quarta-feira, maio 27, 2026

O que é Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)

O que é Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)?

A Doença do refluxo gastroesofágico, conhecida pela sigla DRGE, é uma condição muito comum no dia a dia do médico de clínica geral, principalmente no SUS e em clínicas populares. De forma simples, é o retorno do conteúdo do estômago (ácido, alimentos e até bile) para o esôfago, o tubo que liga a boca ao estômago. Isso acontece porque a válvula que separa esses dois órgãos, chamada de esfíncter esofágico inferior, não funciona direito, relaxando em momentos inadequados. O resultado? A pessoa sente aquela queimação na “boca do estômago” (pirose), regurgitação azeda, dor no peito, tosse crônica ou sensação de “bolo” na garganta.

No consultório popular, a DRGE está entre as queixas mais frequentes. Quase todo dia chega um paciente dizendo: “Doutor, a azia não passa com os remédios da farmácia” ou “Durmo com vários travesseiros porque, quando deito, o ácido sobe”. A prevalência no Brasil é alta: estima-se que cerca de 12% a 20% da população adulta tenha sintomas típicos de refluxo, segundo dados do Ministério da Saúde e estudos epidemiológicos nacionais. Isso significa que, de cada dez brasileiros, pelo menos um ou dois sofrem com o problema. O impacto na qualidade de vida é enorme – afeta o sono, o trabalho, a alimentação e pode levar a complicações sérias se não for tratado.

No contexto do SUS, a DRGE é manejada principalmente na Atenção Primária, com acesso a medicamentos como omeprazol, pantoprazol e outros inibidores da bomba de prótons (IBPs), além de orientações de mudança de hábitos. A ANVISA regula os medicamentos de venda livre para azia, mas é importante que o paciente não se automedique por longos períodos sem acompanhamento. O CFM orienta que o diagnóstico é predominantemente clínico, podendo ser complementado por endoscopia digestiva alta em casos de sinais de alarme ou falha terapêutica. A endoscopia está disponível no SUS por meio de regulação e filas, sendo prioridade para pacientes com maior risco.

Como funciona / Características

O mecanismo principal é a incompetência do esfíncter esofágico inferior. Imagine uma portinha que fecha na junção do esôfago com o estômago. Em condições normais, ela se abre só para o alimento passar e se mantém fechada o resto do tempo. Na DRGE, essa portinha fica frouxa ou relaxa espontaneamente, permitindo que o suco gástrico – que é extremamente ácido – suba e irrite a mucosa do esôfago. Esse tecido não é preparado para lidar com acidez, ao contrário do estômago, que tem uma proteção especial.

No cotidiano da clínica popular, a DRGE se apresenta de várias formas. Alguns pacientes descrevem:

  • Pirose: a famosa “queimação” que começa atrás do osso do peito (esterno) e pode subir até a garganta.
  • Regurgitação: sensação de líquido azedo ou amargo vindo para a boca, principalmente após refeições ou ao se curvar.

Mas há também formas atípicas, que podem enganar o paciente (e até o médico menos experiente):

  • Tosse crônica que não melhora com tratamentos comuns para asma ou alergia.
  • Rouquidão ou pigarro constante, especialmente ao acordar.
  • Globus faríngeo – sensação de “bolo” ou “nó” na garganta.
  • Dor torácica não cardíaca que pode ser confundida com infarto. Por segurança, sempre investigamos o coração primeiro, mas o refluxo é uma causa frequente.

No meu consultório, já atendi pacientes que foram tratados para sinusite, bronquite ou ansiedade por meses, até descobrirmos que a raiz do problema era o refluxo. Um exemplo prático: uma senhora de 55 anos reclamava de tosse seca há mais de seis meses, que piorava à noite. Ela usava xaropes, corticosteroides inalatórios, nada adiantava. Ao perguntar sobre azia, ela relatou que sentia “queimação esporádica”, mas não associava. Iniciamos omeprazol e orientamos elevar a cabeceira da cama. Em duas semanas, a tosse desapareceu.

Tipos e Classificações

A DRGE pode ser classificada de acordo com o que se vê (ou não) na endoscopia digestiva alta. As classificações mais usadas no Brasil e no mundo são:

  • Doença do refluxo não erosiva (DRNE ou NERD): o paciente tem sintomas típicos, mas a endoscopia não mostra nenhuma lesão visível na parede do esôfago. É o tipo mais comum, correspondendo a cerca de 60% dos casos. O diagnóstico é baseado na história clínica e, às vezes, na resposta ao tratamento.
  • Esofagite erosiva: quando o ácido já causou inflamação e pequenas feridas (erosões) no esôfago. A gravidade é graduada de A a D (Classificação de Los Angeles), sendo A a mais leve e D a mais grave, com úlceras profundas.
  • Esôfago de Barrett: é uma complicação crônica em que o epitélio do esôfago se transforma em um tipo de revestimento semelhante ao do intestino, como uma tentativa de se proteger do ácido. Apesar de ser uma adaptação, aumenta o risco de câncer de esôfago. Por isso, pacientes com Barret precisam de acompanhamento regular com endoscopia.

