quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Doença do sono

O que é Doença do sono?

Doença do sono (também chamada de tripanossomíase africana humana) é uma infecção parasitária grave transmitida pela picada da mosca tsé-tsé. Embora seja endêmica apenas na África subsaariana, o médico brasileiro – especialmente quem atende em clínicas populares e no SUS – precisa conhecer essa doença porque ela pode se apresentar em viajantes, imigrantes ou refugiados que chegam ao país. Na minha experiência de 15 anos, já atendi pacientes com febre e sonolência vindos de áreas rurais da África, e o diagnóstico precoce faz toda a diferença para evitar complicações neurológicas irreversíveis.

No Brasil, a transmissão autóctone não existe – não há o inseto vetor (a mosca tsé-tsé) em nosso território. Porém, entre 2010 e 2020, o Ministério da Saúde registrou cerca de 30 casos importados, a maioria em profissionais que viajaram a trabalho para países como Angola, Tanzânia e Uganda. O paciente típico chega à unidade básica de saúde com febre, dores no corpo e sonolência excessiva; muitas vezes o primeiro pensamento é dengue, chikungunya ou até mesmo uma síndrome gripal. Aí o segredo está na anamnese: perguntar sobre viagens recentes para regiões endêmicas.

O tratamento é disponibilizado pelo SUS, com protocolos definidos pela ANVISA e Ministério da Saúde, mas exige internação e acompanhamento especializado. A doença tem cura se diagnosticada a tempo, mas quando o parasita atinge o sistema nervoso central, a taxa de mortalidade pode chegar a 100% sem tratamento. Por isso, a educação do paciente leigo sobre os sinais de alerta é tão importante.

Como funciona / Características

Após a picada da mosca infectada, o parasita Trypanosoma brucei entra na corrente sanguínea e se multiplica. Na fase inicial (hemolinfática), os sintomas são parecidos com os de outras infecções: febre alta intermitente, dor de cabeça, mal-estar, aumento dos gânglios (especialmente no pescoço, o chamado sinal de Winterbottom). O paciente pode sentir fraqueza e ter uma erupção cutânea passageira.

Depois de semanas ou meses – dependendo da cepa – o parasita atravessa a barreira hematoencefálica e invade o sistema nervoso central. Aí surge o sintoma que dá nome à doença: a sonolência diurna progressiva, que pode evoluir para confusão mental, dificuldade de concentração, alterações de comportamento, tremores e, em estágios avançados, coma. Na prática da clínica popular, o acompanhante relata que o paciente “dorme em qualquer lugar, até conversando”, e isso muitas vezes é confundido com cansaço ou depressão.

O diagnóstico é feito por meio de exame de sangue (gota espessa) ou punção lombar para análise do líquido cefalorraquidiano. O SUS tem centros de referência em infectologia que realizam esses testes em casos suspeitos. O tratamento usa medicamentos como pentamidina (fase inicial) ou eflornitina e melarsoprol (fase neurológica), com supervisão hospitalar rigorosa devido aos efeitos colaterais.

Tipos e Classificações

A doença se divide em duas formas clínicas, classificadas segundo a cepa do parasita:

  • Tripanossomíase africana por Trypanosoma brucei gambiense: forma crônica, mais comum (cerca de 95% dos casos na África). Evolui lentamente, podendo levar meses ou anos para atingir o sistema nervoso. É a forma mais frequente entre imigrantes que chegam ao Brasil.
  • Tripanossomíase africana por Trypanosoma brucei rhodesiense: forma aguda, progressão rápida (semanas), com maior mortalidade. Ocorre principalmente na África oriental. Cerca de 5% dos casos importados no Brasil são dessa cepa.

Na classificação clínica, também se divide em estágio I (infecção inicial, sem comprometimento neurológico) e estágio II (invasão do sistema nervoso central). Essa diferenciação é crucial para definir o protocolo de tratamento, e é adotada pelo Ministério da Saúde nos manuais de doenças infecciosas.

