O que é O que é O que é Alotriofagia?
No meu consultório, já atendi dezenas de pacientes que chegavam com uma queixa que muitos acham estranha, mas que na prática clínica é mais comum do que se imagina: a vontade irresistível de comer substâncias que não são alimento. Isso tem nome: alotriofagia – termo técnico para o que popularmente conhecemos como pica ou transtorno de ingestão de substâncias não nutritivas. Na rotina de uma clínica popular ou no SUS, a versão mais frequente é a geofagia, que é o consumo de terra, barro ou argila. Mas também vejo casos de pagofagia (comer gelo), amilofagia (comer amido cru, como maisena) e até ingestão de papel, cabelo ou tinta de parede.
A definição clínica é clara: a alotriofagia é a ingestão persistente de substâncias não alimentares por pelo menos um mês, sem aversão cultural a alimentos, e que não faz parte de práticas religiosas ou tradicionais aceitas (como o uso de argila em algumas comunidades rituais). No Brasil, a prevalência estimada em gestantes chega a 30-40% em algumas regiões, especialmente no Nordeste, segundo dados do Ministério da Saúde e estudos da Universidade Federal de Pernambuco. Em crianças de 1 a 6 anos, a frequência varia de 10% a 20%, sendo mais alta em famílias de baixa renda e com déficit de ferro. O CFM (Conselho Federal de Medicina) e a ANVISA não têm uma resolução específica sobre o tema, mas a conduta clínica segue as diretrizes do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e da CID-11, que classificam a alotriofagia como um transtorno alimentar quando associada a sofrimento ou risco à saúde.
Na prática do SUS, a queixa aparece em consultas de pré-natal, pediatria e clínica geral. Muitas vezes o paciente não menciona espontaneamente – ele sente vergonha. Por isso, perguntar ativamente sobre o consumo de terra, gelo ou amido faz parte do meu exame clínico de rotina, especialmente em gestantes e crianças com anemia. A alotriofagia pode ser um sinal importante de deficiência de ferro ou zinco, mas também pode refletir questões emocionais, como estresse ou transtornos obsessivo-compulsivos. Ignorar o sintoma pode levar a complicações sérias, como intoxicação, obstrução intestinal ou infecções por parasitas.
Como funciona / Características
A alotriofagia não é uma “frescura” ou um hábito sem importância. Ela tem mecanismos fisiológicos e psicológicos bem descritos. O mais comum é a deficiência de micronutrientes, principalmente ferro, zinco e, em alguns casos, cálcio. O corpo, ao sentir falta desses minerais, pode desencadear um desejo por substâncias que contenham traços desses elementos – por exemplo, terra rica em ferro ou argila que adsorve toxinas. É como se o organismo tentasse compensar a carência de forma instintiva, mesmo que a substância ingerida não seja nutritiva.
No dia a dia da clínica, vejo padrões típicos:
- Geofagia: mais comum em gestantes e crianças. A paciente relata que sente uma vontade incontrolável de comer barro, geralmente de uma cor específica (argila branca, amarela ou vermelha). Muitas dizem que a textura e o cheiro são “gostosos”. Exemplo real: uma gestante de 22 semanas, com hemoglobina de 9,5 g/dL, que comia cerca de 50g de terra por dia. Após reposição de ferro, o desejo sumiu em duas semanas.
- Pagofagia: pessoas que consomem grandes quantidades de gelo – mais de um copo de 500 ml por dia. Isso está fortemente associado à anemia ferropriva. Um estudo brasileiro da UNIFESP mostrou que 40% dos pacientes com anemia por deficiência de ferro apresentavam pagofagia.
- Amilofagia: comum em mulheres jovens e gestantes, que comem amido de milho ou maisena crua, muitas vezes escondido. O amido não tem valor nutricional e pode causar ganho de peso excessivo e deficiência de ferro por interferir na absorção.
- Outros: ingestão de papel, giz, cinzas, tinta, cabelo (tricofagia) – estes últimos podem formar tricobezoares (bolas de cabelo no estômago), que exigem cirurgia.
Uma característica importante: o desejo é compulsivo. A pessoa sente um impulso forte, que só alivia após ingerir a substância. Muitos pacientes descrevem uma sensação de “alívio” ou “prazer” seguida de culpa. Não há relação com fome ou saciedade normal. No atendimento, sempre investigo: “Quando começou? Já fez exames de sangue? Tem anemia na família? Está grávida? Passa por estresse?” – essas perguntas ajudam a diferenciar a alotriofagia de um mero hábito cultural.
Tipos e Classificações
A alotriofagia é classificada principalmente pelo tipo de substância ingerida. No Brasil, as mais frequentes são:
- Geofagia – ingestão de terra, argila, barro. É a mais comum no Nordeste e em comunidades rurais. Pode ter conotação cultural (uso ritualístico), mas quando excessiva e associada a deficiências, é patológica.
