O que é O que é Doença de Cushing?
Nos meus 15 anos de atendimento no SUS e em clínicas populares aqui no Brasil, aprendi que a Doença de Cushing é um daqueles diagnósticos que muitas vezes passam despercebidos por muito tempo. Em termos simples, é uma condição rara causada por um tumor benigno (chamado adenoma) na glândula hipófise, localizada na base do cérebro. Esse tumor produz em excesso um hormônio chamado ACTH (hormônio adrenocorticotrófico), que por sua vez estimula as glândulas suprarrenais (que ficam sobre os rins) a liberar muito cortisol – o famoso “hormônio do estresse”. O resultado é um verdadeiro tsunami de cortisol no organismo, causando uma série de sintomas que afetam o corpo inteiro.
É importante diferenciar a Doença de Cushing da Síndrome de Cushing. A síndrome é o conjunto de sinais e sintomas causados pelo excesso de cortisol, independentemente da causa. Já a doença de Cushing é uma causa específica – justamente o tumor na hipófise. No Brasil, estima-se que a incidência seja de cerca de 10 a 15 casos por milhão de habitantes por ano, mas acredito que esse número seja maior porque muitos pacientes demoram a ser diagnosticados, especialmente nas regiões com menor acesso a exames especializados. Nas clínicas populares, costumo ver pacientes que já passaram por vários médicos com queixas de ganho de peso inexplicável, pressão alta de difícil controle e diabetes que não melhora – e só depois de meses ou anos descobrem que a raiz do problema está na hipófise.
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o diagnóstico e o tratamento para a doença de Cushing, mas o acesso pode ser um desafio. A confirmação exige exames como dosagem de cortisol na urina de 24 horas, teste de supressão com dexametasona e, muitas vezes, ressonância magnética da hipófise. O tratamento principal é a cirurgia transesfenoidal (retirada do adenoma pelo nariz), que é realizada em centros de referência. Nos últimos anos, o Ministério da Saúde tem incluído medicamentos de alto custo no protocolo, mas a fila de espera ainda é longa. Por isso, é fundamental que o paciente seja encaminhado cedo para um endocrinologista – profissional que faz toda a diferença no manejo dessa condição.
Como funciona / Características
Na prática clínica, o paciente com Doença de Cushing chega ao consultório com uma aparência bem característica, que chamamos de face em lua cheia (rosto arredondado e avermelhado), giba de búfalo (acúmulo de gordura na nuca e entre os ombros) e estrias violáceas (roxas) no abdômen, nas mamas e nas axilas. A pele fica fina e frágil, com hematomas que surgem facilmente. O excesso de cortisol também causa fraqueza muscular (principalmente nas pernas e braços), osteoporose (ossos frágeis), pressão alta, diabetes, cicatrização lenta e infecções frequentes. Muitas mulheres param de menstruar e apresentam aumento de pelos no rosto e no corpo, enquanto os homens podem ter diminuição da libido e disfunção erétil.
Certa vez, atendi uma senhora de 48 anos, dona de casa em Fortaleza, que reclamava de “engordar demais sem comer muito” e de estar “muito fraca para subir escada”. Ela já havia tomado remédio para pressão e diabetes, mas nada controlava bem. Quando notei a face arredondada e as estrias roxas em uma paciente que não usava corticoides, suspeitei na hora. Pedi os exames de triagem e o resultado deu alto. Ela foi encaminhada para o serviço de endocrinologia do SUS e, após a cirurgia, melhorou drasticamente. Esse é um exemplo clássico: a doença de Cushing imita outras condições, e o olhar clínico atento faz toda a diferença.
O cortisol em excesso também afeta o humor: muitos pacientes relatam depressão, ansiedade, irritabilidade e dificuldade para dormir. Há um prejuízo cognitivo, com queixas de “memória fraca” e dificuldade de concentração. Crianças com a doença geralmente param de crescer e apresentam ganho de peso desproporcional. Por tudo isso, o diagnóstico precoce evita complicações sérias como fraturas, infecções graves e até risco de vida em casos de crise adrenal pós-cirúrgica.
Tipos e Classificações
A Doença de Cushing é apenas um tipo de Síndrome de Cushing. Para fins de classificação clínica, dividimos as causas do excesso de cortisol em:
- ACTH-dependente (70-80% dos casos): quando o excesso vem da hipófise (doença de Cushing) ou de um tumor produtor de ACTH fora da hipófise (como no pulmão, pâncreas ou tireoide). A doença de Cushing corresponde a cerca de 80% dos casos ACTH-dependentes.
