sexta-feira, junho 12, 2026

O que é O que é Adiposidade visceral

O que é Adiposidade visceral?

Quando falamos em adiposidade visceral, estamos nos referindo à gordura que se acumula dentro da cavidade abdominal, ao redor de órgãos como fígado, pâncreas e intestinos. Diferente da gordura subcutânea – aquela que podemos pinçar embaixo da pele – a gordura visceral não é visível a olho nu e, por isso, muitas vezes passa despercebida. Na minha experiência como médico clínico geral no SUS e em clínicas populares da periferia, vejo pessoas que se surpreendem ao descobrir que têm esse tipo de gordura, mesmo sem estarem acima do peso pela balança. É o famoso “barriga de chope” ou “barriga dura” que, ao contrário do que muitos pensam, não é só uma questão estética: a adiposidade visceral é um dos maiores fatores de risco para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e esteatose hepática (gordura no fígado).

No Brasil, os dados são preocupantes. Segundo a Vigitel 2023 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, do Ministério da Saúde), cerca de 61,4% dos adultos brasileiros têm excesso de peso, e a obesidade atinge 24,3% da população. A circunferência abdominal elevada – que é o principal marcador clínico da adiposidade visceral – já afeta mais de 30% dos homens e 40% das mulheres no país, especialmente após os 35 anos. No dia a dia da atenção básica, a medição da cintura com uma fita métrica é um procedimento simples, padronizado pelo Protocolo de Atenção à Saúde do Adulto do Ministério da Saúde, e muitas vezes é o primeiro sinal de que algo precisa ser investigado. Infelizmente, muita gente só descobre quando já tem pressão alta, diabete ou colesterol alterado.

Como funciona / Características

A adiposidade visceral não é uma gordura “passiva”. Ela é metabolicamente ativa: produz substâncias inflamatórias (citocinas) e hormônios que interferem diretamente na ação da insulina. Na prática, isso significa que o corpo começa a ter dificuldade para usar a glicose, o que leva à resistência insulínica e, depois, ao diabetes. Além disso, essa gordura libera ácidos graxos livres na corrente sanguínea, que se acumulam no fígado, causando esteatose hepática, e aumentam os triglicerídeos e o colesterol ruim (LDL).

No consultório, costumo dar um exemplo simples: imagine dois pacientes com o mesmo peso na balança, mas um com a barriga “chapada” e outro com a barriga protuberante e endurecida. O segundo quase sempre tem mais gordura visceral, mesmo que o IMC (Índice de Massa Corporal) seja igual. Na clínica popular, onde muitas vezes não temos acesso a exames caros como tomografia ou bioimpedância, usamos a circunferência abdominal como padrão ouro prático. A medida é feita no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca (osso do quadril). Os pontos de corte recomendados pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) são: para mulheres, ≥ 80 cm; para homens, ≥ 94 cm. Acima de 88 cm (mulheres) e 102 cm (homens), o risco cardiovascular é considerado muito alto.

Outra característica importante: a adiposidade visceral tem forte correlação com a síndrome metabólica, que é um conjunto de alterações (circunferência abdominal aumentada, hipertensão, glicemia elevada, triglicerídeos altos e HDL baixo). No SUS, o diagnóstico de síndrome metabólica segue os critérios da Diretriz Brasileira de Síndrome Metabólica (2023), e a presença de gordura visceral é o componente central. Por isso, ao atender um paciente com barriga grande, já peço exames de sangue básicos (glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicerídeos) e aferição da pressão arterial.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, não usamos uma classificação formal em “tipos” de adiposidade visceral, mas sim categorias de risco baseadas na circunferência abdominal. Essa é a classificação mais utilizada no SUS e nas clínicas populares, pois é barata, rápida e eficaz. Existem também métodos de imagem, como:

  • Tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética: Considerados padrão ouro para medir a área de gordura visceral em cm², mas são caros e pouco disponíveis na rede pública. Na prática, raramente são usados para rastreamento.
  • Bioimpedância elétrica: Alguns equipamentos (como os disponíveis em academias ou clínicas particulares) estimam a gordura visceral, mas com menor precisão. No SUS, esse exame não é ofertado de rotina.
  • Relação cintura-quadril (RCQ): Dividindo a circunferência da cintura pela do quadril. Valores acima de 0,85 (mulheres) e 0,90 (homens) indicam risco aumentado.

Do ponto de vista fisiopatológico, podemos diferenciar a adiposidade visceral da gordura subcutânea: a visceral é mais prejudicial por sua atividade inflamatória e hormonal. Também merece destaque a gordura ectópica, que é o acúmulo de gordura dentro de órgãos como fígado (esteatose), coração (lipotoxicidade) e pâncreas, frequentemente associada à gordura visceral.

Quando procurar um médico

Muitas pessoas só pensam em ir ao médico quando sentem dor, mas a adiposidade visceral é silenciosa. Os sinais de alerta que aparecem no meu consultório são:

  • Barriga saliente e “dura”, mesmo em pessoas magras de braços e pernas.
  • Dificuldade para perder peso na região abdominal, especialmente após os 40 anos.
  • Exames de rotina alterados: glicemia de jejum acima de 100 mg/dL, triglicerídeos elevados, colesterol HDL baixo, pressão arterial acima de 130/85 mmHg.
  • Histórico familiar de diabetes, infarto ou acidente vascular cerebral (AVC).
  • Sintomas sugestivos de apneia do sono (ronco alto, pausas respiratórias noturnas) – a gordura visceral está associada a essa condição.

Se você se encaixa em um ou mais desses pontos, recomendo procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima ou uma clínica popular. O médico de família ou clínico geral fará a medida da circunferência abdominal, avaliará seu IMC e solicitará exames. Não é necessário ir direto ao cardiologista ou endocrinologista: o primeiro cuidado pode ser feito na atenção primária. No SUS, o Programa de Hipertensão e Diabetes (HiperDia) inclui esses pacientes e oferece acompanhamento gratuito com equipe multiprofissional.

Termos Relacionados

  • Gordura subcutânea: Gordura localizada embaixo da pele, visível e palpável. Tem menor risco metabólico que a visceral.
  • Circunferência abdominal: Medida da cintura usada como marcador indireto da gor