O que é Doença renal crônica?
A Doença renal crônica (DRC) é uma condição em que os rins perdem progressivamente a capacidade de filtrar o sangue, eliminar toxinas e controlar o equilíbrio de água e sais minerais do corpo. Diferente de uma infecção urinária ou de uma pedra nos rins, que podem ser curadas, a DRC é uma doença silenciosa e de longa duração – por isso o termo “crônica”. No Brasil, a doença atinge cerca de 10% da população adulta, segundo dados do Ministério da Saúde, mas muitos só descobrem quando já estão em estágios avançados.
No dia a dia de uma clínica popular, como as que atendo há 15 anos na periferia de Fortaleza, o paciente chega com queixas vagas: cansaço, inchaço nos pés, falta de apetite ou pressão alta descontrolada. A maioria são trabalhadores informais, donas de casa, aposentados que não fazem exames preventivos. Muitos têm diabetes ou hipertensão e não sabem que essas doenças são as maiores causadoras da DRC. Quando o diagnóstico é feito, frequentemente o rim já perdeu mais da metade de sua função – e aí entramos com o encaminhamento para o SUS, que oferece tratamento conservador, diálise e transplante.
É importante entender que a DRC não é uma sentença. Com acompanhamento médico regular, ajustes na alimentação e controle rigoroso da pressão e do açúcar no sangue, é possível retardar a progressão da doença e manter qualidade de vida. O grande desafio no Brasil é a detecção precoce: por isso, em consultas de rotina, sempre peço exame de creatinina e urina tipo 1 para pacientes com mais de 40 anos ou com histórico familiar de doença renal.
Como funciona / Características
Os rins são filtros naturais do corpo. Eles removem resíduos do sangue, produzem hormônios que controlam a pressão arterial e mantêm o equilíbrio de líquidos e eletrólitos. Na DRC, esse filtro vai perdendo eficiência ao longo de meses ou anos. Os resíduos que não são eliminados se acumulam no sangue, causando sintomas como náuseas, coceira na pele, falta de ar e inchaço.
Na prática clínica, percebo que muitos pacientes confundem a DRC com “pedra nos rins” ou “infecção urinária”. Mas são coisas bem diferentes: enquanto as infecções e cálculos são agudas e tratáveis, a DRC é progressiva. Uma característica marcante é que os rins têm grande reserva funcional – podemos perder até 50% da função renal sem sentir nada. Por isso, a DRC é chamada de “doença silenciosa”. No consultório, oriento que todos os pacientes com diabetes ou hipertensão verifiquem a função renal pelo menos uma vez por ano.
Outro ponto relevante: a DRC pode levar à anemia (por falta de eritropoetina, hormônio produzido pelos rins) e a alterações ósseas (pela dificuldade de ativar a vitamina D). O controle multidisciplinar – nefrologista, nutricionista, enfermeiro – é essencial. No SUS, a ANVISA regula os insumos para diálise, e a CFM estabelece diretrizes para o transplante renal, garantindo segurança aos pacientes.
Tipos e Classificações
A Doença Renal Crônica é classificada com base na taxa de filtração glomerular (TFG) – um exame que mede o quanto o rim está filtrando. A classificação usada no Brasil, adotada pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Nefrologia, divide a DRC em cinco estágios:
- Estágio 1: TFG normal ou aumentada (≥90 mL/min) com algum sinal de dano renal (ex: albumina na urina). Assintomático.
- Estágio 2: redução leve da TFG (60-89 mL/min). Geralmente sem sintomas.
- Estágio 3: redução moderada (30-59 mL/min). Podem surgir cansaço, inchaço leve.
- Estágio 4: redução grave (15-29 mL/min). Sintomas mais evidentes, necessidade de preparo para diálise.
- Estágio 5: insuficiência renal terminal (<15 mL/min). Necessita de diálise ou transplante.
Além da TFG, avalia-se a presença de proteinúria (perda de proteína na urina), que agrava o prognóstico. A causa mais comum no Brasil é a hipertensão arterial e a diabetes mellitus tipo 2, mas também vemos casos por glomerulonefrites, rins policísticos e uso indiscriminado de anti-inflamatórios (como ibuprofeno e diclofenaco) sem prescrição.
