quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Doença da urina do xarope do bordo

O que é Doença da urina do xarope do bordo?

A Doença da urina do xarope do bordo, também chamada de leucinose ou doença do xarope de bordo, é um erro inato do metabolismo raro, hereditário e grave. O nome curioso vem do cheiro adocicado da urina das crianças afetadas, que lembra o xarope de bordo (maple syrup) — um aroma de caramelo ou açúcar queimado. Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares, essa doença é conhecida por ser um dos diagnósticos incluídos no “teste do pezinho” da triagem neonatal. Embora seja pouco frequente, quando não identificada precocemente, pode levar a danos neurológicos irreversíveis ou até ao óbito nos primeiros dias de vida.

No Brasil, a Doença da urina do xarope do bordo faz parte da triagem neonatal biológica (teste do pezinho ampliado) ofertada pelo SUS desde 2021, conforme o Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN). A incidência global é de aproximadamente 1 para cada 185.000 nascidos vivos, mas em algumas comunidades brasileiras com maior taxa de consanguinidade, como certas regiões do Nordeste, a prevalência pode ser mais alta. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 20 a 30 casos são diagnosticados por ano no país, mas muitos ainda passam despercebidos em áreas sem acesso ao teste ampliado.

A doença é causada por uma deficiência na enzima complexo da desidrogenase dos alfa-cetoácidos de cadeia ramificada (BCKDH). Sem essa enzima, o corpo não consegue quebrar adequadamente três aminoácidos essenciais: leucina, isoleucina e valina. Esses aminoácidos se acumulam no sangue e nos tecidos, principalmente no cérebro, causando intoxicação metabólica. Nas clínicas populares, muitas vezes a família percebe o cheiro característico na fralda ou o bebê apresenta sonolência excessiva, vômitos e dificuldade para mamar — sinais que exigem investigação urgente.

Como funciona / Características

O problema começa logo após o nascimento, quando o bebê passa a receber leite materno ou fórmula. A incapacidade de metabolizar os aminoácidos de cadeia ramificada leva ao acúmulo rápido dessas substâncias. Em 24 a 48 horas, a criança pode apresentar:

  • Odor adocicado na urina e no cerume (cera do ouvido) — um dos primeiros sinais que as mães relatam no consultório;
  • Recusa alimentar, vômitos e letargia — o bebê fica “molinho”, menos reativo;
  • Hipertonia e movimentos anormais — rigidez muscular ou opistótono (arqueamento do corpo);
  • Convulsões e coma — se não tratado, o quadro evolui rapidamente.

No dia a dia de uma clínica popular do SUS, costumo orientar as gestantes sobre a importância do teste do pezinho. Infelizmente, atrasos no diagnóstico ainda são comuns em locais onde o teste ampliado não está disponível ou quando a família não busca a unidade de saúde nos primeiros dias de vida. A confirmação laboratorial é feita por cromatografia de aminoácidos no sangue ou urina, disponível em serviços de genética e referência como o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o Instituto de Genética da UFPR, que são centros de referência no SUS.

O tratamento é urgente e envolve três pilares:

  1. Dieta restritiva — fórmulas especiais com baixo teor de leucina, isoleucina e valina, fornecidas pelo SUS por meio de protocolos de nutrição enteral;
  2. Suplementação com vitaminas e cofatores — como tiamina (vitamina B1), que pode ajudar em alguns casos;
  3. Hemodiálise ou diálise peritoneal — em crises agudas para remover rapidamente os metabólitos tóxicos.

Crianças diagnosticadas precocemente e que seguem a dieta rigorosa podem ter desenvolvimento normal. O problema é que a adesão é difícil, especialmente em famílias de baixa renda, pelo custo das fórmulas (mesmo com fornecimento público, há filas e falta de orientação nutricional). Na minha experiência, a Doença da urina do xarope do bordo exige um acompanhamento multidisciplinar: pediatra, geneticista, nutricionista e psicólogo.

Tipos e Classificações

A Doença da urina do xarope do bordo é classificada em quatro formas, com base na idade de início e na resposta ao tratamento com tiamina. A classificação mais usada no Brasil segue a literatura internacional e os protocolos do Ministério da Saúde:

  • Forma clássica (neonatal) — a mais comum (cerca de 80% dos casos). Início nos primeiros dias de vida com rápida progressão. Resposta ao tratamento dietético, mas sem resposta significativa à tiamina. É a forma que vemos com mais frequência nos encaminhamentos de maternidades do SUS;
  • Forma intermediária — início mais tardio (primeiros meses a anos), com sintomas mais leves (atraso no desenvolvimento, dificuldade de aprendizado). Pode ser confundida com outras doenças metabólicas;
  • Forma intermitente — a criança geralmente tem desenvolvimento normal, mas apresenta crises metabólicas desencadeadas por estresse (infecções, jejum prolongado, cirurgias). Nessas crises, surgem vômitos, ataxia e odor característico;
  • Forma sensível à tiamina — muito rara, responde a altas doses de vitamina B1. Os pacientes podem tolerar uma dieta menos restritiva. É importante fazer o teste terapêutico com tiamina em todo diagnóstico.

