O que é Adenocarcinoma de reto?
O adenocarcinoma de reto é um tipo de câncer que se origina nas células glandulares que revestem a parede interna do reto, a porção final do intestino grosso (cólon) localizada antes do ânus. Na prática clínica do SUS e de clínicas populares brasileiras, essa é a forma mais comum de câncer retal, representando mais de 95% dos casos diagnosticados nessa região. É um tumor que geralmente cresce de forma lenta, começando como pequenos pólipos (crescimentos benignos) que, com o tempo, podem se transformar em lesões malignas se não forem identificados e removidos precocemente.
No Brasil, o câncer colorretal — que inclui tanto os tumores do cólon quanto do reto — é o terceiro tipo mais frequente em homens e o segundo em mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Para cada ano do triênio 2023-2025, são estimados mais de 45 mil casos novos da doença. Destes, cerca de um terço corresponde a tumores localizados no reto. Na minha experiência em consultórios de atenção primária e em clínicas populares, vejo muitos pacientes que chegam com queixas de sangramento anal, alteração do hábito intestinal ou dor pélvica, frequentemente confundindo os sintomas com hemorroidas ou “inflamação no intestino”. O diagnóstico tardio ainda é uma realidade preocupante, especialmente em populações com menor acesso a exames preventivos.
O adenocarcinoma de reto apresenta características biológicas e de tratamento que o diferenciam dos cânceres de cólon, principalmente pela sua localização na pelve, próxima a estruturas como bexiga, próstata e uretra. Isso exige uma abordagem multidisciplinar envolvendo cirurgiões oncológicos, radioterapeutas, oncologistas clínicos e, muitas vezes, estomaterapeutas (profissionais especializados em ostomias). No âmbito do SUS, o manejo é regulamentado pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde para câncer colorretal, garantindo acesso a exames como colonoscopia, ressonância magnética de pelve e tratamentos como cirurgia, quimioterapia e radioterapia, desde que o paciente seja referenciado a unidades de alta complexidade (oncologia).
Como funciona / Características
Na prática diária de um clínico geral, o adenocarcinoma de reto se apresenta de formas variadas. O tumor começa na mucosa retal e, se não tratado, pode invadir camadas mais profundas da parede do reto, atingir linfonodos regionais e, eventualmente, se espalhar para outros órgãos (metástases), principalmente fígado e pulmões. A velocidade de progressão é variável — alguns tumores são mais indolentes, outros mais agressivos.
Os sintomas mais comuns que observei em consultas de clínica popular incluem:
- Sangramento nas fezes — sangue vermelho vivo ou escuro misturado com as fezes.
- Mudança no hábito intestinal — diarreia ou constipação que persistem por semanas.
- Sensação de evacuação incompleta (tenesmo) — vontade constante de ir ao banheiro, mesmo após evacuar.
- Dor ou desconforto pélvico — muitas vezes confundida com “dor na bexiga” ou “cólica menstrual”.
- Perda de peso inexplicada e anemia ferropriva (cansaço, palidez).
Um exemplo típico que atendi recentemente: um senhor de 58 anos, pedreiro, morador da periferia de Fortaleza, que relatava “sangue no papel” há seis meses, achando que era hemorroida. Ele só procurou ajuda quando começou a sentir dor ao evacuar e notou que as fezes estavam mais finas (“fezes em fita”). Exame de toque retal revelou uma lesão endurecida na parede anterior do reto, a cerca de 6 cm da borda anal. Encaminhei para colonoscopia com biópsia, que confirmou adenocarcinoma moderadamente diferenciado. Esse caso ilustra como o diagnóstico precoce é crucial: se detectado em estágio inicial, as chances de cura superam 90%.
No cotidiano do SUS, a principal ferramenta de rastreio é a colonoscopia (exame endoscópico), indicada para pessoas com 45 anos ou mais ou para quem tem fatores de risco (histórico familiar, doenças inflamatórias intestinais, obesidade, tabagismo). Infelizmente, a baixa adesão ao rastreamento e o medo do exame ainda são barreiras importantes. Em clínicas populares, frequentemente orientamos os pacientes sobre a importância do exame de sangue oculto nas fezes como teste inicial, embora a colonoscopia seja o padrão-ouro.
