quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Doença de Dupuytren

O que é Doença de Dupuytren?

A Doença de Dupuytren é uma condição benigna, progressiva e crônica que afeta a palma da mão, provocando o espessamento e encurtamento da fáscia palmar – uma membrana de tecido conjuntivo que fica logo abaixo da pele. Esse processo leva à formação de nódulos (caroços) e cordões fibrosos que, com o tempo, puxam um ou mais dedos para baixo, impedindo que a mão se estique completamente. Embora não seja dolorosa na maioria dos casos, a contratura limita a função manual, dificultando atividades simples como apertar a mão de alguém, colocar luvas, lavar o rosto ou tocar um instrumento.

No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, a Doença de Dupuytren aparece com frequência em pacientes a partir dos 50 anos, especialmente em homens brancos de ascendência europeia (nórdica ou celta). Dados epidemiológicos brasileiros ainda são escassos, mas estudos internacionais indicam prevalência de 3% a 6% na população geral, e sabemos que no Brasil a miscigenação torna a incidência um pouco menor. O Ministério da Saúde não inclui a doença como agravo de notificação compulsória, mas ela é reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID M72.0) e tratada na rede pública através das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e ambulatórios de ortopedia. Muitos pacientes chegam ao consultório achando que o caroço na palma da mão é calo ou “cisto”, e só procuram ajuda quando o dedo já não estica mais.

A doença é mais comum em pessoas com diabetes, epilepsia, alcoolismo crônico e tabagismo, e pode estar associada a outras condições fibrosantes, como a doença de Ledderhose (nós nos pés) e a doença de Peyronie (curvatura peniana). No contexto das clínicas populares, é essencial orientar o paciente desde o início: a Doença de Dupuytren não tem cura, mas tem tratamento que melhora muito a função da mão, e quanto mais cedo for diagnosticada, melhores os resultados.

Como funciona / Características

A Doença de Dupuytren começa de forma silenciosa. O paciente nota um pequeno nódulo duro na palma da mão, geralmente na altura do quarto ou quinto dedo (o anelar e o mínimo). Esse nódulo não dói, mas pode gerar desconforto ao apoiar a mão em superfícies duras. Com o passar dos meses ou anos, forma-se um cordão fibroso que vai da palma até a base do dedo, e a pele vai ficando enrugada e retraída (sinal do “pit” ou “dimple”). O dedo começa a dobrar lentamente, sem que o paciente consiga endireitá-lo ativamente.

No consultório, faço o teste de Hueston: peço que o paciente coloque a mão espalmada sobre a mesa. Se a palma não tocar completamente a superfície, ou se o dedo não esticar passivamente, já temos um sinal clínico importante. A progressão é variável – alguns pacientes permanecem estáveis por anos, enquanto outros evoluem rapidamente para contratura grave em poucos meses. A doença raramente afeta o polegar e o indicador, e nunca atravessa a articulação metacarpofalângica em direção ao punho.

No dia a dia do SUS, encaminhamos os casos suspeitos para a ortopedia especializada em mão (cirurgia da mão). Infelizmente, a fila para consulta especializada pode ser longa, então oriento os pacientes a já iniciarem medidas não cirúrgicas: alongamentos suaves, uso de órtese noturna (talas) e, se houver dor, anti-inflamatórios tópicos (como diclofenaco gel). Na rede privada ou em clínicas populares que oferecem ultrassom terapêutico, esse recurso pode ajudar a amolecer os nódulos nas fases iniciais. O importante é que o paciente entenda que a Doença de Dupuytren não é contagiosa, não é causada por esforço repetitivo nem por “mau jeito”, e que o tratamento cirúrgico só é indicado quando a contratura atrapalha a função.

Tipos e Classificações

A classificação mais usada no Brasil é a classificação de Tubiana, adotada pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e referendada pelo CFM. Ela avalia o déficit de extensão total dos dedos afetados, somando os ângulos de contratura em cada articulação (metacarpofalângica, interfalângica proximal e distal). Os graus são:

  • Grau 0: nódulo ou cordão sem contratura. A mão ainda estica completamente.
  • Grau I: contratura total de até 45° (geralmente só uma articulação comprometida).
  • Grau II: contratura entre 46° e 90°.
  • Grau III: contratura entre 91° e 135°.
  • Grau IV: contratura superior a 135°, com comprometimento severo da função.

Na prática do SUS, o cirurgião só indica a cirurgia quando o grau é ≥ II e há queixa funcional significativa. Antes disso, podemos usar uma classificação mais simples para orientar o paciente: “leve” (nódulo só), “moderada” (dedo começa a dobrar, mas ainda estica passivamente) e “grave” (dedo travado, impedindo atividades). Também existe a classificação de Iselin, focada na localização do cordão, mas a de Tubiana é a mais didática e utilizada nos prontuários do SUS.

Quando procurar um médico

Você deve procurar um clínico geral, um ortopedista ou seu médico de família na UBS sempre que perceber:

  • Um caroço duro na palma da mão, especialmente perto da base do dedo anelar ou mínimo.
  • Uma prega ou “covinha” na pele da palma que antes não existia.
  • Dificuldade para esticar completamente um dedo, mesmo que ainda consiga forçar com a outra mão.
  • Sensação de “corda” puxando o dedo para baixo.
  • Dor ou incômodo ao apoiar a mão na bancada, como ao fazer faxina ou digitar.

