quinta-feira, maio 28, 2026

O que é O que é Agulha de Veress

O que é O que é Agulha de Veress?

Em mais de 15 anos de atendimento no SUS e em clínicas populares, já vi muitos pacientes ficarem tensos quando o médico menciona “cirurgia por vídeo”. Um dos instrumentos mais importantes nesse tipo de procedimento é a Agulha de Veress. Ela parece uma agulha de injeção comum, mas tem um mecanismo de segurança que a torna indispensável para iniciar a maioria das cirurgias laparoscópicas (aquelas feitas com câmera e pequenos furos na barriga).

Na prática, o cirurgião insere essa agulha na parede do abdômen para injetar gás carbônico (CO₂). Esse gás “infla” a barriga, criando espaço para que a câmera e os instrumentos possam trabalhar sem machucar os órgãos internos. No Brasil, a laparoscopia é muito usada no SUS para retirada da vesícula (colecistectomia), histerectomia, cirurgias de hérnia e até tratamentos de endometriose. Segundo dados do DATASUS (sistema do Ministério da Saúde), só as cirurgias eletivas de vesícula ultrapassam 100 mil procedimentos por ano, a maioria por via laparoscópica.

O nome “Veress” vem do médico húngaro János Veress, que a desenvolveu nos anos 1930. A Agulha de Veress é hoje regulamentada pela ANVISA como um dispositivo médico de classe II. No CFM, há resoluções que orientam o treinamento dos cirurgiões para seu uso seguro, minimizando riscos de perfuração acidental de intestino ou vasos sanguíneos. Para o paciente leigo, entender o que é essa agulha ajuda a desmistificar a cirurgia

Como funciona / Características

A Agulha de Veress tem uma ponta externa afiada, que corta a pele e a fáscia (a membrana que cobre os músculos). Dentro dela há uma cânula com a ponta romba (sem corte) e uma mola. Enquanto a agulha atravessa a parede abdominal, a pressão faz a ponta romba ficar recuada. No exato momento em que a agulha entra na cavidade abdominal (local vazio entre os órgãos), a mola empurra a ponta romba para fora, protegendo alças intestinais e grandes vasos.

Depois de posicionada, o cirurgião conecta um tubo que leva CO₂ medicinal. O gás é insuflado lentamente até a pressão ideal (geralmente 12-15 mmHg). Só então ele retira a agulha e coloca o trocarte (um tubo por onde passam a câmera e os instrumentos). No dia a dia de uma clínica popular, muitas pessoas me perguntam: “Doutor, é verdade que colocam ar na barriga?” Sim, mas é um gás estéril e inofensivo, que depois é eliminado naturalmente pelo organismo (o paciente pode sentir um desconforto no ombro após a cirurgia – é normal).

Um detalhe importante: a Agulha de Veress não serve para aplicar injeções, aspirar líquidos ou fazer biópsias. Sua única função é criar o pneumoperitônio (o “balão” de gás). Em pacientes com cirurgias abdominais prévias, aderências podem dificultar a entrada, e o cirurgião prefere a “técnica aberta” (sem agulha). Mas, na maioria das laparoscopias de primeira vez, a Agulha de Veress é a primeira escolha pela rapidez e segurança.

Tipos e Classificações

No mercado brasileiro, encontramos basicamente dois grandes grupos de Agulha de Veress:

  • Descartáveis: já vêm esterilizadas e são usadas uma única vez. Mais comuns em hospitais particulares e credenciados ao SUS que seguem rigorosamente as normas da ANVISA. Exemplo: marcas como Ethicon, B. Braun, BD.
  • Reutilizáveis: feitas de aço inoxidável, podem ser esterilizadas em autoclave e reutilizadas dezenas de vezes. Ainda muito usadas em serviços públicos com orçamento limitado, desde que haja controle rigoroso de limpeza e inspeção. O CFM recomenda que cada unidade limite o número de reutilizações para evitar falhas.

Quanto ao tamanho, as mais frequentes têm 120 mm (para adultos) e 150 mm (para obesos ou cirurgias pélvicas). Também existem versões pediátricas (70-90 mm) com ponta mais fina. Algumas vêm com um canal lateral para medir a pressão, mas o padrão é o mesmo princípio de mola.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed) e a Sociedade Brasileira de Videocirurgia (Sobracil) publicam guias de boas práticas que orientam a escolha do tipo adequado para cada perfil de paciente.

Quando procurar um médico

A Agulha de Veress em si não é um motivo de consulta. Mas se você vai fazer uma cirurgia laparoscópica, é importante conversar com seu cirurgião sobre os riscos e benefícios. Sinais de alerta que merecem atendimento de urgência após uma laparoscopia:

  • Dor abdominal intensa e progressiva, que não melhora com analgésicos comuns.
  • Inchaço exagerado na barriga, com dificuldade para respirar.
  • Febre alta (acima de 38,5°C) nas primeiras 48 horas.
  • Sangramento vermelho vivo pelo local da incisão ou saída de líquido amarelado em grande quantidade.