O que é Doença de Pott?
A Doença de Pott, também conhecida como Mal de Pott ou tuberculose óssea da coluna vertebral, é uma forma grave de tuberculose extrapulmonar. Ela ocorre quando a bactéria Mycobacterium tuberculosis, responsável pela tuberculose pulmonar, atinge os ossos da coluna, geralmente a região torácica ou lombar. Diferente da tuberculose comum, que afeta os pulmões, a Doença de Pott ataca as vértebras, causando inflamação, destruição óssea e, muitas vezes, deformidades como a cifose (corcunda).
No Brasil, a tuberculose ainda é um problema de saúde pública, com cerca de 70 mil novos casos por ano (dados do Ministério da Saúde). Embora a forma pulmonar seja a mais comum, a Doença de Pott representa entre 1% e 3% de todos os casos de tuberculose, mas sua incidência é maior em regiões com baixa cobertura de saúde e em populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua, indígenas e portadores de HIV. No dia a dia de uma clínica popular do SUS, atendemos pacientes que chegam com queixas de dor nas costas crônica, que não passa com analgésicos comuns, acompanhada de febre baixa e perda de peso. Muitas vezes, o diagnóstico demora porque os sintomas são confundidos com problemas mecânicos da coluna, como hérnia de disco ou artrose.
A boa notícia é que a Doença de Pott tem cura. O tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS, seguindo o esquema básico de antibióticos (rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol) por 6 a 9 meses, com acompanhamento direto (TDO). O diagnóstico precoce é essencial para evitar sequelas neurológicas, como paralisia das pernas. Como médico, sempre oriento: se você tem dor nas costas que piora à noite, suores noturnos ou febre, não ignore – procure uma Unidade Básica de Saúde.
Como funciona / Características
A bactéria chega à coluna através da corrente sanguínea, geralmente vinda de um foco pulmonar ativo ou latente. Uma vez nos ossos, ela se instala no corpo vertebral (parte anterior da vértebra) e começa a destruir o tecido ósseo, criando um processo inflamatório chamado de granuloma caseoso. Com o tempo, a vértebra colapsa, formando uma deformidade angular – a cifose – que pode ser visível como uma giba. Esse colapso pode comprimir a medula espinhal, levando a fraqueza muscular, dormência nas pernas e até paraplegia.
No consultório, vejo casos clássicos: um paciente jovem, entre 20 e 40 anos, que chega com dor insidiosa na região torácica ou lombar, que piora à noite e melhora relativamente com repouso. Ele pode relatar febre baixa no final da tarde, perda de peso inexplicada e cansaço. Ao exame físico, muitas vezes encontramos contratura muscular paravertebral e, em estágios avançados, a gibosidade. Para confirmar, solicitamos uma radiografia simples da coluna (que pode mostrar estreitamento do espaço discal e destruição vertebral) e, se disponível, uma tomografia ou ressonância magnética, que mostram melhor o abscesso, também chamado de abscesso de Pott. Esse abscesso pode se estender para os tecidos moles ao redor, formando uma massa palpável ou até mesmo drenando para a pele.
O tratamento é medicamentoso, mas em casos com compressão medular iminente ou abscesso grande, pode ser necessária cirurgia para descompressão e estabilização da coluna. No SUS, o paciente é encaminhado para um serviço de referência em infectologia e ortopedia. É importante lembrar que o tratamento é longo e precisa ser seguido à risca, pois a resistência bacteriana é um desafio crescente, especialmente em populações mais vulneráveis.
Tipos e Classificações
Na prática clínica, a Doença de Pott é classificada principalmente com base na localização anatômica e no estágio neurológico:
- Quanto à localização: Cervical (rara, mas mais perigosa por risco de compressão alta), torácica (a mais comum, responsável por cerca de 50% dos casos) e lombar (também frequente). A região torácica é mais afetada porque o fluxo sanguíneo e a carga mecânica favorecem a implantação da bactéria.
