O que é Arterite de células gigantes?
A Arterite de células gigantes — também conhecida como arterite temporal ou doença de Horton — é uma inflamação que atinge principalmente as artérias de médio e grande calibre, especialmente os ramos da artéria carótida externa, como a artéria temporal. Imagine que as paredes desses vasos sanguíneos ficam inchadas, com acúmulo de células inflamatórias (entre elas as chamadas células gigantes, que dão nome à doença). Essa inflamação pode reduzir ou bloquear o fluxo de sangue para regiões importantes, como o couro cabeludo, a mandíbula, os olhos e até o cérebro.
Na minha experiência de 15 anos em clínicas populares e no SUS do Nordeste, essa condição costuma aparecer em pacientes acima dos 50 anos, mais frequentemente em mulheres. O cenário clássico: uma senhora de 68 anos chega ao consultório com queixa de dor de cabeça intensa e persistente, sensibilidade no couro cabeludo (dói até pentear o cabelo) e cansaço inexplicado. Às vezes, relata que “a comida fica presa” ao mastigar — sinal de claudicação mandibular. Infelizmente, muitos pacientes demoram a buscar ajuda, confundindo os sintomas com enxaqueca ou dores reumáticas comuns da idade.
No Brasil, não há dados epidemiológicos nacionais precisos, pois a doença é subdiagnosticada, mas estudos regionais sugerem incidência menor do que em países escandinavos (lá chega a 20 casos por 100 mil habitantes acima de 50 anos). No entanto, com o envelhecimento da população brasileira, a demanda por diagnóstico e tratamento tem crescido. O Ministério da Saúde reconhece a Arterite de células gigantes como uma urgência reumatológica, principalmente pelo risco de perda irreversível da visão. O SUS oferece acesso a exames como a biópsia de artéria temporal e medicamentos corticoides em unidades de referência, mas a fila para atendimento especializado pode ser longa nas regiões mais carentes.
Como funciona / Características
A Arterite de células gigantes é uma doença inflamatória autoimune. O sistema imunológico ataca as paredes das artérias, especialmente a camada média (túnica média), formando granulomas com células gigantes. Esse processo estreita o vaso, reduz o fluxo sanguíneo e pode levar à formação de trombos (coágulos). As artérias mais afetadas são as temporais, occipitais, oftálmicas e, em alguns casos, a aorta.
No dia a dia da clínica popular, os sinais mais comuns que alertam para a doença são:
- Dor de cabeça nova ou diferente – geralmente unilateral, localizada na têmpora, persistente e que piora à noite.
- Hipersensibilidade do couro cabeludo – o paciente sente dor ao tocar a região ou ao usar chapéu.
- Claudicação mandibular – dor ao mastigar, que melhora ao parar de comer. É um sintoma quase específico da arterite temporal.
- Alterações visuais – visão turva, diplopia (visão dupla) ou perda súbita da visão, que pode ser definitiva se não tratada rapidamente.
- Sintomas sistêmicos – febre baixa, perda de peso, cansaço, dores musculares (polimialgia reumática associada).
No exame físico, podemos palpar a artéria temporal: ela fica endurecida, tortuosa e dolorosa. Às vezes há nódulos palpáveis. A velocidade de hemossedimentação (VHS) e a proteína C reativa (PCR) estão quase sempre muito elevadas. O diagnóstico definitivo é feito pela biópsia da artéria temporal, que mostra inflamação com células gigantes.
Tipos e Classificações
A Arterite de células gigantes é classificada dentro das vasculites de grandes vasos. No Brasil, os reumatologistas seguem os critérios do American College of Rheumatology (ACR) de 1990, que incluem:
- Idade maior ou igual a 50 anos;
- Dor de cabeça localizada e de início recente;
- Hipersensibilidade ou diminuição do pulso da artéria temporal;
- VHS maior ou igual a 50 mm/h (velocidade de hemossedimentação);
- Biópsia com achados típicos.
Embora não existam subtipos formais, a doença pode se apresentar de duas formas principais:
- Arterite temporal isolada – predominam os sintomas cranianos (cefaleia, claudicação mandibular, alterações visuais).
- Arterite de grandes vasos – quando a aorta e seus ramos são mais afetados, podendo causar aneurisma, dissecção aórtica ou síndrome do arco aórtico (diferença de pressão entre os braços).
