quarta-feira, maio 27, 2026

O que é Drenagem biliar percutânea

O que é O que é Drenagem biliar percutânea?

Na minha rotina como clínico geral, uma das situações mais angustiantes é ver um paciente chegar com a pele e os olhos amarelados, urina escura e um cansaço fora do comum. Muitas vezes, esses sintomas apontam para uma obstrução das vias biliares – o “cano” que leva a bile do fígado para o intestino. Quando esse canal entope, seja por uma pedra, um tumor ou uma inflamação, a bile fica acumulada e o paciente pode desenvolver icterícia, coceira intensa e até infecção grave (colangite). É nesse cenário que a drenagem biliar percutânea entra como uma verdadeira “válvula de escape”.

A drenagem biliar percutânea (DBP) é um procedimento minimamente invasivo no qual um médico especialista – geralmente um radiologista intervencionista ou um cirurgião – insere um cateter fino através da pele do abdome, diretamente dentro dos ductos biliares dilatados, para drenar a bile acumulada. O nome “percutânea” vem do grego “pela pele” e “percutir”, ou seja, acessamos o sistema biliar por fora, sem cirurgia aberta. No Brasil, o procedimento é oferecido pelo SUS dentro da Alta Complexidade (procedimentos de alto custo e técnica especializada), e está regulamentado por portarias do Ministério da Saúde. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também estabelece normas para a realização segura, exigindo que o profissional tenha treinamento específico em radiologia intervencionista ou cirurgia hepatobiliar.

Na prática de uma clínica popular ou em um posto de saúde, não realizamos a DBP – isso é feito apenas em hospitais com estrutura de imagem, como tomografia e ultrassom intraoperatório. Porém, é comum que eu seja o primeiro a suspeitar da obstrução biliar e a solicitar os exames iniciais (ultrassom de abdome, exames de função hepática). Depois, encaminho o paciente para um centro de referência, onde a drenagem pode ser indicada. Estima-se que, no Brasil, as doenças das vias biliares (cálculos, tumores, estenoses) respondam por cerca de 5 a 10% das internações em hospitais terciários, segundo dados do DATASUS. A DBP é usada principalmente em casos de neoplasias (como colangiocarcinoma, câncer de pâncreas ou metástases hepáticas) e, em menor escala, em obstruções por cálculos quando a endoscopia (CPRE) não é possível ou falha.

Como funciona / Características

Imagine que o sistema biliar é uma rede de tubos que levam a bile do fígado até o duodeno. Quando um desses tubos fica bloqueado, a pressão aumenta e o duto “incha”. Sob anestesia local e sedação, o médico utiliza a ultrassonografia ou a tomografia para localizar exatamente o duto dilatado. Com uma agulha fina, ele atravessa a pele e o fígado até atingir o ducto. Depois, introduz um fio-guia e, sobre ele, um cateter de plástico (tubo) que fica posicionado dentro do ducto biliar. A bile então escoa para uma bolsa coletora externa (drenagem externa) ou, em alguns casos, o cateter é empurrado para o intestino para drenar internamente (drenagem interna-externa).

O procedimento dura entre 30 e 60 minutos e, na maioria dos hospitais brasileiros, é feito em regime de internação curta – o paciente fica de 1 a 3 dias para observação. Após a alta, ele precisa manter a bolsa coletora e fazer curativos regulares, além de lavar o cateter com soro fisiológico conforme orientação médica. No SUS, o acesso a esse cuidado é feito pelo serviço de home care em algumas regiões, mas a realidade é que muitos pacientes da rede pública precisam retornar ao hospital a cada 2-3 meses para troca do cateter, o que pode gerar filas. Em clínicas populares, não oferecemos esse acompanhamento, mas orientamos o paciente sobre os sinais de complicações, como febre, dor abdominal intensa ou saída de bile pela pele.

É fundamental entender que a drenagem biliar percutânea não trata a causa da obstrução. Ela alivia os sintomas (icterícia, coceira, infecção) e ganha tempo para que o tratamento definitivo – cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou colocação de stent endoscópico – seja realizado. Por isso, sempre digo aos meus pacientes: “a drenagem é como tirar a água de um barco que está afundando; depois é preciso consertar o furo”.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, classificamos a drenagem biliar percutânea principalmente de acordo com o trajeto do cateter e o objetivo do procedimento:

  • Drenagem externa: o cateter termina dentro do ducto biliar, e a bile drena para uma bolsa externa. É usada quando não é possível passar o cateter para o intestino (por exemplo, em tumores que bloqueiam completamente o ducto).
  • Drenagem interna-externa: o cateter atravessa a obstrução e termina no duodeno. A bile pode drenar internamente (para o intestino) ou externamente (para a bolsa) conforme a necessidade. É mais fisiológica e evita a perda de eletrólitos.
  • Drenagem percutânea paliativa: indicada em pacientes com tumores avançados, sem possibilidade de cura. O objetivo é melhorar a qualidade de vida, aliviar a icterícia e permitir a realização de quimioterapia.
  • Drenagem pré-operatória: realizada alguns dias antes de uma cirurgia de grande porte (como a hepaticojejunostomia), para reduzir a bilirrubina e o risco de complicações pós-cirúrgicas.

