O que é Drenagem peritoneal?
A drenagem peritoneal é um procedimento médico que consiste na remoção de líquido acumulado na cavidade abdominal (o peritônio, membrana que reveste o abdome). No dia a dia de uma clínica popular ou de um hospital do SUS, esse termo aparece com frequência em três situações principais: alívio de ascite (barriga d’água) em pacientes com cirrose, coleta de líquido para diagnóstico de infecções ou câncer, e como parte do tratamento da insuficiência renal crônica por meio da diálise peritoneal.
No Brasil, a drenagem peritoneal é um procedimento relativamente comum. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 30 mil brasileiros realizam diálise peritoneal para tratamento de insuficiência renal, e a paracentese (drenagem de ascite) é realizada milhares de vezes por ano em serviços de emergência e enfermarias. O SUS oferece tanto a drenagem diagnóstica quanto a terapêutica, com cobertura integral. A ANVISA regulamenta os dispositivos usados, como cateteres e bolsas coletoras, e o CFM estabelece diretrizes para a realização segura do procedimento, que deve ser feito por médico treinado, geralmente clínico geral, gastroenterologista ou nefrologista.
É importante entender que a drenagem peritoneal não é uma cirurgia de grande porte, mas requer cuidados rigorosos de assepsia para evitar infecções, como a peritonite. Na prática clínica brasileira, muitas vezes é realizada à beira do leito, com anestesia local, e o paciente pode ir para casa no mesmo dia, dependendo da causa e do volume drenado.
Como funciona / Características
O procedimento consiste na introdução de uma agulha ou cateter fino através da parede abdominal, geralmente na região do umbigo ou na fossa ilíaca esquerda, até chegar ao espaço peritoneal. A drenagem pode ser por gravidade (o líquido escorre sozinho para uma bolsa) ou com auxílio de uma seringa para coleta de pequenas amostras. No caso da diálise peritoneal, um cateter permanente (chamado catéter de Tenckhoff) é implantado cirurgicamente e fica no local por meses ou anos, permitindo trocas diárias de líquido dialisante.
No cotidiano de uma clínica popular, vejo muitos pacientes com cirrose hepática descompensada chegarem com o abdome muito distendido, falta de ar e mal-estar. Após a drenagem peritoneal (paracentese), eles relatam alívio imediato. Por exemplo, dona Maria, 58 anos, com cirrose alcoólica, vinha todas as semanas para retirar 4 a 6 litros de líquido amarelado. Após a drenagem, ela conseguia respirar melhor e retomar atividades simples. Já na diálise peritoneal, como seu João, 62 anos, que realiza trocas em casa três vezes ao dia – uma rotina que exige disciplina e treinamento oferecido pelo SUS.
Características importantes: o líquido drenado pode ser transparente (ascite não complicada), turvo (infecção), sanguinolento (trauma ou tumores) ou leitoso (linfa). A cor e o aspecto são avaliados pelo médico e, se necessário, enviados para análise laboratorial. O procedimento dura de 15 a 30 minutos, e o paciente fica em observação por algumas horas.
Tipos e Classificações
No Brasil, classificamos a drenagem peritoneal de acordo com a finalidade e a técnica:
- Drenagem terapêutica: realiza-se para aliviar sintomas de ascite volumosa, removendo grandes volumes (até 5-6 litros por sessão). Comum em pacientes cirróticos ou com insuficiência cardíaca.
- Drenagem diagnóstica (paracentese diagnóstica): coleta de pequena quantidade de líquido (20-50 mL) para exames laboratoriais, como contagem de células, cultura, dosagem de albumina e citologia. Essencial para diferenciar ascite por cirrose (hipertensão portal) de ascite inflamatória ou neoplásica.
- Diálise peritoneal ambulatorial contínua (CAPD): modalidade de tratamento renal substitutivo em que a drenagem e infusão de líquido dialisante ocorre várias vezes ao dia por um cateter permanente. O SUS cobre integralmente esse tratamento, incluindo os materiais e treinamento.
- Drenagem por agulha fina: usada para coleta única, sem deixar cateter.
- Drenagem com cateter peritoneal temporário: indicado em situações de emergência ou para drenagem por alguns dias (ex.: pós-operatório abdominal).
Essa classificação é padronizada pela Sociedade Brasileira de Hepatologia e pelo Conselho Federal de Medicina, garantindo segurança e eficácia.
Quando procurar um médico
Você deve buscar atendimento médico se apresentar sinais que possam indicar necessidade de drenagem peritoneal ou complicações relacionadas:
- Aumento rápido do volume abdominal, com sensação de peso, falta de ar ou dificuldade para se alimentar.
