O que é Adenoma basofílico?
O adenoma basofílico é um tumor benigno que se forma na glândula hipófise (também chamada de pituitária), localizada na base do cérebro, atrás do nariz. Esse tumor é chamado de “basofílico” porque suas células, quando coradas com hematoxilina-eosina em laboratório, adquirem uma coloração azulada ou púrpura, característica das células que produzem o hormônio ACTH (hormônio adrenocorticotrófico). Na prática clínica, esse tipo de adenoma é a causa mais comum da Doença de Cushing, uma condição em que o organismo produz excesso de cortisol, o hormônio do estresse, levando a sintomas como ganho de peso, pressão alta, diabetes e fraqueza muscular.
No Brasil, a prevalência exata de adenomas basofílicos não é conhecida em nível populacional, mas os tumores hipofisários representam cerca de 10% a 15% das neoplasias intracranianas, e entre eles os corticotróficos (basofílicos) correspondem a aproximadamente 10% a 15% dos casos, segundo dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). O diagnóstico muitas vezes é tardio, especialmente em unidades básicas de saúde (UBS) e clínicas populares, onde o acesso a exames de imagem e dosagens hormonais é limitado. Como clínico, já vi pacientes que passaram anos sendo tratados apenas para hipertensão e diabetes, sem que a causa subjacente – o adenoma basofílico – fosse investigada. Isso reforça a importância de um olhar atento para sinais como estrias roxas, obesidade central e fácies de lua cheia.
O SUS oferece atendimento especializado para esses casos, com encaminhamento para centros de referência em endocrinologia e neurocirurgia, como os hospitais universitários e as unidades de alta complexidade em oncologia (UNACON). A cirurgia transesfenoidal (pelo nariz) é o tratamento de primeira linha e, quando bem-sucedida, leva à cura na maioria dos pacientes. No entanto, a fila para esses procedimentos pode ser longa, e muitas vezes é necessário o uso de medicamentos controlados pela ANVISA, como a cabergolina ou o pasireotida, para controlar os sintomas enquanto se aguarda a cirurgia.
Como funciona / Características
O adenoma basofílico funciona como uma “fábrica desregulada” de ACTH. Em condições normais, a hipófise libera ACTH de forma controlada, estimulando as glândulas adrenais (localizadas sobre os rins) a produzirem cortisol. No adenoma basofílico, as células tumorais perdem esse controle e secretam ACTH em quantidade excessiva, fazendo com que as adrenais produzam cortisol de forma contínua e elevada. O cortisol em excesso causa os sintomas clássicos da Síndrome de Cushing.
Na rotina de uma clínica popular, o que vejo com mais frequência é um paciente que chega com queixas de ganho de peso rápido, especialmente na face (“cara de lua”), no abdômen e na parte de trás do pescoço (“giba de búfalo”). Muitos também relatam estrias arroxeadas no abdômen, nas axilas ou nas coxas, sem terem engordado de forma abrupta. A pele fica fina e frágil, com hematomas fáceis. A pressão arterial costuma estar elevada (hipertensão resistente) e o diabetes tipo 2 aparece ou piora. Mulheres podem ter irregularidade menstrual e hirsutismo (crescimento de pelos). Homens apresentam perda de libido e impotência.
Um exemplo concreto: certa vez, atendi uma senhora de 45 anos, moradora de uma comunidade da periferia, que vinha tomando três remédios para pressão e dois para diabetes, sem controle adequado. Ela tinha estrias roxas no abdômen e já havia fraturado uma costela por osteoporose. Suspeitei de Doença de Cushing. Solicitei cortisol livre urinário e teste de supressão com dexametasona, que o SUS disponibiliza na rede de laboratórios públicos. O resultado veio alterado. Depois de uma ressonância magnética (feita após fila de espera), confirmou-se um microadenoma basofílico de 6 mm. Ela foi operada em um hospital de referência e, após alguns meses, conseguiu reduzir os medicamentos e melhorou muito sua qualidade de vida.
Tipos e Classificações
Os adenomas basofílicos são classicamente divididos com base no tamanho e na agressividade:
- Microadenoma: menor que 1 cm de diâmetro. É o mais comum (cerca de 70-80% dos casos). Geralmente não causa sintomas compressivos (como dor de cabeça ou alterações visuais), mas pode provocar sintomas hormonais intensos.
- Macroadenoma: maior ou igual a 1 cm. Pode comprimir o quiasma óptico, causando perda de visão periférica (hemianopsia bitemporal), ou invadir estruturas próximas. Também secreta ACTH, mas o quadro clínico pode ser mais exuberante.
Do ponto de vista histológico e imunohistoquímico (classificação da Organização Mundial da Saúde – OMS), os adenomas basofílicos são chamados de adenomas corticotróficos e podem ainda ser subdivididos em subtipos silenciosos (que não secretam ACTH suficiente para causar síndrome de Cushing) ou funcionantes (que causam a doença). Essa classificação é importante para o planejamento do tratamento, pois adenomas silenciosos podem ser descobertos incidentalmente em exames de imagem e nem sempre precisam de cirurgia imediata.
