O que é Doença de Paget mamária?
Doença de Paget mamária é uma forma rara de câncer de mama que começa na pele do mamilo e da aréola (parte escura ao redor do mamilo). Ela se parece com uma irritação ou eczema que não cicatriza e geralmente está associada a um tumor mais profundo na mama, chamado de carcinoma ductal (in situ ou invasivo). Diferente do câncer de mama comum, que forma um nódulo palpável, a Paget mamária se manifesta primeiro na superfície, o que muitas vezes leva a atrasos no diagnóstico porque as mulheres confundem com assaduras, alergias ou dermatites.
Na rotina de uma clínica popular ou no SUS, eu atendo pacientes que chegam com queixas como: “doutor, esse bico do peito está descascando há meses”, “passo pomada de assadura mas não sara”, ou “tenho coceira que não passa”. Muitas vezes a mulher já tentou tratamentos caseiros ou usou cremes com corticoides sem melhora. É um sinal de alerta importante: qualquer alteração persistente no mamilo deve ser investigada com um mastologista. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que, entre todos os casos de câncer de mama, a Doença de Paget corresponde a cerca de 1% a 4%. A maioria das pacientes tem mais de 50 anos, mas mulheres jovens também podem ser afetadas.
O grande desafio na atenção primária é a falta de conhecimento sobre essa apresentação atípica. Muitas vezes, a paciente é medicada para candidíase ou dermatite de contato e perde tempo precioso. Por isso, reforço: se a lesão no mamilo persistir por mais de 2 a 3 semanas mesmo com tratamento simples, a paciente deve ser referenciada para um serviço especializado do SUS, onde será feita a coleta de material (biópsia da pele) e exames de imagem (mamografia e ultrassom). O diagnóstico precoce aumenta muito as chances de cura e permite tratamentos menos agressivos.
Como funciona / Características
O Doença de Paget mamária funciona como uma extensão de células cancerígenas do ducto mamário para a epiderme do mamilo. Essas células, chamadas de células de Paget, migram pelos ductos lactíferos e chegam à pele, causando inflamação, vermelhidão, descamação e, às vezes, ulceração (ferida). É parecido com a formação de uma caspa ou crosta no bico do peito, que pode sangrar ou secretar um líquido amarelado.
No consultório, eu costumo perguntar: “A senhora percebeu se o mamilo ficou invertido (virado para dentro)?” ou “Tem alguma diferença entre as duas mamas?”. Esses são sinais clássicos. A lesão geralmente começa em um único lado e vai progredindo lentamente. Pode haver sensação de queimação, coceira intensa ou dor local. Como a aparência é muito semelhante a um eczema, muitos pacientes tentam hidratantes ou pomadas anti-inflamatórias, mas não há melhora sustentada.
Uma característica importante é que, em cerca de metade dos casos, a mulher consegue palpar um nódulo na mama quando se faz o autoexame ou a consulta médica. Mas em 30% a 50% dos casos não há nódulo palpável, o que torna o diagnóstico ainda mais desafiador. A mamografia e a ultrassonografia ajudam a identificar alterações internas, mas a confirmação definitiva exige a biópsia da pele do mamilo, que é um procedimento simples, feito com anestesia local nos ambulatórios do SUS.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, a Doença de Paget mamária é classificada de acordo com a presença ou ausência de um tumor subjacente:
- Doença de Paget sem tumor palpável (puro): quando não há nódulo ou massa na mama. Nesse caso, as células cancerígenas estão restritas ao mamilo e aréola, mas geralmente há um carcinoma ductal in situ (não invasivo) nos ductos. O prognóstico é excelente, com cura em mais de 90% dos casos.
- Doença de Paget associada a tumor palpável: quando a mulher sente um caroço na mama. Nesse cenário, geralmente existe um carcinoma ductal invasivo (que já rompeu a parede do ducto e pode ter se espalhado). O tratamento é mais complexo e o prognóstico depende do tamanho do tumor, do comprometimento de linfonodos e dos receptores hormonais.
Também utilizamos a classificação TNM (Tumor, Linfonodos, Metástase) adotada pelo Ministério da Saúde para estadiamento. No sistema TNM, a Paget mamária isolada é classificada como Tis (carcinoma in situ) quando não há massa. Se houver nódulo, o estadiamento segue as regras do câncer de mama comum. As diretrizes do Conselho Federal de Medicina (CFM) e as recomendações do INCA orientam que toda paciente com suspeita de Paget deve ser encaminhada ao mastologista e realizar biópsia, mamografia e, se indicado, ressonância magnética.
