O que é O que é Alucinose?
Alucinose é um termo técnico que descreve um quadro em que a pessoa percebe estímulos sensoriais que não existem (como ouvir vozes ou ver figuras), mas, diferente de uma alucinação típica dos transtornos psiquiátricos graves, o paciente mantém crítica preservada — ou seja, sabe que aquilo não é real. Na minha prática de 15 anos entre o SUS e clínicas populares, atendo com frequência pacientes que chegam dizendo: “Doutor, eu sei que não tem ninguém conversando comigo, mas ouço uma voz chamando meu nome toda noite.” Esse relato é clássico da alucinose.
No Brasil, a alucinose aparece principalmente associada a doenças neurológicas (como demências e Parkinson), uso crônico de álcool (na chamada alucinose alcoólica) e perda auditiva ou visual severa (síndrome de Charles Bonnet). Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 10% dos idosos acima de 65 anos atendidos na atenção básica relatam fenômenos alucinatórios, sendo a alucinose isolada a forma mais comum, muitas vezes confundida com “loucura” pela família. É fundamental entender que alucinose não é psicose — o tratamento e o prognóstico são completamente diferentes.
Na rotina das clínicas populares, o grande desafio é diferenciar alucinose de delirium (confusão aguda) e de alucinações psicóticas. Muitos pacientes idosos com alucinose visual (ver insetos, pessoas ou animais) são encaminhados ao psiquiatra sem necessidade, quando na verdade precisam de avaliação neurológica e oftalmológica. O CFM orienta que o diagnóstico seja feito com anamnese detalhada, incluindo histórico de uso de álcool, medicamentos e queixas sensoriais.
Como funciona / Características
No dia a dia, a alucinose se manifesta de forma recorrente e estereotipada: a mesma alucinação acontece sempre em situações parecidas. Um exemplo comum na clínica é o paciente com alucinose alcoólica (geralmente após anos de consumo pesado) que ouve vozes ameaçadoras ou comentários negativos — mas sabe que são irreais e consegue descrever o conteúdo sem angústia excessiva. Outro caso frequente é o idoso com degeneração macular que vê figuras geométricas ou pessoas pequenas andando no quarto, mas entende que é “um truque da visão”.
Características-chave que observo no consultório:
- Consciência preservada: o paciente não está confuso, sabe data, local e quem é.
- Crítica intacta: reconhece que a percepção não corresponde à realidade.
- Alteração sensorial associada: a maioria tem déficit visual, auditivo ou neurológico.
- ausência de outros sintomas psicóticos: não há delírios, desorganização do pensamento ou embotamento afetivo.
- Desencadeada por situações específicas: baixa luminosidade, cansaço, abstinência alcoólica.
No SUS, a alucinose muitas vezes é identificada durante a consulta de rotina do idoso. Pergunto sempre: “O senhor vê ou ouve alguma coisa que os outros não veem? E o senhor acha que é real ou imaginação?”. A resposta honesta do paciente — “Sei que não é verdade, mas me incomoda” — já direciona para alucinose e não para psicose.
Tipos e Classificações
A classificação mais usada no Brasil, baseada na CID-10 (adotada pelo SUS) e na DSM-5, divide a alucinose conforme a causa e a modalidade sensorial. As principais são:
- Alucinose alcoólica (F10.5): ocorre em pacientes com dependência de álcool, geralmente após redução ou parada do consumo. As alucinações são auditivas (vozes) e o paciente mantém crítica. Pode durar dias ou semanas.
- Alucinose orgânica (F06.0): decorrente de lesões cerebrais (tumores, AVC, traumatismo craniano) ou doenças neurodegenerativas (Parkinson, demência com corpos de Lewy). Muito comum em clínicas populares devido ao envelhecimento da população.
- Alucinose visual da síndrome de Charles Bonnet: em pessoas com perda visual severa (degeneração macular, catarata, glaucoma). As imagens são complexas e lúcidas, mas o paciente sabe que não são reais.
- Alucinose peduncular: rara, associada a lesões no tronco cerebral. Pode causar visões de cenas complexas e coloridas.
A ANVISA regula o uso de medicamentos como antipsicóticos atípicos (quetiapina, risperidona) para casos refratários, mas sempre com cautela em idosos. No SUS, o tratamento é multiprofissional: neurologista, oftalmologista e fonoaudiólogo (para reabilitação auditiva). Não existe medicação específica para alucinose; a base é tratar a causa subjacente.