Quando procurar um médico
Muitos sinais são sutis e podem ser confundidos com estresse ou envelhecimento. Procure um médico – idealmente o clínico geral da UBS ou da clínica popular – se você apresentar:
- Inchaço persistente nos olhos, pés ou pernas (edema)
- Cansaço excessivo, falta de energia mesmo dormindo bem
- Urina espumosa ou com sangue (visível ou microscópico)
- Vontade de urinar mais vezes à noite (noctúria)
- Pressão alta descontrolada, mesmo com remédios
- Náuseas, perda de apetite e gosto metálico na boca
- Coceira na pele sem causa aparente
Lembre-se: a doença renal crônica pode ser descoberta em exames de rotina. O exame de creatinina e o sumário de urina são baratos e feitos pelo SUS. Se você tem diabetes, hipertensão, histórico familiar de doença renal ou mais de 50 anos, peça ao seu médico para incluir esses exames na sua avaliação anual. Quanto mais cedo detectarmos, maiores as chances de desacelerar a progressão.
Termos Relacionados
- Diálise: tratamento que substitui parcialmente a função dos rins, filtrando o sangue de forma artificial. Pode ser hemodiálise (em máquina) ou diálise peritoneal (pelo abdômen). No SUS, é oferecida gratuitamente em centros credenciados.
- Transplante renal: cirurgia em que um rim saudável de um doador (vivo ou falecido) é implantado no paciente. Considerado o melhor tratamento para DRC estágio 5, com maior qualidade de vida.
- Creatinina: substância produzida pelos músculos e eliminada pelos rins. Seus níveis altos no sangue indicam que os rins não estão filtrando bem.
- Proteinúria: presença de proteína na urina, sinal de dano renal. Detectada no exame de urina simples.
- Hipertensão arterial: pressão alta, principal causa e consequência da DRC. O controle rigoroso da pressão é fundamental para proteger os rins.
- Nefrologista: médico especialista em doenças dos rins. É quem acompanha pacientes com DRC, indica diálise e avalia para transplante.
- Uremia: acúmulo de toxinas no sangue devido à falência renal. Causa sintomas como náuseas, confusão mental e coceira intensa.
- Anemia renal: queda na produção de glóbulos vermelhos por falta do hormônio eritropoetina, comum na DRC avançada.
Perguntas Frequentes sobre O que é Doença renal crônica
Doença renal crônica tem cura?
Não tem cura definitiva, mas tem tratamento. A DRC é progressiva, mas podemos desacelerar ou estabilizar a perda de função renal com medicamentos, dieta e controle das doenças de base (diabetes, pressão). Nos estágios terminais, a diálise ou o transplante substituem a função dos rins. Muitos pacientes vivem décadas com tratamento adequado.
Quais são os primeiros sintomas?
Na maioria das vezes, não há sintomas no início. Quando aparecem, os mais comuns são cansaço, inchaço nas pernas e ao redor dos olhos, urina espumosa e aumento da pressão arterial. Por isso, exames periódicos são a melhor forma de detectar precocemente.
O que não pode comer quem tem doença renal crônica?
A alimentação varia conforme o estágio. De forma geral, orientamos reduzir o sal (para controlar pressão e inchaço), limitar alimentos ricos em potássio (banana, laranja, feijão, tomate) e fósforo (refrigerantes, embutidos, leite em excesso). Nunca faça dieta por conta própria: procure um nutricionista especializado, disponível pelo SUS em muitos municípios.
Beber muita água faz mal para os rins?
Na DRC, o rim não consegue eliminar água direito. Beber líquido em excesso pode sobrecarregar e piorar o inchaço e a pressão arterial. A quantidade ideal é orientada pelo nefrologista, baseada na função renal e no volume de urina. Nas fases avançadas, muitas vezes é necessário restringir líquidos.
Anti-inflamatórios (como ibuprofeno) podem causar doença renal?
Sim. O uso frequente ou em altas doses de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) – como diclofenaco, nimesulida, ibuprofeno – pode lesar os rins, especialmente em pessoas com predisposição (idosos, hipertensos, diabéticos). No Brasil, a ANVISA mantém alertas sobre esse risco. Prefira sempre orientação médica antes de tomar qualquer remédio para dor.
Doença renal crônica é hereditária?
Algumas causas têm forte componente genético, como a doença renal policística, em que cistos se formam nos rins. Mas a maioria dos casos está ligada a diabetes e hipertensão, que também podem ter predisposição familiar. Se você tem parentes próximos com DRC, faça exames preventivos anualmente.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.
Para mais informações oficiais, consulte: Ministério da Saúde – Doença Renal Crônica e Sociedade Brasileira de Nefrologia.