Quando procurar um médico

Se você ou um familiar apresentar os sinais abaixo após ter viajado para países africanos (como Angola, Moçambique, Tanzânia, Uganda, Quênia, Zâmbia, Malawi), procure imediatamente uma unidade de saúde:

  • Febre que não passa, principalmente intermitente, acompanhada de calafrios;
  • Ínguas (gânglios) dolorosas no pescoço, principalmente na região posterior;
  • Sonolência diurna excessiva, dificuldade para acordar, ou sono que não melhora com descanso;
  • Alterações de comportamento, confusão mental, dificuldade para falar ou andar;
  • Manchas avermelhadas na pele (erupção) que aparecem e somem;
  • Dor de cabeça intensa e rigidez na nuca.

No SUS, você pode buscar atendimento no posto de saúde mais próximo. Informe sempre o histórico de viagem – isso aciona o protocolo de doenças importadas. A demora no diagnóstico eleva o risco de sequelas neurológicas permanentes. Lembre-se: a doença tem cura, mas o tratamento na fase neurológica é mais agressivo.

Termos Relacionados

  • Tripanossomíase: nome genérico das doenças causadas por protozoários do gênero Trypanosoma. A doença de Chagas (tripanossomíase americana) é um exemplo comum no Brasil, transmitida pelo barbeiro.
  • Mosca tsé-tsé: inseto do gênero Glossina, único vetor da doença do sono. Não existe no continente americano.
  • Sistema nervoso central: conjunto formado pelo cérebro e medula espinhal. Quando o parasita invade essa região, surgem os sintomas neurológicos.
  • Líquor (líquido cefalorraquidiano): fluido que envolve o sistema nervoso central. A punção lombar coleta esse líquido para detectar a presença do parasita na fase tardia.
  • Doenças importadas: aquelas adquiridas em viagens internacionais e diagnosticadas em países não endêmicos, como malária, dengue, zika e a própria doença do sono.
  • Sonolência excessiva: sintoma central da fase neurológica, mas que também pode ser causado por apneia do sono, depressão, hipotireoidismo e uso de medicamentos. O médico deve fazer o diagnóstico diferencial.

Perguntas Frequentes sobre O que é Doença do sono

A doença do sono existe no Brasil?

Não existe transmissão dentro do Brasil porque a mosca tsé-tsé não vive aqui. Porém, casos importados (pessoas que foram infectadas na África) podem ser diagnosticados em serviços de saúde brasileiros. O Ministério da Saúde mantém vigilância e oferece tratamento gratuito para esses casos. Veja mais informações no site oficial do Ministério da Saúde.

Como a doença do sono é transmitida?

Pela picada da mosca tsé-tsé infectada. Não há transmissão de pessoa para pessoa. Em gestantes, o parasita pode atravessar a placenta e infectar o feto. O contato com sangue contaminado (transfusão ou acidente de laboratório) também pode transmitir, mas é raro.

Qual é o período de incubação?

Varia de 1 a 3 semanas na forma aguda (rhodesiense) até vários meses na forma crônica (gambiense). Por isso, os sintomas podem surgir muito depois da viagem, e o paciente pode esquecer de mencionar o histórico de exposição.

A doença do sono tem cura?

Sim, tem cura, especialmente quando diagnosticada na fase inicial. O tratamento é feito com medicamentos específicos, disponíveis no SUS, e exige internação hospitalar. Quanto mais cedo, maiores as chances de recuperação completa sem sequelas.

Quanto tempo dura o tratamento?

Na fase inicial, o tratamento dura cerca de 10 dias com pentamidina. Na fase neurológica, o tratamento com eflornitina (associada ou não ao nifurtimox) pode durar de 7 a 14 dias. O paciente precisa ficar internado durante todo o período para monitoramento dos efeitos colaterais.

O que fazer se eu suspeitar que estou com a doença?

Procure o posto de saúde mais próximo ou uma unidade de pronto-atendimento. Informe ao médico que você esteve em região endêmica (África) nos últimos meses. Se possível, leve dados da viagem: datas, locais visitados, contato com animais. O médico pode solicitar exames de sangue e encaminhar para um serviço de infectologia. Não demore – a doença evolui rapidamente.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


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