Quando procurar um médico
Você deve agendar uma consulta se:
- Passar a perceber sons, imagens ou sensações táteis que outras pessoas não percebem, mesmo que tenha consciência de que não são reais.
- Caso essas percepções estejam atrapalhando o sono, o trabalho ou a convivência familiar.
- Se houver histórico de uso pesado de álcool e você começar a ouvir vozes, mesmo estando sóbrio.
- Após uma perda recente de visão ou audição (súbita ou progressiva) e surgirem alucinações visuais ou auditivas.
- Idosos com Parkinson ou demência que passam a ver pessoas ou animais inexistentes — isso é muito comum e tem tratamento.
- Se você ou um familiar apresentar confusão mental, desorientação ou agressividade junto com as alucinações — isso pode ser delirium, uma emergência médica.
Nas clínicas populares, oriento que a primeira parada seja o clínico geral ou médico de família da Unidade Básica de Saúde (UBS). Ele fará a triagem e, se necessário, encaminhará para neurologia, oftalmologia ou psiquiatria. O SUS oferece atendimento gratuito em todos esses níveis.
Termos Relacionados
- Alucinação: percepção sem objeto real, mas o paciente acredita que é verdadeira (perda de crítica). Comum em esquizofrenia e psicoses.
- Delírio: crença falsa e fixa, mantida mesmo com evidências contrárias. Ex: acreditar que está sendo perseguido.
- Delirium: estado agudo de confusão, com flutuação de consciência e alucinações. Emergência médica frequente em idosos hospitalizados.
- Ilusão: distorção de um estímulo real (ex: confundir uma sombra com uma pessoa). Diferente de alucinação, que não tem estímulo.
- Psicose: condição em que a pessoa perde o contato com a realidade, incluindo alucinações e delírios.
- Síndrome de Charles Bonnet: alucinações visuais complexas em pessoas com perda visual grave, sem comprometimento cognitivo.
- Abstinência alcoólica: conjunto de sintomas que ocorrem após parar de beber, podendo incluir alucinose auditiva e delirium tremens.
- Alucinose orgânica: causada por lesão cerebral direta (ex: tumor, AVC, Parkinson).
Perguntas Frequentes sobre O que é O que é Alucinose
1. Alucinose é o mesmo que esquizofrenia?
Não. A alucinose mantém a crítica preservada — o paciente sabe que não é real. Na esquizofrenia, a pessoa acredita piamente na alucinação. A abordagem e o tratamento são completamente diferentes. A esquizofrenia exige tratamento psiquiátrico contínuo; a alucinose, na maioria das vezes, melhora tratando a causa (ex: parar de beber, corrigir visão).
2. Alucinose tem cura?
Depende da causa. Alucinose alcoólica melhora com abstinência e suporte médico. Alucinose por perda visual pode desaparecer com o tempo ou com reabilitação. Já a alucinose associada a demências (como Parkinson) tende a ser crônica, mas pode ser controlada com medicamentos e adaptações ambientais (mais luz, menos estímulos).
3. O que fazer quando um idoso começa a ver pessoas que não existem?
Leve ao clínico geral da UBS. Muitas vezes é a síndrome de Charles Bonnet ou alucinose na doença de Parkinson. Não diga que ele está “ficando louco”. Explique que é um fenômeno comum e tratável. Em casa, mantenha o ambiente bem iluminado, evite cantos escuros e converse com calma. Nunca medique por conta própria — alguns remédios pioram o quadro.
4. Alucinose pode ser causada por remédios?
Sim. Medicamentos como corticosteroides (prednisona), anticolinérgicos (usados para incontinência ou Parkinson) e agonistas dopaminérgicos podem desencadear alucinose. Sempre leve a lista de todos os remédios que o paciente usa para o médico. O SUS disponibiliza a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) para orientar substituições seguras.
5. Qual a diferença entre alucinose e delirium?
Delirium é uma emergência médica: a pessoa fica confusa, desorientada, com atenção flutuante, agitação ou apatia. As alucinações no delirium são acompanhadas de confusão. Já na alucinose, a pessoa está lúcida e sabe que não é real. Se houver confusão, procure pronto-socorro imediatamente — principalmente em idosos.
6. Crianças podem ter alucinose?
Sim, embora seja menos comum. Crianças com deficiência visual ou auditiva, ou que passaram por trauma craniano, podem apresentar alucinose. Na infância, é importante descartar epilepsia e enxaqueca com aura. O pediatra da UBS pode fazer a primeira avaliação e encaminhar para neuropediatria, se necessário. O diagnóstico precoce evita tratamentos desnecessários com antipsicóticos.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