- Dor abdominal intensa, febre, calafrios – isso pode indicar peritonite (infecção no líquido peritoneal), que é uma emergência.
- Sinais de desidratação ou mau funcionamento do cateter em quem já faz diálise peritoneal: dificuldade para drenar o líquido, dor ao infundir, ou líquido turvo.
- Perda de peso não intencional associada a ascite (pode sugerir câncer abdominal).
- História de cirrose hepática ou insuficiência renal com piora dos sintomas.
Nas clínicas populares, orientamos o paciente a não tentar esvaziar a barriga em casa com agulhas ou outros métodos – isso é perigoso. O médico deve sempre realizar a drenagem peritoneal em ambiente adequado, com material estéril e supervisão. Se você está em tratamento de diálise peritoneal e nota qualquer alteração (líquido turvo, dor, vermelhidão no local do cateter), procure imediatamente o serviço de nefrologia ou a emergência mais próxima.
Termos Relacionados
- Ascite: acúmulo de líquido na cavidade peritoneal, geralmente causado por cirrose, insuficiência cardíaca ou câncer. A drenagem peritoneal é o tratamento para alívio dos sintomas.
- Paracentese: nome técnico da punção da cavidade abdominal para coleta ou drenagem de líquido. É o procedimento básico da drenagem peritoneal diagnóstica ou terapêutica.
- Peritonite: inflamação/infecção do peritônio. Pode ser complicação de drenagem peritoneal mal conduzida ou de infecção espontânea em pacientes com ascite.
- Catéter de Tenckhoff: tubo flexível de silicone implantado cirurgicamente para diálise peritoneal de longo prazo.
- CAPD (diálise peritoneal ambulatorial contínua): modalidade de diálise que utiliza a drenagem peritoneal como via de acesso para remover toxinas.
- Hepatorrenal: síndrome que acomete pacientes cirróticos com ascite, podendo indicar necessidade de drenagem peritoneal para alívio.
- Hipertensão portal: aumento da pressão na veia porta do fígado, principal causa de ascite no Brasil, levando à drenagem peritoneal frequente.
- Líquido ascítico: o fluido removido na drenagem peritoneal; sua análise ajuda no diagnóstico etiológico.
Perguntas Frequentes sobre Drenagem Peritoneal
1. A drenagem peritoneal dói?
Na maioria dos pacientes, a dor é leve. Aplicamos anestesia local no local da punção, então você sente apenas uma picada inicial e depois uma sensação de pressão. O procedimento é rápido. Se houver dor intensa durante ou após, informe imediatamente o médico – pode ser sinal de complicação.
2. Quanto tempo fico internado?
Se for uma drenagem terapêutica ou diagnóstica simples, você pode ir para casa após algumas horas de observação (procedimento ambulatorial). Já a colocação do cateter para diálise peritoneal exige internação de 1 a 2 dias. O SUS geralmente realiza o acompanhamento em regime de hospital-dia.
3. Posso tomar banho depois da drenagem?
Recomendamos evitar molhar o curativo por 24 a 48 horas. Você pode tomar banho de chuveiro protegendo o local com plástico adesivo. Se houver cateter permanente (diálise peritoneal), há recomendações específicas – você receberá treinamento. A higiene rigorosa é essencial para evitar infecções.
4. Quais os riscos da drenagem peritoneal?
Os principais riscos incluem infecção (peritonite), sangramento no local da punção, perfuração acidental de alça intestinal (rara em mãos experientes) e queda de pressão após retirar grande volume. No Brasil, com o uso de ultrassom à beira do leito e material estéril, as complicações são baixas (menos de 1% em serviços bem estruturados).
5. A drenagem peritoneal é indicada para todos os pacientes com ascite?
Não. Antes de realizar a drenagem, o médico avalia a causa da ascite. Em pacientes com cirrose, pode ser necessário controlar a ingestão de sal e usar diuréticos primeiro. A drenagem é indicada quando há grande volume com sintomas (falta de ar, dor) ou para diagnóstico. Em pacientes com insuficiência renal terminal, a diálise peritoneal é uma das opções de tratamento, mas não a única.
6. O que fazer se o líquido drenado sair turvo ou com cheiro forte?
Isso é sinal de alerta para infecção. O líquido turvo indica presença de leucócitos (pus). Se ocorrer em casa (em diálise peritoneal), você deve imediatamente entrar em contato com o serviço de nefrologia ou procurar uma emergência. O tratamento com antibióticos é urgente. Nunca ignore mudanças na aparência do líquido drenado.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