O Ministério da Saúde estabelece critérios para a realização da DBP no SUS, incluindo a necessidade de exames de imagem prévios (ultrassom, tomografia ou colangiografia por ressonância) e a avaliação por equipe multidisciplinar (gastroenterologista, cirurgião, radiologista).

Quando procurar um médico

Os sinais de alerta que devem levar o paciente a procurar atendimento médico imediatamente – seja em uma clínica popular, UPA ou posto de saúde – são:

  • Pele e olhos amarelados (icterícia) que aparecem de forma rápida ou progressiva;
  • Urina escura (cor de coca-cola) e fezes claras (cor de massa de vidraceiro);
  • Coceira intensa no corpo sem lesões de pele;
  • Dor abdominal no lado direito ou na “boca do estômago” que pode irradiar para as costas;
  • Febre com calafrios (sugere colangite, uma infecção grave da bile);
  • Perda de peso inexplicada e falta de apetite (principalmente em idosos ou pacientes com histórico de câncer).

Na minha experiência, muitos pacientes demoram a procurar ajuda porque acham que o amarelão é “coisa de fígado gorduroso” ou “virose”. Se você ou um familiar apresentar esses sintomas por mais de 3 dias, procure um clínico geral ou vá a um serviço de emergência. O diagnóstico precoce da obstrução biliar pode evitar complicações fatais, como a colangite séptica.

Termos Relacionados

  • Colangiografia percutânea: exame de raio-X que utiliza contraste injetado pelo cateter para visualizar a anatomia das vias biliares. Geralmente é feito no mesmo procedimento da drenagem.
  • CPRE (Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica): procedimento endoscópico que acessa a via biliar pela boca, através do duodeno. Pode tratar algumas obstruções (retirada de cálculos, colocação de stent) sem precisar furar a pele.
  • Icterícia obstrutiva: amarelamento da pele causado pelo bloqueio do fluxo da bile, seja por cálculo, tumor ou estenose.
  • Colangite: infecção aguda da via biliar, com risco de sepse. Uma das principais indicações de drenagem biliar de urgência.
  • Stent biliar: tubo metálico ou plástico colocado dentro da via biliar (por endoscopia ou percutânea) para mantê-la aberta. Pode ser usado como alternativa à drenagem externa.
  • Fístula biliar: vazamento de bile para fora do trato biliar, que pode ocorrer como complicação da drenagem ou de cirurgias.
  • Alta Complexidade (SUS): nível de atenção à saúde que reúne procedimentos de alto custo e tecnologia, como a drenagem biliar percutânea, realizados apenas em hospitais habilitados.
  • Radiologia Intervencionista: especialidade médica que realiza procedimentos minimamente invasivos guiados por imagem (ultrassom, tomografia, raio-X). O radiologista intervencionista é o profissional mais comum para executar a DBP.

Perguntas Frequentes sobre O que é Drenagem biliar percutânea

1. A drenagem biliar percutânea dói?

O procedimento é feito com anestesia local na pele e sedação leve, então a maioria dos pacientes relata apenas um desconforto no momento da picada da agulha. Após o procedimento, pode haver dor no local da punção, que costuma ser controlada com analgésicos comuns. Na minha prática, oriento os pacientes a não se preocuparem: a equipe médica está atenta ao conforto durante todo o processo.

2. Quanto tempo fico com o cateter?

Isso depende da causa da obstrução. Se for temporária (por exemplo, antes de uma cirurgia), o cateter pode ser retirado em alguns dias. Se for paliativo (em casos de câncer avançado), o cateter pode ficar por meses ou até o fim da vida, com trocas periódicas. Em média, os cateteres são substituídos a cada 2-3 meses para evitar que fiquem entupidos ou infectados.

3. Posso tomar banho com o cateter?

Sim, mas com cuidados. O curativo deve ser à prova d’água (existem protetores próprios) ou você pode usar um plástico adesivo para vedar. Evite mergulhar em piscinas ou banheiras. É importante secar bem o local após o banho e verificar se não há vazamento de bile. O ideal é que a equipe de enfermagem do seu hospital de referência ou do home care oriente você sobre a higiene.

4. A drenagem biliar percutânea é coberta pelo SUS?

Sim, o SUS oferece o procedimento através dos hospitais habilitados em Alta Complexidade em todo o Brasil. No entanto, o acesso pode ser desigual dependendo da região. Em grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza, a fila costuma ser menor. É importante que o paciente tenha o encaminhamento correto e busque a regulação municipal. Consulte a página do Ministério da Saúde sobre hospitais habilitados para mais informações.

5. Quais são os riscos mais comuns?

Os principais riscos incluem sangramento (principalmente se o fígado for muito vascularizado), infecção no local de entrada do cateter, vazamento de bile para a cavidade abdominal (fístula biliar), deslocamento do cateter e obstrução do próprio cateter por coágulos ou resíduos. Por isso, o acompanhamento médico e de enfermagem é essencial. A taxa de complicações graves é baixa, em torno de 5% em hospitais com experiência, segundo estudos brasileiros.


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