sexta-feira, junho 12, 2026

O que é O que é Alotriofonia

O que é O que é Alotriofonia?

Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares, escuto com frequência pacientes dizerem: “Doutor, estou ouvindo vozes que ninguém mais ouve”, ou “tem um rádio ligado na minha cabeça”. O nome técnico para esse fenômeno é alotriofonia – um termo derivado do grego (allos = outro, tropho = som, phonia = voz), que significa literalmente “som de outra origem”. Na prática, é a percepção auditiva de sons, vozes ou ruídos que não possuem uma fonte externa real. Ou seja, a pessoa escuta algo que não está acontecendo no ambiente ao redor.

No Brasil, o alotriofonia aparece principalmente associado a transtornos psiquiátricos, como esquizofrenia e transtorno bipolar em fase psicótica, mas também pode ocorrer em quadros neurológicos (epilepsia do lobo temporal, tumores cerebrais, doenças degenerativas), no uso de drogas (cocaína, anfetaminas, álcool em abstinência) e até em situações de estresse extremo ou privação de sono. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 1% da população brasileira (aproximadamente 2 milhões de pessoas) tem diagnóstico de esquizofrenia, e entre 70% e 80% desses pacientes apresentam alotriofonia em algum momento da vida. Na Atenção Primária do SUS, o médico generalista é muitas vezes o primeiro contato – por isso é crucial saber reconhecer e acolher essa queixa, evitando estigmas e encaminhando rapidamente para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

O termo alotriofonia é menos usado no dia a dia das unidades básicas de saúde (UBS) – lá falamos mais em “alucinações auditivas”. Mas é importante dominar o conceito, porque a literatura técnica (como a Classificação Internacional de Doenças – CID, adotada pelo CFM) utiliza essa nomenclatura para descrever o sintoma. Lembre-se: a alotriofonia é um sintoma, não uma doença. O diagnóstico correto depende da história clínica completa, exames e, muitas vezes, da avaliação psiquiátrica e neurológica.

Como funciona / Características

Imagine a seguinte cena: uma senhora de 60 anos chega ao consultório de uma clínica popular em Fortaleza, dizendo que ouve a vizinha xingando o tempo todo pela parede. Você vai até a janela, não vê ninguém. Ela insiste: “é ela, doutor, ela fala mal de mim porque sou evangélica”. Esse é um exemplo clássico de alotriofonia com conteúdo persecutório. A paciente não está mentindo – ela realmente escuta aquilo, mas a fonte sonora não existe no mundo real.

Na prática clínica, as alotriofonias podem ser muito variáveis: vozes que comandam (imperativas), que comentam as ações da pessoa, que falam mal ou bem, barulhos como passos, música, rasgar papel, ou até sons orgânicos como batimentos cardíacos (quando associados a condições neurológicas). Costumo perguntar: “Esses sons vêm de dentro ou de fora? Você consegue identificar de onde vêm? Eles acontecem o tempo todo ou em momentos específicos?”. Isso ajuda a diferenciar de zumbido (tinnitus), que é um som contínuo gerado no próprio sistema auditivo (como um apito), ou de ilusões (quando um som real é interpretado errado, ex: o vento parece uma voz).

Um ponto que observo muito no SUS é que pacientes em surto psicótico inicial podem relatar alotriofonia de forma vaga, às vezes confundindo com pensamentos intrusivos. Por isso, a escuta ativa e sem julgamento é fundamental. O estigma é um dos maiores obstáculos: muitos têm medo de ser chamados de “loucos” e escondem o sintoma. Como médico, sempre reforço que alotriofonia é um sintoma médico como qualquer outro – tem causas, tem tratamento e não define a pessoa.