Quando procurar um médico
Procure atendimento médico (clínico geral ou ginecologista) imediatamente se você notar:
- Vermelhidão, descamação, crosta ou ferida no mamilo ou aréola que não melhora em 2 semanas com cuidados básicos (hidratação, evitar alergênicos);
- Coceira ou ardência persistente em um único mamilo;
- Saída de líquido (secreção) amarelada, esverdeada ou com sangue pelo mamilo;
- Mamilo que fica invertido (virado para dentro) ou retraído;
- Mudança na textura da pele da aréola (aspecto de casca de laranja);
- Presença de nódulo na mama, mesmo que pequeno.
Na clínica popular, sempre digo: “Se você já está há mais de um mês com o bico do peito irritado e já tentou pomada de corticóide sem melhora, isso é sinal de alerta.” O SUS oferece acesso a mastologistas nos ambulatórios de referência, e a fila para biópsia pode variar, mas o diagnóstico precoce reduz drasticamente a necessidade de mastectomia (retirada total da mama) e aumenta as chances de tratamentos conservadores.
Termos Relacionados
- Carcinoma ductal in situ (CDIS): forma inicial de câncer de mama, limitada aos ductos, sem invasão. Muitas vezes acompanha a Doença de Paget.
- Carcinoma ductal invasivo: tipo mais comum de câncer de mama, que invade tecidos adjacentes. Pode estar associado à Paget quando há nódulo palpável.
- Mamografia: exame de raio-X das mamas usado para rastreamento e diagnóstico, fundamental para avaliar a mama profunda na suspeita de Paget.
- Biopisia de pele: procedimento para retirar um pequeno fragmento da lesão do mamilo e analisar ao microscópio. É o padrão-ouro para confirmar a doença.
- Mastectomia: cirurgia de retirada total da mama. Pode ser necessária quando o tumor é extenso ou multifocal.
- Cirurgia conservadora (tumorectomia): retirada apenas do tumor e de uma margem de tecido saudável, preservando a maior parte da mama. Possível em casos iniciais.
- Receptores hormonais: proteínas nas células do câncer que respondem a hormônios (estrogênio e progesterona). Influenciam o tratamento com hormonioterapia.
- Oncologia clínica: especialidade que trata o câncer com quimioterapia, hormonioterapia, imunoterapia e terapia-alvo. Essencial no manejo dos casos avançados.
Perguntas Frequentes sobre O que é Doença de Paget mamária
1. Doença de Paget mamária é contagiosa?
Não, de forma alguma. Ela é um câncer, não é transmitida por contato, toque ou relação sexual. Muitas pacientes têm medo de passar para o companheiro ou filhos, mas isso não acontece. O que ocorre é uma multiplicação anormal das próprias células da mama.
2. Todo eczema no mamilo é Doença de Paget?
Não. A grande maioria das lesões no mamilo é benigna, como dermatite atópica, eczema de contato (alergia a sabonetes, tecidos) ou infecção por fungos. A diferença é que a Paget não melhora com hidratantes, antifúngicos ou corticoides tópicos. Se a lesão persistir por mais de 2 a 3 semanas, procure um médico para avaliar.
3. Qual exame confirma o diagnóstico?
O exame definitivo é a biópsia da pele do mamilo ou aréola. O médico colhe um fragmento com anestesia local e envia para análise patológica. Também são feitos mamografia e ultrassom para investigar se há tumor na mama. No SUS, o acesso a esses exames é regulado pelas secretarias municipais de saúde; o clínico geral pode solicitar a biópsia e referenciar ao mastologista.
4. Precisa retirar a mama inteira?
Nem sempre. Se a doença for diagnosticada precocemente, sem nódulo palpável, pode-se fazer apenas a remoção do complexo areolomamilar (retirada do mamilo e aréola) com cirurgia conservadora, preservando a maior parte da mama. Mas se houver um tumor invasivo grande ou multifocal, a mastectomia pode ser necessária. O mastologista decide junto com a paciente a melhor abordagem.
5. Existe prevenção?
Não há uma forma específica de prevenir a Doença de Paget, mas manter o rastreamento do câncer de mama em dia (mamografia anual a partir dos 40 anos, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde) ajuda a detectar tumores associados precocemente. Além disso, ficar atenta a qualquer mudança persistente no mamilo e procurar ajuda rapidamente é a melhor prevenção contra diagnósticos tardios.
6. Como é o tratamento no SUS?
O tratamento é oferecido integralmente pelo SUS, seguindo os protocolos do INCA. Inclui cirurgia (conservadora ou mastectomia), radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapia-alvo, conforme o estadiamento e os receptores hormonais. O acompanhamento é multidisciplinar com mastologista, oncologista, radioterapeuta e psicólogo. As pacientes têm direito a próteses mamárias externas e cirurgia reparadora quando indicado. Consulte a unidade básica de saúde para ser referenciada ao serviço de mastologia da sua região.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


