O que é O que é Doença de Graves?
A Doença de Graves é uma condição autoimune que faz a tireoide – uma glândula em forma de borboleta localizada na parte frontal do pescoço – produzir hormônios tireoidianos em excesso. No Brasil, essa é a principal causa de hipertireoidismo (tireoide hiperativa) e afeta cerca de 1 a 2% da população, com predominância no sexo feminino – para cada homem, de 5 a 8 mulheres desenvolvem a doença. A faixa etária mais comum está entre 20 e 40 anos, mas crianças, adolescentes e idosos também podem ser diagnosticados.
No dia a dia de uma clínica popular do SUS ou de uma unidade básica, o cenário é típico: uma paciente jovem chega relatando que está “nervosa demais”, com o coração acelerado, suando muito e perdendo peso mesmo comendo bem. Muitas vezes ela já passou por vários médicos e recebeu diagnósticos de ansiedade ou síndrome do pânico. É no exame clínico que percebemos um leve tremor nas mãos, a tireoide aumentada (bócio) e, em alguns casos, os olhos mais saltados (exoftalmia). O diagnóstico é confirmado com exames simples de sangue – TSH baixo e T4 livre elevado – e, quando possível, com a dosagem de anticorpos anti-receptor de TSH (TRAb), que são específicos da doença.
Na rede pública, o acesso ao endocrinologista e aos exames pode levar semanas ou meses, dependendo da região. Por isso, o papel do clínico geral é fundamental: iniciar o tratamento com metimazol (medicação que bloqueia a produção hormonal) e encaminhar o paciente para acompanhamento especializado. Em clínicas populares privadas, o diagnóstico costuma ser mais rápido, mas o desafio é manter o paciente em uso contínuo da medicação e monitoramento regular, já que muitos abandonam o tratamento por efeitos colaterais ou por melhora dos sintomas.
Como funciona / Características
O sistema imunológico da pessoa com Doença de Graves produz anticorpos que se ligam aos receptores de TSH na tireoide, estimulando a glândula a fabricar hormônios sem obedecer ao controle natural do cérebro. É como se o acelerador ficasse permanentemente pressionado. Esse excesso hormonal acelera todo o metabolismo do corpo, gerando uma série de sintomas:
- Palpitações e taquicardia (coração acelerado, mesmo em repouso)
- Tremor fino nas mãos e dedos
- Perda de peso inexplicada, com aumento do apetite
- Sudorese excessiva e intolerância ao calor
- Nervosismo, ansiedade, irritabilidade e dificuldade para dormir
- Cansaço muscular e fraqueza, especialmente nos braços e coxas
- Alterações intestinais (diarreia ou aumento do número de evacuações)
- Nas mulheres, irregularidade menstrual ou ausência de menstruação
- Em muitos casos, bócio – aumento visível da tireoide, que pode ser notado ao engolir
- Oftalmopatia de Graves: olhos saltados (exoftalmia), sensação de areia nos olhos, vermelhidão, inchaço ao redor dos olhos e, em casos graves, visão dupla ou perda da visão
- Dermopatia: menos comum, mas pode causar espessamento e vermelhidão na pele das canelas (mixedema pré-tibial)
No cotidiano da clínica, muitos pacientes confundem os sintomas com estresse ou ansiedade. Um exemplo clássico: a senhora de 35 anos que trabalha em dois empregos, relata que “não consegue parar quieta”, perdeu 8 kg em dois meses e está com insônia. Ao examinar, percebemos a tireoide aumentada e o tremor. Pedimos TSH e T4 livre – o TSH vem suprimido (quase zero) e o T4 livre elevado. Está feito o diagnóstico.
O tratamento no SUS segue os protocolos do Ministério da Saúde. As opções são:
- Medicamentos antitireoidianos: metimazol ou propiltiouracila (usado em gestantes). O metimazol é o mais prescrito, mas pode causar reações alérgicas, alterações no paladar, e raramente agranulocitose (queda grave dos glóbulos brancos), que exige acompanhamento com hemograma.
- Iodo radioativo: tratamento de escolha para muitas mulheres não grávidas. Destrói gradualmente a tireoide, levando ao hipotireoidismo, que é mais fácil de controlar com reposição hormonal (levotiroxina).
- Tireoidectomia (cirurgia de retirada da tireoide): indicada para bócios muito grandes, suspeita de câncer, gestantes que não podem usar iodo, ou pacientes que não conseguem tomar medicamentos. No SUS, a cirurgia pode ter fila de espera, mas é feita em hospitais de referência.
Na clínica popular, orientamos o paciente a retornar a cada 1-3 meses no início, para ajuste de dose e exames de controle. É essencial alertar sobre os sinais de efeitos colaterais graves: febre, dor de garganta intensa, aftas orais – podem indicar agranulocitose e exigem atendimento de urgência.
Tipos e Classificações
A Doença de Graves não é classificada em subtipos formais, mas pode ser dividida de acordo com as manifestações clínicas principais:
- Graves com hipertireoidismo isolado: predomínio dos sintomas metabólicos (taquicardia, perda de peso, tremor), sem acometimento ocular ou de pele.