Tipos e Classificações
O adenocarcinoma de reto é classificado com base em critérios histológicos, de estadiamento e moleculares. As principais classificações usadas no Brasil, alinhadas com as diretrizes da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são:
- Quanto ao grau de diferenciação celular: bem diferenciado (células mais parecidas com o tecido normal, menos agressivo), moderadamente diferenciado (mais comum) e pouco diferenciado/indiferenciado (mais agressivo).
- Quanto ao estadiamento (sistema TNM): avalia a profundidade de invasão tumoral (T), comprometimento de linfonodos (N) e presença de metástases (M). Os estágios vão de 0 (carcinoma in situ, restrito à mucosa) a IV (metástases à distância). No SUS, o estadiamento é feito com colonoscopia, biópsia, ressonância magnética de pelve, tomografia computadorizada de abdome e tórax, e dosagem do antígeno carcinoembrionário (CEA) no sangue.
- Quanto à localização no reto: reto alto (acima de 10 cm da borda anal), reto médio (5 a 10 cm) e reto baixo (menos de 5 cm). Tumores de reto baixo são mais desafiadores, pois podem necessitar de cirurgia com amputação abdominoperineal (muitas vezes com colostomia definitiva), enquanto tumores de reto alto podem ser tratados com ressecção anterior com preservação do ânus.
- Quanto à estabilidade de microssatélites (MSI): tumores com alta instabilidade de microssatélites (MSI-H) respondem melhor a imunoterapia, embora sejam menos frequentes no reto.
A classificação molecular (como o status das proteínas RAS e BRAF) também orienta o uso de terapias-alvo em casos metastáticos, disponíveis no SUS por meio de protocolos específicos de medicamentos de alto custo.
Quando procurar um médico
Qualquer pessoa deve procurar atendimento médico se apresentar um ou mais dos seguintes sinais de alerta, especialmente se persistirem por mais de duas semanas:
- Sangue nas fezes (visível ou oculto) ou sangramento anal indolor.
- Alteração do hábito intestinal (diarreia ou constipação nova e persistente).
- Sensação de que o intestino não esvazia completamente (tenesmo).
- Dor abdominal baixa, desconforto pélvico ou sensação de “peso” no reto.
- Perda de peso sem causa aparente, cansaço excessivo ou anemia.
- Fezes mais finas que o normal (fezes em fita ou lápis).
- Histórico familiar de câncer colorretal ou pólipos adenomatosos (especialmente em parentes de primeiro grau).
Na rede pública, o primeiro passo é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação clínica. O médico da família ou clínico geral fará o exame físico, incluindo o toque retal (procedimento rápido que pode detectar tumores localizados nos primeiros centímetros do canal anal). Se houver suspeita, o paciente será referenciado para colonoscopia no serviço de endoscopia do município.
Pacientes com mais de 45 anos, mesmo sem sintomas, devem conversar com seu médico sobre o rastreamento regular. No SUS, o rastreio organizado ainda não é universal, mas a colonoscopia é priorizada para grupos de risco. Em clínicas populares, muitas vezes oferecemos exames com valores acessíveis, mas sempre reforçamos que o ideal é seguir as orientações do médico assistente.
Termos Relacionados
- Pólipo adenomatoso: crescimento benigno na mucosa do cólon/reto que pode evoluir para adenocarcinoma. São detectados e removidos durante a colonoscopia.
- Colonoscopia: exame endoscópico que permite visualizar todo o intestino grosso e o reto, coletar biópsias e remover pólipos. É o padrão-ouro para diagnóstico e prevenção do câncer colorretal.
- Ressonância magnética de pelve: exame de imagem fundamental para avaliar a extensão local do tumor retal, planejar cirurgia e definir necessidade de radioterapia.
- Neoadjuvância (quimiorradioterapia): tratamento com quimioterapia e radioterapia antes da cirurgia, indicado para tumores localmente avançados, com o objetivo de reduzir o tumor e aumentar as chances de cura e preservação do ânus.