Na prática do SUS, a maioria dos casos de DRGE é tratada sem necessidade de classificação endoscópica, pois a endoscopia tem fila e custo. A classificação é reservada para casos de sinais de alarme (perda de peso, anemia, dificuldade para engolir, vômitos com sangue) ou falha do tratamento clínico.

Quando procurar um médico

Se você tem azia ou regurgitação mais de duas vezes por semana, ou se esses sintomas atrapalham sua rotina (sono, trabalho, alimentação), é hora de procurar um médico – de preferência um clínico geral ou gastroenterologista. O profissional pode avaliar se realmente é DRGE ou se há outro problema, como úlcera, gastrite ou até doenças cardíacas.

Além disso, existem sinais de alerta que exigem atendimento urgente:

  • Dificuldade ou dor ao engolir (disfagia ou odinofagia);
  • Perda de peso sem motivo aparente;
  • Vômitos com sangue ou fezes escuras (sinais de sangramento digestivo);
  • Dor no peito intensa, principalmente se irradia para braço, mandíbula ou costas (pode ser infarto);
  • Anemia persistente (descoberta em exames de sangue);
  • Náuseas e vômitos frequentes.

Importante: não se automedique por longos períodos. O uso contínuo de inibidores de bomba de prótons (como omeprazol) sem acompanhamento pode mascarar doenças mais graves e trazer efeitos colaterais a longo prazo, como deficiência de vitamina B12, maior risco de fraturas e infecções intestinais. No SUS, você pode levar suas queixas à Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima.

Termos Relacionados

  • Esôfago: órgão tubular que leva o alimento da boca até o estômago. Na DRGE, é o local que sofre com a acidez.
  • Esfíncter esofágico inferior: músculo em forma de anel na parte final do esôfago. Quando relaxa de forma inadequada, permite o refluxo.
  • Hérnia de hiato: quando parte do estômago escapa para o tórax através do diafragma, facilitando o refluxo. É comum em pacientes com DRGE.
  • Pirose: termo técnico para “queimação” ou azia, principal sintoma da DRGE.
  • Regurgitação: retorno de líquido ou alimento do estômago para a boca, sem esforço (diferente do vômito).
  • Esofagite: inflamação da parede do esôfago causada pelo ácido. Pode ser erosiva (com feridas) ou não erosiva.
  • Esôfago de Barrett: alteração crônica na mucosa esofágica, considerada uma lesão pré-cancerígena. Requer vigilância endoscópica.
  • Inibidores da bomba de prótons (IBPs): classe de medicamentos (ex.: omeprazol, pantoprazol, esomeprazol) que reduzem a produção de ácido no estômago, base do tratamento da DRGE. Amplamente disponíveis no SUS.

Perguntas Frequentes sobre O que é Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)

1. A DRGE tem cura?

Na maioria dos casos, a DRGE é uma condição crônica, ou seja, pode ser controlada, mas não “curada” definitivamente. Porém, com tratamento adequado (medicamentos e mudanças de estilo de vida), a grande maioria dos pacientes fica assintomática por longos períodos. Em alguns casos, após perda de peso significativa ou correção de hérnia de hiato via cirurgia, pode haver melhora duradoura. O importante é o acompanhamento médico regular.

2. Qual a diferença entre DRGE e uma simples azia?

A azia (pirose) ocasional, após uma refeição pesada, é normal e geralmente passa rápido. A DRGE é diagnosticada quando os sintomas são frequentes (duas ou mais vezes por semana) e causam incômodo significativo ou complicações. Pode ser que a azia seja um sintoma de DRGE, mas nem toda azia significa a doença – a avaliação médica é essencial para diferenciar.

3. Quais alimentos pioram o refluxo?

Alimentos gordurosos, frituras, café, chá preto, chocolates, bebidas alcoólicas, refrigerantes, frutas cítricas (laranja, limão), tomate, cebola e hortelã são os principais gatilhos. Recomenda-se evitar grandes refeições antes de dormir (esperar pelo menos 2 a 3 horas) e não deitar logo após comer. A perda de peso – mesmo 5% a 10% do peso corporal – já reduz drasticamente os sintomas.

4. Remédio para refluxo pode ser tomado para sempre?

Não. Os inibidores de bomba de prótons (IBPs) são muito eficazes, mas seu uso contínuo em altas doses deve ser acompanhado pelo médico, pois pode causar baixa absorção de nutrientes como vitamina B12, ferro e cálcio, além de aumentar o risco de infecções intestinais. O ideal é usar a menor dose eficaz pelo menor tempo necessário. Muitas vezes, o tratamento é feito por 4 a 8 semanas e, depois, pode-se reduzir para uma dose de manutenção ou apenas conforme necessidade.

5. Grávida pode ter DRGE? O que fazer?

Sim, o refluxo é muito comum durante a gravidez devido às alterações hormonais e à pressão do útero sobre o estômago. A maioria dos medicamentos convencionais não é recomendada, mas há opções seguras como antiácidos à base de sais de alumínio e magnésio. Mudanças na alimentação, refeições fracionadas e elevar a cabeceira da cama ajudam muito. Toda grávida deve consultar o obstetra antes de usar qualquer medicação. No SUS, há orientação específica para gestantes.

6. O refluxo pode causar câncer?

A DRGE crônica e não tratada, especialmente quando associada ao Esôfago de Barrett

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