Na prática brasileira, os serviços de referência seguem as diretrizes do CFM (Conselho Federal de Medicina) e da SBEM para a abordagem desses tumores. A classificação por tamanho orienta a decisão entre cirurgia ou acompanhamento clínico, e o perfil hormonal determina a necessidade de medicamentos bloqueadores do cortisol (como cetoconazol ou metirapona) em casos de grave hipercortisolismo pré-operatório.
Quando procurar um médico
É fundamental procurar um clínico geral ou um endocrinologista quando você ou um familiar apresentar:
- Ganho de peso inexplicável na face, abdômen e nuca
- Estrias roxas ou avermelhadas em áreas como barriga, coxas, seios ou axilas
- Pressão alta de difícil controle (que não melhora com 2 ou 3 medicamentos)
- Diabetes tipo 2 surgido recentemente ou com difícil controle
- Fraqueza muscular nos braços e pernas (dificuldade para levantar da cadeira)
- Osteoporose precoce ou fraturas espontâneas
- Alterações menstruais em mulheres ou perda de libido em homens
- Hematomas frequentes e pele fina que machuca com facilidade
- Dores de cabeça persistentes ou perda de visão periférica (como se estivesse enxergando por um túnel)
Em clínicas populares e UBS, o médico pode iniciar a investigação com exames simples como dosagem de cortisol salivar ou urinário e teste de supressão com dexametasona. Se houver suspeita, você será encaminhado para um serviço especializado. Não ignore esses sinais: o diagnóstico precoce evita complicações graves como infarto, AVC, infecções recorrentes e fraturas.
Termos Relacionados
- Doença de Cushing: Condição causada especificamente por um adenoma basofílico na hipófise que produz ACTH em excesso. É a forma mais comum de Síndrome de Cushing (causada por tumor hipofisário).
- Síndrome de Cushing: Conjunto de sintomas decorrentes do excesso de cortisol no organismo, que pode ter várias causas (tumor na hipófise, nas adrenais, uso de corticoides, etc.).
- ACTH (hormônio adrenocorticotrófico): Hormônio produzido pela hipófise que estimula as glândulas adrenais a liberar cortisol. Nos adenomas basofílicos, a produção desse hormônio está descontrolada.
- Hipófise (pituitária): Glândula do tamanho de uma ervilha localizada na base do cérebro, responsável por controlar várias funções hormonais do corpo.
- Microadenoma hipofisário: Adenoma com menos de 1 cm de diâmetro. A maioria dos adenomas basofílicos é desse tipo.
- Macroadenoma hipofisário: Adenoma com 1 cm ou mais. Pode comprimir estruturas vizinhas, como os nervos ópticos.
- Cirurgia transesfenoidal: Procedimento cirúrgico para remover tumores da hipófise através do nariz e dos seios da face, sem necessidade de cortar o crânio. É o tratamento padrão para adenomas basofílicos.
- Hipercortisolismo: Excesso de cortisol no sangue, que leva aos sintomas da Síndrome de Cushing. Pode ser medido por exames laboratoriais.
Perguntas Frequentes sobre Adenoma basofílico
O que causa um adenoma basofílico?
A causa exata ainda não é completamente conhecida. Na maioria dos casos, o tumor surge de forma espontânea, sem uma causa hereditária clara. Acredita-se que mutações genéticas adquiridas (não herdadas) em células da hipófise levem ao crescimento descontrolado. Fatores de risco como exposição a radiação na cabeça podem aumentar levemente o risco, mas são raros. Na minha experiência, a maioria dos pacientes não tem uma causa identificável, e isso gera angústia. É importante saber que não há nada que você tenha feito para “causar” o tumor.
Adenoma basofílico é câncer?
Não. O adenoma basofílico é um tumor benigno, o que significa que ele não invade outros órgãos e não se espalha pelo corpo (não metastatiza). Porém, ele pode causar sérios problemas de saúde por produzir hormônios em excesso e, no caso de macroadenomas, por comprimir estruturas cerebrais. Com tratamento adequado, a maioria dos pacientes se cura completamente. Apenas uma minoria raríssima (menos de 1%) pode evoluir para um carcinoma, mas isso é exceção.
Qual o tratamento para adenoma basofílico?
O tratamento de primeira linha é a cirurgia transesfenoidal, que remove o tumor pela via nasal. No Brasil, essa cirurgia é oferecida pelo SUS em hospitais de referência, como os centros de neurocirurgia de universidades públicas. Quando a cirurgia não é possível ou o tumor não é completamente removido, podem ser usados medicamentos que bloqueiam a produção de cortisol (como cetoconazol, metirapona ou pasireotida) ou a radioterapia. A escolha depende do tamanho do tumor, da gravidade dos sintomas e da equipe médica.
Preciso de cirurgia para todos os casos?
Nem sempre. Microadenomas pequenos que não causam sintomas graves ou que são silenciosos (sem produção hormonal excessiva) podem ser apenas acompanhados com exames anuais. No entanto, quando o adenoma basofílico provoca Síndrome de Cushing (com sintomas como pressão alta, diabetes, ganho de peso), a cirurgia é geralmente indicada, pois o excesso de cortisol aumenta o risco de problemas cardiovasculares e infecções. O médico avaliará os riscos e benefícios individualmente.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa com a suspeita clínica (sinais de Cushing). São pedidos exames para medir o cortisol: cortisol urinário de 24 horas, cortisol salivar da me