- ACTH-independente (20-30%): quando o problema está nas próprias glândulas suprarrenais, que produzem cortisol em excesso sem estímulo do ACTH. Isso pode ser por um adenoma ou carcinoma (tumor maligno) na suprarrenal.
No Brasil, a ANVISA regula os medicamentos usados no tratamento, como os inibidores da produção de cortisol (cetoconazol, metirapona) e os novos antagonistas do receptor de ACTH (osilodrostat). Esses remédios são de alto custo e muitas vezes só estão disponíveis por meio de judicialização ou programas especiais do SUS. A classificação da doença é essencial para definir a abordagem: na doença de Cushing, a primeira opção é sempre a cirurgia hipofisária; se não for possível, partimos para radioterapia ou medicação.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico – preferencialmente um clínico geral na UBS ou em uma clínica popular – se notar uma combinação dos seguintes sinais e sintomas:
- Ganho de peso rápido e desproporcional, especialmente no rosto, abdômen e nuca.
- Surgimento de estrias roxas (violáceas) na pele, mesmo sem ter engordado muito.
- Pressão alta que não melhora com medicamentos comuns.
- Diabetes que aparece ou piora sem explicação.
- Fraqueza muscular progressiva, dificuldade para levantar de cadeiras ou subir escadas.
- Ossos que quebram com facilidade (osteoporose precoce).
- Em mulheres: irregularidade menstrual, aumento de pelos e queda de cabelo.
- Em crianças: parada do crescimento ou ganho de peso excessivo.
- Infecções frequentes e cicatrização lenta de feridas.
- Mudanças de humor, depressão ou ansiedade sem causa clara.
Se você tem vários desses sinais, não espere. Marque uma consulta com seu médico de confiança. Ele poderá solicitar exames iniciais simples, como cortisol salivar noturno ou cortisol urinário de 24 horas. O SUS oferece esses exames, embora possa haver fila. O importante é não deixar passar, porque o tratamento precoce evita sequelas permanentes.
Termos Relacionados
- Cortisol: O hormônio produzido pelas suprarrenais, essencial para o metabolismo, mas que em excesso causa todos os sintomas da síndrome. É conhecido como “hormônio do estresse”.
- ACTH: Hormônio produzido pela hipófise que estimula as suprarrenais a liberar cortisol. Na doença de Cushing, está elevado.
- Hipófise: Glândula do tamanho de uma ervilha localizada na base do cérebro, responsável por controlar várias outras glândulas do corpo. É onde se forma o adenoma na doença de Cushing.
- Síndrome de Cushing: Termo mais amplo que inclui qualquer situação de excesso de cortisol, seja por tumores, uso de corticoides ou outras causas.
- Corticoides (glicocorticoides): Medicamentos como prednisona, dexametasona e hidrocortisona, usados para tratar inflamações e doenças autoimunes. O uso prolongado é a causa mais comum de síndrome de Cushing (iatrogênica).
- Adenoma hipofisário: Tumor benigno na hipófise que, quando produtor de ACTH, causa a doença de Cushing. É diferente de um carcinoma (maligno), que é raro.
- Teste de supressão com dexametasona: Exame em que se toma um comprimido de dexametasona e depois se mede o cortisol no sangue. Se o cortisol não cair, sugere excesso de cortisol.
- Cirurgia transesfenoidal: Procedimento cirúrgico minimamente invasivo, feito pelo nariz, para retirar o adenoma da hipófise. É o tratamento de primeira linha da doença de Cushing.
Perguntas Frequentes sobre O que é Doença de Cushing
A doença de Cushing tem cura?
Sim, na maioria dos casos a doença de Cushing tem cura. O tratamento padrão é a cirurgia para remover o adenoma hipofisário (cirurgia transesfenoidal). Quando o tumor é completamente retirado por um neurocirurgião experiente, a taxa de cura chega a 80-90%. Após a cirurgia, o paciente pode precisar de reposição temporária de cortisol (com hidrocortisona) até que a hipófise se recupere. Em casos em que a cirurgia não é possível ou não resolve, existem opções como radioterapia e medicamentos, que podem controlar a doença por anos.