- Colostomia: abertura do intestino na parede abdominal para eliminação das fezes, podendo ser temporária ou definitiva, dependendo da localização do tumor e do tipo de cirurgia.
- Estadiamento: processo de avaliação da extensão do câncer (tamanho, invasão, linfonodos, metástases). No SUS, é feito por exames de imagem e biópsia, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde.
- Antígeno carcinoembrionário (CEA): proteína dosada no sangue, cujos níveis elevados podem indicar presença de câncer colorretal ou recidiva. É usado no acompanhamento pós-tratamento.
- Mutagênese somática: processo de acúmulo de mutações genéticas nas células do epitélio retal que leva à transformação maligna. Fatores como dieta pobre em fibras, consumo excessivo de carnes processadas, tabagismo e obesidade aceleram esse processo.
Perguntas Frequentes sobre Adenocarcinoma de reto
1. Adenocarcinoma de reto tem cura?
Sim, o adenocarcinoma de reto tem cura, especialmente quando diagnosticado em estágios iniciais (estádios I e II). A taxa de cura ultrapassa 90% nesses casos, com tratamento cirúrgico adequado e, eventualmente, quimiorradioterapia. Nos estágios localmente avançados (estádio III), com comprometimento linfonodal, as chances de cura variam de 50% a 80% com tratamento multimodal (cirurgia + quimio + radioterapia). Mesmo em estádio IV (metástases), o controle da doença pode ser prolongado com quimioterapia, terapias-alvo e imunoterapia, mas a cura é menos frequente.
2. Quais são os primeiros sinais de adenocarcinoma de reto?
Os primeiros sinais mais comuns são sangramento anal (geralmente indolor) e alteração do hábito intestinal (diarreia ou prisão de ventre que persiste). Muitas vezes, o paciente nota sangue nas fezes, no papel higiênico ou na água do vaso. Outros sintomas precoces incluem sensação de evacuação incompleta, desconforto retal e fezes mais finas. Infelizmente, muitos atribuem esses sinais a hemorroidas, atrasando o diagnóstico. Por isso, qualquer sangramento ou mudança no ritmo intestinal por mais de duas semanas merece investigação.
3. Como é feito o diagnóstico de adenocarcinoma de reto?
O diagnóstico começa com a história clínica e o exame de toque retal. Em seguida, é solicitada uma colonoscopia com biópsia. O patologista analisa o tecido ao microscópio para confirmar o tipo de tumor. Para estadiamento, são realizados exames de imagem como ressonância magnética de pelve (para avaliar extensão local) e tomografia de abdome/tórax (para pesquisar metástases). Exames de sangue como o CEA também são úteis. No SUS, todo esse fluxo segue os protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, e o paciente é acompanhado por equipe multiprofissional.
4. Qual a diferença entre adenocarcinoma de reto e câncer de cólon?
Embora ambos sejam tipos de câncer colorretal, o adenocarcinoma de reto está localizado nos últimos 15 cm do intestino grosso (o reto), próximo ao ânus. Isso tem implicações importantes: tumores retais estão mais sujeitos a recidiva local, exigem radioterapia neoadjuvante com frequência e podem necessitar de cirurgias mais complexas, como a amputação abdominoperineal (com colostomia). Já os tumores de cólon (cólon ascendente, transverso, descendente e sigmoide) geralmente são tratados com cirurgia e quimioterapia, raramente com radioterapia. O risco de recidiva local é menor, mas ambos podem metastatizar para fígado e pulmões.
5. Quem tem maior risco de desenvolver adenocarcinoma de reto?
Os principais fatores de risco incluem: idade acima de 45 anos (a maioria dos casos ocorre após os 50); histórico familiar de câncer colorretal ou pólipos adenomatosos; doenças inflamatórias intestinais (como retocolite ulcerativa e doença de Crohn); obesidade; tabagismo; consumo excessivo de álcool, carnes processadas e gorduras; sedentarismo; e baixa ingestão de fibras. Pessoas com síndromes genéticas, como polipose adenomatosa familiar (PAF) ou síndrome de Lynch, têm risco muito elevado e devem fazer rastreamento precoce e intensivo.