- Quanto à presença de abscesso: Pode ser abscesso paravertebral (ao lado da coluna), abscesso retrofaríngeo (quando na região cervical) ou abscesso psoas (quando o pus desce pelo músculo psoas até a virilha).
- Classificação neurológica (Escala de Frankel): Usada para avaliar o comprometimento motor. Varia de “A” (paraplegia completa, sem sensibilidade) a “E” (função neurológica normal). No Brasil, o SUS utiliza essa escala para decidir a urgência cirúrgica.
- Estágio evolutivo (classificação de Tuli): Estágio 1 (somente inflamação, sem destruição óssea), Estágio 2 (destruição óssea, mas sem deformidade fixa) e Estágio 3 (deformidade fixa e/ou compressão medular).
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico imediatamente se apresentar os seguintes sinais de alerta:
- Dor na coluna que persiste por mais de 2 a 3 semanas, especialmente se piorar à noite ou em repouso.
- Febre baixa (até 38°C) no final da tarde, suores noturnos que molham o lençol ou calafrios.
- Perda de peso sem causa aparente, cansaço fácil ou falta de apetite.
- Formigamento, dormência ou fraqueza nas pernas, dificuldade para andar ou sensação de “perna boba”.
- Deformidade visível na coluna (giba) ou aparecimento de uma massa nas costas.
- Histórico de contato com pessoa com tuberculose pulmonar nos últimos meses.
No SUS, o primeiro passo é ir a uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Lá, o clínico geral vai solicitar exames simples como radiografia da coluna, teste tuberculínico (PPD) e exame de escarro se houver tosse. Se houver suspeita, você será encaminhado para um centro de referência em tuberculose. Não tome anti-inflamatórios ou corticoides por conta própria, pois eles podem mascarar os sintomas e piorar a infecção. O diagnóstico precoce é a chave para evitar sequelas permanentes.
Termos Relacionados
- Tuberculose: Infecção bacteriana crônica causada pelo Mycobacterium tuberculosis, geralmente pulmonar, mas que pode atingir qualquer órgão. A Doença de Pott é uma forma de tuberculose extrapulmonar.
- Cifose (giba): Deformidade da coluna com curvatura exagerada para trás, comum na Doença de Pott devido ao colapso vertebral.
- Abscesso de Pott: Coleção de pus que se forma ao redor da vértebra infectada, podendo se estender para regiões distantes, como a virilha (abscesso do psoas).
- PPD (prova tuberculínica): Teste cutâneo que indica se a pessoa já teve contato com a bactéria da tuberculose. Reações fortes (>10 mm) podem sugerir doença ativa.
- Tratamento Diretamente Observado (TDO): Estratégia do SUS onde o paciente toma os remédios na presença de um profissional de saúde para garantir adesão e evitar resistência.
- Compressão medular: Aperto da medula espinhal causado pela inflamação ou pus, que pode levar a paralisia dos membros inferiores.
- Mal de Pott: Sinônimo histórico de Doença de Pott, em homenagem ao cirurgião inglês Percivall Pott, que descreveu a condição no século XVIII.
- Baciloscopia de escarro: Exame que procura a bactéria no catarro. Mesmo sem sintomas pulmonares, pode ser positiva se houver foco pulmonar associado.
Perguntas Frequentes sobre O que é Doença de Pott
A Doença de Pott é contagiosa?
Não. A Doença de Pott não é transmitida de pessoa para pessoa, porque a bactéria está nos ossos, não nas secreções respiratórias. Porém, cerca de metade dos pacientes tem também tuberculose pulmonar ativa, que essa sim é contagiosa. Por isso, todo paciente com diagnóstico de Doença de Pott deve fazer exame de escarro para descartar tuberculose pulmonar. Se só a coluna estiver afetada, não há risco de transmitir para familiares ou colegas de trabalho.
A dor piora com movimento ou com repouso?
Na Doença de Pott, a dor geralmente piora à noite e em repous