- Pagofagia – consumo de gelo. Muito prevalente em pacientes com anemia, especialmente mulheres.
- Amilofagia – consumo de amido cru (maisena, farinha de trigo crua, arroz cru).
- Tricofagia – ingestão de cabelo. Pode levar a bezoares e obstrução intestinal. Mais associada a transtornos psiquiátricos como tricotilomania.
- Coprofagia – ingestão de fezes. Raro, mas pode ocorrer em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.
- Outros – papel, giz, tinta, carvão, cinzas, terra de vasos, entre outros.
Do ponto de vista clínico, a classificação mais útil é a CID-10 (F98.3) e CID-11 (6B84.0), que definem a pica como um transtorno alimentar quando há ingestão persistente de substâncias não nutritivas por pelo menos um mês, em idade desenvolvimento inadequada (acima de 2 anos) e que não faz parte de práticas culturais aceitas. Também é classificada como secundária quando há uma causa orgânica (ex.: deficiência de ferro) ou primária quando não há causa identificável e o transtorno é psiquiátrico.
No SUS, a abordagem segue a Linha de Cuidado para Anemia e Saúde da Criança do Ministério da Saúde. O protocolo inclui: dosagem de hemograma completo, ferritina, zinco sérico e parasitológico de fezes (para descartar contaminação por parasitas do solo). O CFM recomenda que todo caso de alotriofagia seja investigado com exames laboratoriais antes de considerar hipótese psiquiátrica.
Quando procurar um médico
Você deve procurar atendimento médico se:
- Você ou seu filho(a) tem vontade frequente e incontrolável de comer terra, gelo, amido, papel ou qualquer substância que não seja alimento – e isso dura mais de um mês.
- Gestantes com desejo por substâncias não nutritivas devem informar o obstetra na consulta de pré-natal. Muitas têm vergonha, mas é fundamental para prevenir anemia e complicações.
- Aparecem sintomas como palidez, cansaço, tontura, falta de ar, unhas quebradiças – sinais de anemia ferropriva.
- Crianças pequenas que colocam objetos na boca constantemente (mas atenção: até 2 anos a exploração oral é normal; acima disso, merece investigação).
- Dores abdominais, vômitos, prisão de ventre persistente ou sangue nas fezes – podem indicar complicações como obstrução por bezoar ou infecção por parasitas.
- O comportamento interfere na vida social, escolar ou familiar, causando isolamento ou culpa intensa.
O que fazer? Procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. O clínico geral ou pediatra irá solicitar exames de sangue (hemograma, ferritina, zinco) e de fezes. Se a causa for deficiência de ferro, o tratamento com sulfato ferroso (gratuito no SUS) costuma resolver em 4 a 8 semanas. Caso não haja melhora, pode ser necessário encaminhamento ao psiquiatra ou psicólogo para suporte comportamental. Não tente “parar por conta própria” sem corrigir a carência – o impulso é muito forte e o risco de automedicação com suplementos pode ser perigoso.
Termos Relacionados
- Pica – termo internacional para o transtorno de ingestão de substâncias não nutritivas; sinônimo de alotriofagia.
- Geofagia – consumo de terra, argila ou barro. Forma mais comum no Brasil.
- Pagofagia – ingestão compulsiva de gelo. Fortemente associado à anemia ferropriva.
- Amilofagia – consumo de amido cru (maisena, farinha, arroz cru). Comum em gestantes.
- Anemia ferropriva – deficiência de ferro no organismo, principal causa orgânica de alotriofagia.
- Deficiência de zinco – outra carência nutricional que pode desencadear desejo por substâncias não alimentares.
- Transtorno do Espectro Autista (TEA) – em alguns casos, a alotriofagia pode ser um comportamento associado a alterações sensoriais.
- Bezoar – massa de material não digerido (ex.: cabelo, fibras) que se acumula no estômago e pode obstruir o intestino.
Perguntas Frequentes sobre O que é O que é O que é Alotriofagia
Grávida comer terra faz mal para o bebê?
Sim, pode fazer mal. O consumo de terra pode conter ovos de parasitas (lombriga, toxoplasma, etc.), metais pesados (chumbo, mercúrio) e bactérias que causam infecções. Além disso, a terra pode atrapalhar a absorção de nutrientes importantes. Se você está grávida e sente esse desejo, converse com seu médico na UBS ou no pré-natal. O tratamento da anemia com ferro geralmente elimina a vontade. Não substitua o pré-natal por remédios caseiros ou “receitas da vizinha”.
Alotriofagia tem cura?
Sim, na maioria dos casos. Quando a causa é uma deficiência nutricional (ferro, zinco), a repos


