quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Doença de Alzheimer

O que é Doença de Alzheimer?

A Doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva e irreversível que ataca as células do cérebro, comprometendo gradualmente a memória, o raciocínio, a linguagem e a capacidade de realizar tarefas simples do dia a dia. Na prática da clínica popular e do SUS, costumo explicar para os pacientes e familiares que o Alzheimer não é “esquecimento normal da velhice” nem “demência senil”, como muitos ainda acreditam. Trata-se de uma doença específica, com alterações físicas no tecido cerebral, que leva à perda funcional e cognitiva ao longo de anos.

No Brasil, a Doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência, correspondendo a cerca de 60% a 70% dos casos. Segundo o Ministério da Saúde e dados do IBGE, estima-se que aproximadamente 1,2 milhão de brasileiros vivam com a doença, e esse número tende a crescer com o envelhecimento populacional. A maioria dos pacientes tem mais de 65 anos, mas há casos de início precoce (antes dos 60 anos), que costumam ter um componente genético mais forte. No SUS, o diagnóstico é coordenado pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com encaminhamento para neurologia ou geriatria nos centros de referência. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde orienta todo o cuidado, incluindo a oferta de medicamentos como donepezila, rivastigmina e memantina nas farmácias populares e nos serviços municipais.

Na rotina de uma clínica popular, atendo muitas famílias que chegam angustiadas: “Doutor, minha mãe não lembra mais do que comeu no almoço”. Ou: “Meu pai se perdeu na rua do mercado, onde viveu 40 anos”. Essas cenas são o retrato mais frequente do Alzheimer no Brasil — um adoecimento que não atinge só o paciente, mas toda a rede de cuidadores. É por isso que a abordagem precisa ser humanizada, com informação clara e acolhimento.

Como funciona / Características

O cérebro de uma pessoa com Doença de Alzheimer sofre com o acúmulo anormal de duas proteínas: a beta-amiloide, que forma placas entre os neurônios, e a proteína tau, que cria emaranhados dentro das células nervosas. Esse processo leva à morte progressiva dos neurônios, começando geralmente no hipocampo (região ligada à memória recente) e se espalhando para outras áreas do córtex cerebral.

No cotidiano, isso se traduz em sintomas que evoluem em estágios:

  • Estágio leve (fase inicial): O paciente começa a esquecer compromissos, repetir a mesma pergunta várias vezes, ter dificuldade para lembrar nomes de pessoas próximas e perder objetos com frequência. Muitas vezes, ele mesmo percebe o problema e fica frustrado. Exemplo clássico que vejo no consultório: “Dona Maria, de 74 anos, sempre cozinhou sem receita, mas agora esquece o fogão ligado e não lembra mais como fazer o arroz.”
  • Estágio moderado: A confusão mental se torna mais evidente. A pessoa pode se perder em lugares conhecidos (como o caminho de casa), ter dificuldade com tarefas simples (como pagar contas ou usar o celular), e apresentar alterações de humor — irritação, desconfiança (“alguém roubou minha carteira”), apatia ou agitação. O cuidador precisa de muito apoio nessa fase.
  • Estágio grave (avançado): O paciente perde a capacidade de se comunicar, de reconhecer familiares e de realizar atividades básicas (comer, tomar banho, andar). Passa a depender integralmente de cuidados, podendo ficar acamado. A memória remota (infância) pode persistir por mais tempo, mas também se perde.

É importante destacar que a progressão varia de pessoa para pessoa, e a velocidade do declínio pode ser modificada (mas não interrompida) com tratamento medicamentoso e suporte multidisciplinar.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, classificamos a Doença de Alzheimer principalmente de acordo com a idade de início e o padrão dos sintomas:

  • Alzheimer de início precoce (antes dos 65 anos): Corresponde a cerca de 5% dos casos. Tem forte componente genético (mutações nos genes APP, PSEN1, PSEN2). Os sintomas costumam progredir mais rápido e, por afetar pessoas ainda ativas, gera um impacto social e financeiro muito grande. Exemplo: “Seu Paulo, 58 anos, engenheiro, que começou a errar projetos e foi diagnosticado após dois anos de queixas.”
  • Alzheimer de início tardio (após os 65 anos): É a forma mais comum. O fator de risco principal é a idade, associado à genética (gene ApoE4) e a fatores ambientais (hipertensão, diabetes, sedentarismo, baixa escolaridade).
  • Quanto à apresentação clínica: A forma típica (amnéstica) tem predomínio da perda de memória recente. Já as formas atípicas podem começar com alterações de linguagem (afasia progressiva primária), de percepção visual (atrofia cortical posterior) ou de funções executivas (variante frontal).
  • Classificação por estágios (usada por neurologistas e geriatras): A CDR (Clinical Dementia Rating) gradua de 0 (sem demência) a 3 (demência grave). Já a GDS (Global Deterioration Scale) vai do estágio 1 (sem déficit) ao 7 (perda muito grave das funções). Essas escalas ajudam a planejar o tratamento e a orientar os cuidadores.

Quando procurar um médico

Nem todo esquecimento é Alzheimer. Mas existem sinais de alerta que merecem uma avaliação médica, especialmente se eles representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior da pessoa. Na minha experiência, o ideal é procurar um clínico geral ou um geriatra assim que surgirem as primeiras queixas, sem esperar “para ver se passa”.

Sinais de alerta:

  • Perda de memória que atrapalha a vida diária (esquecer datas importantes, repetir perguntas, depender de lembretes para tarefas rotineiras).
  • Dificuldade para planejar ou resolver problemas (ex: não conseguir seguir uma receita, errar contas de dinheiro).
  • Dificuldade com tarefas familiares em casa, no trabalho ou no lazer (ex: não lembrar as regras de um jogo que sempre jogou).
  • Desorientação no tempo ou no espaço (perder-se em ruas conhecidas, não saber o dia da semana).
  • Dificuldade com palavras (esquecer vocabulário, chamar objetos pelo nome errado).
  • Alterações de humor ou personalidade (depressão, ansiedade, desconfiança, irritação sem motivo aparente).
  • Isolamento social (deixar de participar de atividades que gostava).

Se um ou mais desses sintomas estiverem presentes, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Lá, o médico da família poderá fazer uma triagem inicial com testes como o Miniexame do Estado Mental (MEEM) e o Teste do Relógio, além de solicitar exames de sangue para descartar outras causas (como hipotireoidismo ou deficiência de vitamina B12). Se necessário, encaminhará para o neurologista ou geriatra do serviço especializado (CEO – Centro de Especialidades Odontológicas não, aqui é para demência: os serviços de neurologia nos hospitais regionais ou ambulatórios de geriatria). O diagnóstico precoce permite planejar o cuidado, acessar medicamentos pelo SUS e preparar a família.

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