O que é O que é Alzheimer?
Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta principalmente a memória, o pensamento e o comportamento. Ela é a causa mais comum de demência em idosos, correspondendo a cerca de 60 a 70% dos casos. No Brasil, estima-se que aproximadamente 1,2 milhão de pessoas vivam com a doença, número que tende a crescer com o envelhecimento da população – segundo dados do Ministério da Saúde e da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). A maioria dos pacientes tem mais de 65 anos, mas existem casos de início precoce, antes dos 60 anos.
Na prática de uma clínica popular ou no dia a dia do SUS, o Alzheimer se apresenta de forma silenciosa no começo. Muitas vezes, o paciente é levado ao consultório por um familiar que percebe “esquecimentos” que vão além do normal – como perder a conta do troco, repetir a mesma pergunta várias vezes ou se perder em ruas conhecidas. Como clínico geral com 15 anos de atendimento, vejo que o principal desafio é o diagnóstico precoce, pois muitos ainda confundem os sintomas com “coisas da idade”. O SUS oferece acompanhamento multidisciplinar (neurologistas, geriatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais) nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além de medicamentos fornecidos pela rede pública (como donepezila, rivastigmina e memantina) mediante protocolo clínico.
É fundamental entender que o Alzheimer não é uma parte normal do envelhecimento, mas sim uma doença que exige cuidado contínuo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regula os medicamentos específicos, e o Conselho Federal de Medicina (CFM) orienta os profissionais sobre protocolos de diagnóstico e tratamento. Para as famílias de baixa renda, o acesso ao diagnóstico ainda é um gargalo, mas o SUS tem ampliado a oferta de serviços de referência, como os Centros de Especialidades e as UPAs com serviço de neurologia.
Como funciona / Características
O Alzheimer é causado por um acúmulo anormal de proteínas beta-amiloide e tau no cérebro, formando placas e emaranhados que danificam e matam os neurônios. Esse processo começa anos antes dos primeiros sintomas. As regiões mais afetadas inicialmente são o hipocampo (responsável pela memória recente) e o córtex entorrinal. Por isso, o primeiro sinal clínico é a perda de memória para fatos recentes, enquanto as lembranças antigas ficam preservadas por mais tempo.
No cotidiano de uma clínica popular, identifico três fases principais que ajudam a orientar as famílias:
- Fase leve: o paciente esquece nomes, perde objetos, tem dificuldade para planejar tarefas e pode apresentar pequenas mudanças de humor. Ainda consegue viver com certa independência, mas precisa de lembretes.
- Fase moderada: a desorientação se torna mais evidente – a pessoa se perde dentro de casa, confunde parentes, tem dificuldade para se vestir ou realizar atividades básicas. Podem surgir agitação, agressividade ou desconfiança (delírios).
- Fase grave: o paciente perde a capacidade de falar, engolir e controlar esfíncteres. Necessita de cuidados integrais, geralmente em casa ou em instituições de longa permanência.
Exemplos práticos que costumo relatar aos familiares: “Seu Joaquim, de 74 anos, veio à consulta repetindo três vezes a mesma história em 15 minutos. Ele também não lembrou que tinha almoçado 30 minutos antes. A esposa disse que ele se perdeu ao ir à padaria da esquina, lugar que frequenta há 20 anos.” Esse padrão é típico do Alzheimer e difere do esquecimento benigno do envelhecimento, que não atrapalha a vida cotidiana.
Tipos e Classificações
No Brasil, o Alzheimer é classificado principalmente por dois critérios:
- Por idade de início:
- Alzheimer de início precoce (antes dos 65 anos) – mais raro (cerca de 5% dos casos), com progressão geralmente mais rápida e forte componente genético.
- Alzheimer de início tardio (após 65 anos) – a forma mais comum, multifatorial (genética, estilo de vida, fatores vasculares).
- Por estadiamento clínico – usado no SUS e na rede privada:
- CDR (Clinical Dementia Rating): classifica de 0 (sem demência) a 3 (grave).
- Escala FAST (Functional Assessment Staging): 7 estágios que detalham a perda funcional.
- Mini Exame do Estado Mental (MEEM): aplicado nas UBS como triagem; pontuação abaixo de 24 sugere déficit cognitivo (ajustado por escolaridade).
O Ministério da Saúde adota a Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID-10) para o Alzheimer: G30.0 (doença de Alzheimer de início precoce) e G30.1 (doença de Alzheimer de início tardio). Na prática, o diagnóstico é clínico, apoiado por exames de imagem (tomografia, ressonância) e avaliação neuropsicológica. O SUS disponibiliza esses exames nas centrais de regulação, embora haja filas em muitas regiões.
Quando procurar um médico
Os sinais de alerta que devem levar o paciente ou a família a buscar avaliação médica incluem:
- Esquecimento frequente que atrapalha o trabalho, as finanças ou a rotina (ex.: não pagar contas, perder compromissos importantes).
- Dificuldade para realizar tarefas antes simples (cozinhar, usar o celular, dirigir).
- Desorientação em lugares familiares (perder-se no próprio bairro).
- Problemas para falar ou escrever (dificuldade em encontrar palavras, repetir frases).
- Mudanças de personalidade: depressão, apatia, agressividade, desconfiança ou alucinações.
- Perda de iniciativa e isolamento social.