No contexto do SUS, a maioria dos casos diagnosticados pelo teste do pezinho são da forma clássica. A classificação é crucial para definir o prognóstico e o plano terapêutico, especialmente a necessidade de transplante hepático em casos graves e refratários — procedimento realizado em centros de alta complexidade, como o Hospital das Clínicas da USP.

Quando procurar um médico

Se você é mãe, pai ou cuidador de um recém-nascido, fique atento aos seguintes sinais de alerta que podem indicar Doença da urina do xarope do bordo:

  • Cheiro adocicado na urina, suor ou cera do ouvido — principalmente se o odor for descrito como “caramelo” ou “açúcar queimado”;
  • Vômitos persistentes nas primeiras 48 horas de vida, que não melhoram com as manobras habituais;
  • Letargia ou sonolência excessiva — o bebê não acorda para mamar ou fica muito “molinho”;
  • Rigidez muscular, movimentos involuntários ou convulsões;
  • Dificuldade para ganhar peso ou choro fraco.

Todo recém-nascido deve realizar o teste do pezinho entre o 3º e o 5º dia de vida. O teste básico (versão 1) não inclui a doença do xarope de bordo. É necessário que o município ofereça a versão ampliada (mais de 6 doenças), disponível em maternidades credenciadas ao PNTN. Procure a unidade básica de saúde (UBS) mais próxima para saber qual tipo de triagem é realizada na sua região. Se houver suspeita, o médico pode solicitar exames de sangue e urina específicos, como a dosagem de aminoácidos. Não espere: o tratamento precoce evita sequelas.

Termos Relacionados

  • Leucinose: outro nome para a Doença da urina do xarope do bordo, derivado do acúmulo de leucina, um dos aminoácidos envolvidos.
  • Erro inato do metabolismo: conjunto de doenças genéticas que afetam a produção ou funcionamento de enzimas, como a leucinose.
  • Teste do pezinho: exame de triagem neonatal feito a partir de gotas de sangue do calcanhar do bebê.
  • Triagem neonatal ampliada: versão do teste que inclui mais doenças, como a Doença da urina do xarope do bordo, fornecido pelo SUS em alguns estados.
  • Dieta com restrição de aminoácidos de cadeia ramificada: plano alimentar especial (fórmulas sem leucina, isoleucina e valina) essencial para o tratamento.
  • Complexo BCKDH: enzima que está deficiente na doença; a falta dela impede a quebra dos aminoácidos.
  • Crise metabólica: episódio agudo de intoxicação por acúmulo de metabólitos, que pode levar a coma se não tratado.
  • Transplante hepático: opção curativa para casos graves, pois o fígado produz a enzima deficiente.

Perguntas Frequentes sobre a Doença da urina do xarope do bordo

1. A Doença da urina do xarope do bordo tem cura?

Não tem cura genética, mas o tratamento adequado com dieta restritiva e suplementação permite que a criança tenha uma vida saudável e desenvolvimento normal. Em casos selecionados, o transplante hepático pode curar os sintomas metabólicos, pois o novo fígado produz a enzima que falta. No SUS, o transplante é possível, mas exige avaliação em centro de referência.

2. O teste do pezinho do SUS detecta a doença do xarope de bordo?

Desde 2021, o SUS oferece a triagem neonatal ampliada em mais de 60 municípios, que inclui a Doença da urina do xarope do bordo. Porém, a cobertura não é universal. O teste básico (versão 1) detecta apenas 6 doenças. Pergunte na sua maternidade ou UBS se o exame é o ampliado. Se não for, insista para que seja feito em laboratório particular ou busque referência estadual.

3. Quanto tempo demora para o resultado do teste do pezinho?

O resultado costuma sair entre 7 e 15 dias úteis após a coleta. Em caso de alteração, a unidade de saúde entra em contato com a família com urgência. Se houver sintomas antes desse prazo, não espere: procure o pronto-socorro pediátrico e relate a suspeita.

4. Minha filha nasceu com a doença. Ela pode tomar leite materno?

O leite materno contém aminoácidos de cadeia ramificada, portanto não pode ser oferecido livremente. O tratamento exige fórmula especial, isenta ou com baixíssimo teor desses aminoácidos. O SUS fornece essas fórmulas mediante laudo médico e cadastro no programa de nutrição enteral. A amamentação pode ser permitida em quantidades controladas, sob orientação de um nutricionista especializado.

5. A doença pode aparecer em adultos?

Sim, a forma intermitente pode se manifestar na vida adulta, geralmente desencadeada por estresse metabólico (infecção grave, jejum prolongado, cirurgia). Os sintomas incluem confusão mental, vômitos e alterações neurológicas. O diagnóstico em adultos é raro, mas possível, principalmente em indivíduos com história familiar não identificada.

6. Qual a expectativa de vida de uma criança tratada?

Com diagnóstico precoce e adesão rigorosa à dieta, a expectativa de vida é a mesma da população geral. A maioria dos pacientes atinge a idade adulta sem sequelas neurológicas significativas. O abandono do tratamento ou a falta de acesso a fórmulas especiais leva a crises recorrentes, que podem causar danos cerebrais irreversíveis e óbito.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


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