sexta-feira, junho 12, 2026

O que é O que é Aderência

O que é O que é O que é Aderência?

Na prática diária de um clínico geral que atende no SUS e em clínicas populares, poucos conceitos são tão centrais e, ao mesmo tempo, tão desafiadores quanto a aderência (ou adesão) ao tratamento. Muita gente pensa que “aderência” é só tomar o remédio direito, mas na verdade é um conceito muito mais amplo: é o grau em que o comportamento de uma pessoa – tomar medicamentos, seguir uma dieta, comparecer a consultas, realizar exames – coincide com as recomendações acordadas com o profissional de saúde. Quando falamos de aderência, estamos falando de uma parceria entre paciente e equipe médica, e não de uma simples obediência.

No Brasil, os números impressionam. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 50% dos pacientes com doenças crônicas não hipertensão e diabetes não têm uma aderência adequada ao tratamento. Isso significa que, na prática, metade das pessoas que precisam controlar a pressão ou o açúcar no sangue não conseguem seguir o plano terapêutico como deveriam. Esse cenário é ainda mais grave em populações de baixa renda, que enfrentam barreiras como falta de acesso a medicamentos gratuitos, dificuldade de entender a prescrição, efeitos colaterais não manejados e até mesmo a crença de que “se estou me sentindo bem, não preciso mais do remédio”.

Na rotina de uma clínica popular, a aderência aparece todos os dias. O senhor que volta com a pressão descontrolada porque parou a medicação “para não sobrecarregar o fígado”; a dona de casa que não consegue fazer o exame de glicemia porque a fila no laboratório é muito longa; o jovem que abandona o tratamento de tuberculose depois de melhorar os sintomas. Esses exemplos mostram que a aderência não é uma questão de “preguiça” ou “falta de vontade”, mas sim um fenômeno complexo que envolve fatores sociais, econômicos, culturais e emocionais. Por isso, como médicos, precisamos sempre escutar, acolher e adaptar as orientações à realidade de cada pessoa.

Como funciona / Características

A aderência não é um interruptor que liga ou desliga – ela acontece em um espectro. Um paciente pode ser totalmente aderente (segue tudo à risca), parcialmente aderente (segue parte das orientações) ou não aderente (abandona ou ignora as recomendações). Na prática clínica, costumamos avaliar a aderência por meio de perguntas simples, como: “Quantas vezes o(a) senhor(a) esqueceu de tomar o remédio na última semana?” ou “Teve alguma dificuldade para comprar ou pegar o medicamento na farmácia?”. Essas perguntas, muitas vezes feitas em tom de conversa, revelam muito mais do que um questionário formal.

As características da aderência variam conforme o tipo de tratamento. Para doenças agudas, como uma infecção bacteriana, a aderência geralmente é alta (ninguém quer ficar doente por mais tempo). Já nas doenças crônicas – hipertensão, diabetes, asma, depressão, HIV – a aderência tende a cair com o tempo, especialmente quando o paciente não sente sintomas imediatos. Um exemplo clássico: o hipertenso que, após alguns meses com a pressão controlada, acha que está “curado” e suspende a medicação por conta própria. Esse é um dos motivos pelos quais o Ministério da Saúde reforça a importância da educação em saúde e do vínculo com a equipe da Atenção Básica.

No SUS, a aderência é monitorada por indicadores, como o percentual de pacientes hipertensos com pressão arterial controlada (meta < 140/90 mmHg). Dados do DATASUS mostram que, em muitas regiões, menos de 30% dos hipertensos cadastrados atingem essa meta. Isso não é falha do paciente, mas um reflexo de um sistema que precisa oferecer suporte contínuo: consultas regulares, medicamentos disponíveis, acolhimento humanizado e, principalmente, escuta ativa. É por isso que, na clínica popular, gasto tempo explicando cada medicamento, seus efeitos esperados e possíveis reações adversas, sempre usando uma linguagem simples e exemplos do dia a dia.

Tipos e Classificações

Na literatura médica e nas diretrizes brasileiras, a aderência é classificada de diferentes formas. As mais usadas na prática clínica são:

  • Aderência primária: ocorre quando o paciente inicia o tratamento conforme prescrito. Por exemplo, após uma consulta, a pessoa retira o medicamento na farmácia e começa a tomar. A falta de aderência primária é comum quando o paciente não entende a prescrição ou não consegue acesso ao remédio.
  • Aderência secundária: refere-se à continuidade do tratamento ao longo do tempo. É aqui que a maioria dos problemas aparece – o paciente até começa bem, mas com o tempo vai falhando nas doses ou abandona o tratamento.
  • Aderência total: o paciente segue todas as recomendações (doses, horários, dieta, atividade física). Raro na prática, mas é o ideal.
  • Aderência parcial: o paciente segue algumas orientações, mas não todas. Por exemplo: toma o remédio da pressão, mas não corta o sal na comida.
  • Não aderência: o paciente não segue nenhuma recomendação ou abandona o tratamento completamente.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) orientam que a avaliação da aderência seja feita de forma sistemática, utilizando instrumentos validados como o Teste de Morisky (8 perguntas) ou a Escala de Adesão Medicamentosa de Haynes-Sackett. Essas ferramentas são usadas em pesquisas e em serviços de referência para identificar pacientes em risco de baixa aderência e planejar intervenções personalizadas.

Quando procurar um médico

Você não precisa esperar estar muito doente para procurar ajuda sobre aderência. Na verdade, o melhor momento é logo após o início de qualquer tratamento de longo prazo. Mas existem sinais de alerta que indicam que a aderência pode estar comprometida:

  • Você percebe que os sintomas da sua doença estão voltando ou piorando (ex.: falta de ar na asma, picos de glicemia no diabetes, pressão lá em cima).
  • Você sente efeitos colaterais que não foram conversados com o médico e pensa em parar o remédio por conta própria.
  • Você tem dúvidas sobre como tomar o medicamento (horário, dose, com ou sem comida) ou não lembra se tomou a dose.
  • Você não consegue comprar ou retirar o remédio na farmácia popular ou na UBS por questões financeiras ou burocráticas.
  • Você se sente desmotivado, acha que o tratamento não está fazendo diferença ou que “não vale a pena”.
  • Você está prestes a viajar ou mudar de rotina e não sabe como manter o tratamento.

Procure o médico (clínico geral, cardiologista, endocrinologista, psiquiatra ou o profissional que acompanha sua doença) em qualquer uma dessas situações. Não se envergonhe de dizer que está com dificuldade – isso é mais comum do que se imagina. O médico pode ajustar a dose, trocar o medicamento por um mais acessível, simplificar o esquema (ex.: tomar um comprimido por dia em vez de três) ou encaminhá-lo para um psicólogo ou assistente social. O SUS oferece suporte multidisciplinar justamente para ajudar na aderência.

Termos Relacionados

  • Adesão: sinônimo de aderência, muito usado no Brasil. Refere-se ao mesmo conceito de seguir as recomendações de saúde.
  • Compliance: termo inglês que significa “cumprimento” ou “ob