Orientação ao paciente leigo: “Se você ou um familiar notar que esses sintomas estão surgindo e piorando ao longo de meses, não deixe para depois. Marque uma consulta com o clínico geral no posto de saúde. Ele fará uma avaliação inicial, aplicará testes cognitivos simples e, se necessário, encaminhará para um neurologista ou geriatra. Quanto mais cedo o diagnóstico, melhores são as chances de retardar a progressão com medicamentos e terapias não farmacológicas.”
No SUS, o primeiro passo é agendar na Unidade Básica de Saúde (UBS). Se houver dificuldade de acesso, as Clínicas Populares (como a Clínica Popular Fortaleza) oferecem consultas a preços acessíveis e podem ajudar a identificar os sinais precoces.
Termos Relacionados
- Demência: síndrome caracterizada pela perda de funções cognitivas (memória, linguagem, raciocínio) que interfere na vida diária. Alzheimer é a principal causa de demência.
- Comprometimento Cognitivo Leve (CCL): estágio intermediário entre o envelhecimento normal e o Alzheimer. A pessoa tem queixas de memória, mas ainda mantém autonomia. Cerca de 10-15% dos casos evoluem para demência ao ano.
- Placas amiloides: acúmulos de proteína beta-amiloide entre os neurônios, uma marca registrada do Alzheimer.
- Emaranhados neurofibrilares: filamentos da proteína tau dentro dos neurônios, que prejudicam o transporte celular e levam à morte neuronal.
- Donepezila, Rivastigmina, Memantina: medicamentos aprovados pela ANVISA para tratar sintomas do Alzheimer (inibem a degradação de acetilcolina ou modulam o glutamato). São fornecidos pelo SUS via Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.
- Cuidador familiar: pessoa que assiste o paciente no dia a dia. Cuidadores precisam de suporte psicológico e orientação, pois o risco de sobrecarga (burnout) é alto. O SUS oferece grupos de apoio e orientação em CAPS e UBS.
- Teste do relógio: teste rápido desenhado à mão, usado na triagem para avaliar funções visuo-espaciais e executivas, comum nas consultas de clínica geral.
- APH (Atendimento Pré-Hospitalar): em casos de agitação psicomotora ou crises, o SAMU (192) pode ser acionado. O paciente com Alzheimer tem direito a atendimento prioritário nas UPAs.
Perguntas Frequentes sobre O que é O que é Alzheimer
O Alzheimer tem cura?
Não, até o momento não existe cura para o Alzheimer. Os tratamentos disponíveis (medicamentos e terapias) visam desacelerar a progressão dos sintomas, melhorar a qualidade de vida e auxiliar no controle de comportamentos difíceis. Muitas pesquisas estão em andamento, inclusive com novas drogas que atacam as placas amiloides, mas ainda não há aprovação generalizada no Brasil. O mais importante é o diagnóstico precoce e o suporte contínuo.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é essencialmente clínico. O médico faz uma entrevista detalhada com o paciente e um familiar, aplica testes cognitivos (como MEEM e teste do relógio) e, se necessário, solicita exames de imagem (tomografia ou ressonância do crânio) para descartar outras causas (tumores, infartos, hidrocefalia). Exames de sangue podem ajudar a excluir deficiências vitamínicas ou distúrbios da tireoide. Não existe um exame de sangue único para Alzheimer, mas biomarcadores no líquor (punção lombar) são usados em centros especializados.
O SUS fornece medicamentos para Alzheimer?
Sim. O Sistema Único de Saúde oferece os medicamentos donepezila, rivastigmina e memantina por meio do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF). O paciente precisa ter diagnóstico confirmado por neurologista ou geriatra, e a prescrição deve ser feita em formulário específico. A dispensação ocorre nas farmácias de alto custo dos estados ou nos centros de referência. Em muitas regiões, há filas e burocracia, mas o direito está garantido pela Portaria nº 1.306/2013 do Ministério da Saúde.
O Alzheimer é hereditário?
Na maioria dos casos de início tardio (após 65 anos), o risco é influenciado por múltiplos genes (como o gene APOE-ε4), mas não há herança direta. Já o Alzheimer de início precoce tem forte componente genético: mutações nos genes APP, PSEN1 e PSEN2 são transmitidas de forma autossômica dominante. Isso significa que filhos de uma pessoa com a forma precoce têm 50% de chance de herdar a mutação e desenvolver a doença. O aconselhamento genético é recomendado nesses casos.
Quanto tempo vive uma pessoa com Alzheimer?
A sobrevida varia muito, mas em média é de 8 a 10 anos após o diagnóstico, podendo chegar a 20 anos em alguns casos. A progressão depende da idade, de doenças associadas (como diabetes, hipertensão) e da qualidade do cuidado. As fases mais avançadas aumentam o risco de complicações como pneumonias por aspiração e infecções urinárias, que são as principais causas de óbito. Com suporte adequado, muitos pacientes levam uma vida digna por anos.
Como cuidar de um paciente com Alzheimer em casa?
Algumas dicas práticas: mantenha uma rotina fixa (horários para comer, dormir, banho); simplifique o ambiente (evite muitos objetos, use etiquetas nos armários); estimule atividades seguras como caminhadas curtas e música; ofereça refeições em pequenas porções e alimentos fáceis de mastigar; use linguagem simples e frases curtas; nunca discuta ou corrija o paciente – valide os sentimentos dele. O familiar cuidador deve buscar apoio