- Oftalmopatia de Graves: quando há comprometimento dos olhos, podendo variar de leve (sensação de ressecamento, retração palpebral) a grave (proptose, compressão do nervo óptico). É classificada em atividade (inflamação ativa) e severidade (leve, moderada, grave). No Brasil, a ANVISA aprovou recentemente o uso de teprotumumabe para casos moderados a graves, mas o medicamento ainda não está disponível no SUS.
- Dermopatia de Graves: pele espessada e avermelhada nas pernas, rara e geralmente associada à oftalmopatia grave.
- Doença de Graves na gestação: exige cuidado redobrado, pois o hipertireoidismo não tratado pode causar aborto, parto prematuro e pré-eclâmpsia. O tratamento com propiltiouracila no primeiro trimestre e metimazol no segundo/terceiro é orientado pelo Ministério da Saúde e pelo CFM.
Na prática, os clínicos gerais costumam diferenciar apenas a presença ou não de oftalmopatia, pois isso altera a urgência do encaminhamento ao oftalmologista.
Quando procurar um médico
É importante buscar uma consulta médica (clínico geral ou endocrinologista) sempre que houver sinais de que o metabolismo está acelerado sem causa aparente. Os principais sinais de alerta são:
- Perda de peso involuntária de mais de 3 kg em um mês, mesmo com apetite normal ou aumentado
- Coração acelerado (taquicardia) ou palpitações frequentes
- Suor excessivo e sensação constante de calor
- Tremor nas mãos que dificulta tarefas finas, como escrever ou segurar um copo
- Nervosismo, ansiedade ou irritabilidade fora do normal
- Falta de ar ou cansaço fácil mesmo em atividades leves
- Olhos saltados, vermelhos, lacrimejantes ou com sensação de pressão atrás dos olhos
- Inchaço no pescoço (bócio) visível ou palpável
- Alterações menstruais em mulheres em idade fértil
Para quem já tem diagnóstico de Doença de Graves, a procura pelo médico deve ser imediata se aparecerem sintomas como febre alta, dor de garganta intensa, aftas na boca ou gengivas sangrando – podem ser sinais de agranulocitose (queda de glóbulos brancos) causada pelo metimazol. Esse quadro é raro, mas grave, e requer suspensão do remédio e atendimento hospitalar de urgência.
No SUS, o paciente deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. O médico da família pode solicitar os exames iniciais e iniciar o tratamento. Caso não haja melhora ou haja complicações, é feito o encaminhamento para um Ambulatório de Endocrinologia. Para gestantes, o pré-natal de alto risco deve ser acionado.
Termos Relacionados
- Hipertireoidismo: condição em que a tireoide produz hormônios em excesso. A Doença de Graves é a causa mais comum de hipertireoidismo no Brasil.
- Tireoide: glândula endócrina localizada no pescoço, responsável por produzir T3 e T4, hormônios que regulam o metabolismo.
- TSH: hormônio produzido pela hipófise que estimula a tireoide. No hipertireoidismo, o TSH fica suprimido (baixo).
- T4 livre: fração ativa do hormônio tireoidiano; está elevado nos casos de hipertireoidismo não tratado.
- TRAb (anticorpos anti-receptor de TSH): exame específico para confirmar Doença de Graves. Disponível em alguns laboratórios públicos e privados.
- Metimazol: medicamento antitireoidiano mais usado no Brasil. Disponível na farmácia popular e no SUS.
- Oftalmopatia de Graves: complicação ocular autoimune que pode ocorrer mesmo após normalização dos hormônios. Exige acompanhamento com oftalmologista.
- Bócio: aumento do volume da glândula tireoide, podendo ser difuso (como na Graves) ou nodular.
Perguntas Frequentes sobre O que é Doença de Graves
A Doença de Graves tem cura?
Não existe cura definitiva, mas o controle é possível. Com o tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue normalizar os níveis hormonais e viver sem sintomas. Após o uso de iodo radioativo ou cirurgia, a pessoa geralmente desenvolve hipotireoidismo (tireoide lenta) e passa a tomar levotiroxina (reposição hormonal) pelo resto da vida, que é um tratamento simples e barato.
O que causa a Doença de Graves?
A causa exata não é conhecida, mas sabe-se que há predisposição genética e que fatores ambientais podem desencadear a doença. Infecções virais, estresse intenso, parto e tabagismo são gatilhos conhecidos. Fumar aumenta muito o risco de desenvolver a oftalmopatia e piora seu curso. O sistema imunológico passa a atacar a própria tireoide, produzindo anticorpos que a estimulam.
A Doença de Graves é contagiosa?
Não. É uma doença autoimune, ou seja, o sistema de defesa do próprio corpo ataca a tireoide. Não há transmissão entre pessoas. Não é necessário evitar contato com quem tem a doença.
Qual exame confirma a Doença de Graves?
O diagnóstico é feito com exames de sangue: TSH (baixo), T4 livre (elevado) e, idealmente, a dosagem de anticorpos anti-receptor de TSH (TRAb). Quando o TRAb está positivo, o diagnóstico é praticamente certo. Em alguns casos, o médico pode pedir ultrassom da tireoide e cintilografia (exame de imagem com iodo radioativo) para descartar outras causas.
Posso engravidar tendo Doença de Graves?
Sim, mas é fundamental planejar a gestação com o endocrinologista e o obstetra. O hipertireoidismo descontrolado pode prejudicar a mãe e o bebê


