, obesidade, sedentarismo e histórico familiar de infarto precoce (parente homem <55 anos ou mulher <65). No Brasil, a alta prevalência de hipertensão (cerca de 30% da população adulta) e diabetes (quase 10%) torna a doença coronariana um problema de saúde pública. Quem tem dois ou mais fatores deve ficar em alerta.
3. Dor no peito é sempre sinal de doença coronariana?
Não. Muitas outras causas podem provocar dor no peito: problemas musculares (costocondrite), refluxo gastroesofágico, ansiedade ou até herpes zoster. Mas, na dúvida, sempre considere o pior cenário. Se a dor tem características típicas (aperto, queimação, irradiação para braço, piora com esforço) ou se você tem fatores de risco, procure atendimento. O médico pode fazer exames simples para descartar o coração.
4. Qual exame detecta a doença coronariana?
Não existe um único exame. O médico começa com a história clínica e exame físico. Depois, geralmente pede: eletrocardiograma (em repouso e durante esforço – teste ergométrico), ecocardiograma (ultrassom do coração) e exames de sangue (colesterol, glicemia, troponina). Se houver suspeita forte, o padrão-ouro é o cateterismo cardíaco (coronariografia), que mostra exatamente onde estão as obstruções. No SUS, esse exame é feito em hospitais de referência mediante encaminhamento médico.
5. Como a doença coronariana é tratada no SUS?
O tratamento segue uma linha de cuidado: primeiro, medicamentos básicos disponíveis na farmácia popular (estatina, AAS, anti-hipertensivos, nitratos). Segundo, orientação para mudança de hábitos (o SUS oferece grupos de apoio para tabagismo, alimentação e atividade física nas UBS). Terceiro, proced