Não espere o dedo ficar totalmente fletido. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de retardar a progressão com medidas conservadoras. Na consulta, o médico fará um exame físico simples e, se necessário, pedirá uma ultrassonografia de partes moles para confirmar o diagnóstico e excluir outras causas (como tumores de bainha tendinosa). No SUS, esse exame pode ser solicitado pela UBS ou no ambulatório de ortopedia.

Sinais de alerta: se você tem diabetes, epilepsia, é etilista crônico ou tabagista, fique mais atento. Se notar nódulos também nos pés (doença de Ledderhose) ou curvatura no pênis (doença de Peyronie), informe ao médico, pois isso sugere uma tendência familiar e maior agressividade da Doença de Dupuytren.

Termos Relacionados

  • Fáscia palmar: tecido conjuntivo fibroso que reveste a palma da mão, responsável por dar sustentação e proteger os tendões. É o local onde a doença se desenvolve.
  • Nódulo de Dupuytren: caroço duro e indolor que surge na fáscia palmar, geralmente o primeiro sinal da doença.
  • Cordão fibroso: estrutura endurecida que se forma a partir do nódulo e se estende em direção ao dedo, causando a contratura.
  • Contratura em flexão: posição fixa do dedo dobrado, sem capacidade de esticar ativa ou passivamente.
  • Aponeurectomia: cirurgia para remover a fáscia doente (o cordão e os nódulos). É o tratamento definitivo nos casos moderados a graves.
  • Fasciotomia percutânea: procedimento minimamente invasivo, feito com uma agulha, para romper o cordão fibroso, indicado em casos leves a moderados.
  • Colagenase: medicamento injetável (Xiaflex®) que dissolve o colágeno do cordão, aprovado pela ANVISA para uso no Brasil, mas com custo elevado e sem cobertura no SUS até o momento.
  • Dedo em gatilho: condição diferente que trava o dedo ao tentar esticar, causada por inflamação do tendão, e não por contratura da fáscia. É um diagnóstico diferencial importante.

Perguntas Frequentes sobre O que é Doença de Dupuytren

A Doença de Dupuytren tem cura?

Não, a Doença de Dupuytren não tem cura definitiva, porque é uma condição genética e crônica. O que existe são tratamentos que revertem ou retardam a contratura, devolvendo a função da mão. Mesmo após a cirurgia, a doença pode voltar (recidiva) em cerca de 20% a 40% dos casos, especialmente se o paciente tiver fatores de risco como diabetes ou histórico familiar forte. O acompanhamento regular com o ortopedista é essencial para monitorar a progressão.

Precisa de cirurgia? O SUS oferece?

Nem todo paciente precisa de cirurgia. Nos casos leves (grau 0 e I de Tubiana), o tratamento é conservador: alongamentos, órtese noturna e observação. A cirurgia é indicada quando a contratura atrapalha a função (grau ≥ II) ou quando o dedo já não estica mais com a ajuda da outra mão. Sim, o SUS oferece cirurgia para Doença de Dupuytren através dos serviços de ortopedia e traumatologia, em hospitais de referência. A fila de espera varia conforme a região, mas a consulta inicial pode ser agendada na UBS, que encaminha para o especialista. A técnica mais comum no SUS é a aponeurectomia parcial.

A doença é hereditária?

Sim, há forte componente genético. Cerca de 60% a 70% dos pacientes têm histórico familiar positivo. A herança é autossômica dominante, ou seja, se um dos pais tem a doença, o filho tem 50% de chance de desenvolver. Por isso, quando atendo um paciente, oriento que os filhos e irmãos fiquem atentos aos primeiros sinais, como nódulos na palma.

O que piora a Doença de Dupuytren?

Fatores que aceleram a progressão incluem tabagismo (a nicotina reduz a oxigenação dos tecidos e estimula fibrose), consumo excessivo de álcool, diabetes descontrolada e epilepsia (principalmente em quem usa medicamentos como fenobarbital). Traumas repetitivos na palma (como em trabalhadores manuais) não causam a doença, mas podem tornar os nódulos mais dolorosos. Manter uma boa hidratação, controlar o diabetes e evitar cigarro e álcool ajuda a desacelerar o processo.

Tem tratamento sem cirurgia?

Sim, além dos alongamentos e órteses, existem opções minimamente invasivas. A injeção de colagenase (Xiaflex®) é aprovada pela ANVISA e dissolve o cordão fibroso, sendo eficaz nos graus I e II. Porém, cada ampola custa em torno de R$ 5.000, e o tratamento completo pode exigir até 3 aplicações. Não há cobertura pelo SUS, mas alguns planos de saúde privados cobrem. Outra opção é a radioterapia superficial, usada em fases iniciais (nódulo sem contratura), com baixíssimas doses de radiação para frear a fibrose – disponível em centros de radioterapia privados, mas ainda controversa e sem protocolo definido no Brasil.

A doença pode voltar depois da cirurgia?

Infelizmente, sim. A recidiva é comum, especialmente em pacientes jovens (antes dos 50 anos), com doença bilateral, histórico familiar forte e envolvimento do quinto dedo (mínimo). A taxa de recorrência após aponeurectomia varia de 20% a 40% em 5 a 10 anos. Por isso, após a cirurgia, o paciente deve continuar com alongamentos e retornar ao ortopedista periodicamente. Em caso de recidiva, pode-se repetir a cirurgia ou tentar a fasciotomia percutânea, dependendo do grau.

Conteúdo revisado por equ


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