Tipos e Classificações

No Brasil, as classificações mais usadas para alotriofonia seguem o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e a CID-10 (adotada pelo SUS; em transição para a CID-11). Podemos dividir as alotriofonias em alguns tipos:

  • Quanto ao conteúdo: vozes simples (ex: “bom dia”) ou complexas (frases inteiras, diálogos); vozes imperativas (ordenam algo, como “se mate” – sinal de alerta); vozes comentadoras (descrevem o que a pessoa está fazendo); vozes persecutórias (falam mal, ameaçam).
  • Quanto à origem: psiquiátrica (esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão psicótica), neurológica (epilepsia do lobo temporal, demência, tumores), tóxica (drogas, álcool, medicações) ou orgânica (febre alta, infecções, distúrbios metabólicos).
  • Quanto ao estado de consciência: em vigília (paciente lúcido) ou em delirium (rebaixamento da consciência – comum em idosos hospitalizados, infecções urinárias, pós-operatório).

Na prática da UBS e clínicas populares, utilizamos a CID-10 para registrar o sintoma. Os códigos mais comuns são: F20.0 (esquizofrenia paranóide), F31.5 (transtorno afetivo bipolar com psicose), F06.0 (alucinações orgânicas) e R44.0 (alucinações auditivas). O Ministério da Saúde recomenda que todo paciente com alotriofonia seja encaminhado para avaliação psiquiátrica, preferencialmente dentro da RAPS (CAPS – Centros de Atenção Psicossocial).

Quando procurar um médico

Se você ou alguém próximo está ouvindo sons ou vozes que outras pessoas não escutam, é fundamental buscar ajuda médica. Mas alguns sinais indicam maior urgência:

  • Vozes que ordenam que você machuque a si ou a outros (vozes imperativas de conteúdo violento).
  • Início súbito e recente (horas ou dias) – pode indicar quadro orgânico (infecção, AVC, intoxicação).
  • Associado a confusão mental, febre, dor de cabeça intensa, alteração da fala ou fraqueza – emergência neurológica.
  • Presença de delírios (crenças fixas sem base real, como achar que está sendo perseguido).
  • Prejuízo nas atividades diárias: deixar de trabalhar, se isolar, abandonar a higiene.
  • Se a pessoa já tem diagnóstico psiquiátrico e param a medicação por conta própria.

No SUS, o primeiro passo é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. O médico generalista fará a avaliação inicial, exames básicos (hemograma, glicemia, função tireoidiana, toxicológico) e, se necessário, encaminhará para o CAPS ou ambulatório de psiquiatria. Em casos graves com risco iminente, dirija-se a uma emergência hospitalar (UPA, Hospital Geral). Não demore: quanto antes o tratamento começar, melhor o prognóstico.

Termos Relacionados

  • Alucinação auditiva: sinônimo de alotriofonia; percepção de som sem estímulo externo.
  • Ilusão auditiva: interpretação distorcida de um som real – ex: ouvir o barulho da chuva e achar que alguém está chamando.
  • Zumbido (tinnitus): som contínuo (apito, chiado) gerado no ouvido ou sistema nervoso; não tem conteúdo verbal e não é uma alucinação.
  • Psicose: estado mental em que a pessoa perde contato com a realidade, podendo incluir alotriofonia e delírios.
  • Esquizofrenia: transtorno psiquiátrico crônico em que a alotriofonia é um dos sintomas mais comuns.
  • Delirium: estado agudo de confusão mental com alucinações, comum em idosos hospitalizados ou com infecção.
  • Epilepsia do lobo temporal: pode causar alotriofonia como parte de uma crise parcial simples (ouvir música ou vozes breves).
  • Abstinência alcoólica: em alcoolistas que param de beber, podem surgir alucinações auditivas (delirium tremens).

Perguntas Frequentes sobre O que é O que é Alotriofonia

1. Alotriofonia é a mesma coisa que ouvir vozes?

Sim, na prática os pacientes usam “ouvir vozes” para descrever a alotriofonia. O termo médico é mais específico: inclui qualquer som (vozes, música, barulhos) sem fonte real. Se você escuta algo que ninguém mais ouve, isso pode ser um sinal de alotriofonia. Nem sempre é doença – mas merece investigação.

2. Pode ser causada por estresse ou falta de sono?

Sim. Situações extremas