Além disso, cerca de 40 a 60% dos pacientes apresentam polimialgia reumática associada, uma condição que causa dor e rigidez nos ombros, pescoço e quadris. A classificação ajuda a orientar o tratamento e o acompanhamento, especialmente em serviços do SUS, onde o exame de imagem (angiotomografia) pode ser necessário para avaliar a aorta.
Quando procurar um médico
Você deve procurar atendimento médico com urgência se apresentar os seguintes sinais de alerta, especialmente se tiver mais de 50 anos:
- Dor de cabeça persistente e diferente do habitual, principalmente na região das têmporas.
- Piora ao tocar o couro cabeludo ou ao mastigar.
- Qualquer alteração visual súbita, como visão embaçada, manchas ou perda da visão.
- Febre sem causa aparente, perda de peso e cansaço intenso.
- Sensação de formigamento, fraqueza ou dor na mandíbula ao falar ou comer.
Nas clínicas populares, orientamos que o paciente não espere. Uma perda visual por Arterite de células gigantes pode ser irreversível em 24 a 48 horas. O tratamento com corticoides em altas doses deve ser iniciado imediatamente, muitas vezes antes mesmo do resultado da biópsia. Se você suspeitar, vá ao pronto-socorro ou a uma UPA. No SUS, o médico de família ou clínico geral pode iniciar o tratamento e encaminhar com urgência para o reumatologista ou oftalmologista.
Termos Relacionados
- Vasculite – Inflamação dos vasos sanguíneos. A arterite de células gigantes é um tipo de vasculite que afeta artérias de médio e grande calibre.
- Polimialgia reumática – Doença inflamatória que causa dor e rigidez nos ombros, pescoço e quadris. Muitas vezes está associada à arterite de células gigantes.
- Biópsia de artéria temporal – Exame padrão-ouro para diagnóstico, no qual um pequeno fragmento da artéria é retirado e analisado ao microscópio.
- Velocidade de hemossedimentação (VHS) – Exame de sangue que mede inflamação; quase sempre está muito elevado na arterite de células gigantes.
- Proteína C reativa (PCR) – Outro marcador de inflamação, também alto na doença.
- Corticoides – Medicamentos anti-inflamatórios potentes, como a prednisona, usados como primeira linha de tratamento.
- Aneurisma de aorta – Dilatação anormal da aorta que pode ocorrer em pacientes com arterite de grandes vasos não tratada adequadamente.
- Reumatologista – Médico especialista em doenças inflamatórias e autoimunes, responsável pelo acompanhamento de longo prazo da arterite de células gigantes.
Perguntas Frequentes sobre Arterite de células gigantes
O que causa a arterite de células gigantes?
A causa exata não é totalmente conhecida, mas acredita-se que seja uma doença autoimune, na qual o sistema de defesa do corpo ataca as próprias artérias. Fatores genéticos (como o HLA-DR4) e ambientais (infecções virais ou bacterianas prévias) podem desencadear o processo. Não é transmitida de pessoa para pessoa.
Essa doença tem cura?
A Arterite de células gigantes não tem cura definitiva, mas tem tratamento. Com o uso adequado de corticoides, a inflamação é controlada, os sintomas desaparecem e o risco de complicações (como cegueira) cai drasticamente. Em geral, o tratamento dura de 1 a 2 anos, podendo ser mais prolongado em alguns casos. Muitos pacientes conseguem reduzir a medicação gradualmente e ficar assintomáticos.
Como é o tratamento pelo SUS?
O tratamento padrão é a prednisona (corticoide oral) em doses altas no início, reduzidas lentamente. O SUS disponibiliza esse medicamento gratuitamente na rede básica. Para casos refratários, podem ser usados imunossupressores como metotrexato. O acompanhamento é feito por reumatologista, com consultas periódicas e exames de sangue para controlar a inflamação e os efeitos colaterais da medicação. A página do Ministério da Saúde sobre vasculites orienta sobre os protocolos de tratamento.
Qual a diferença entre arterite de células gigantes e polimialgia reumática?
A polimialgia reumática causa dor e rigidez nos ombros, pescoço e quadris, mas não ataca diretamente as artérias. Já a Arterite de células gigantes inflama as artérias e pode levar a complicações graves como perda da visão. As duas condições podem ocorrer juntas em até metade dos pacientes. O tratamento para ambas é feito com corticoides, mas a arterite exige doses mais altas e acompanhamento mais rigoroso.
Posso perder a visão para sempre se não tratar?
Sim. A perda visual na arterite de células gigantes ocorre por isquemia do nervo óptico (falta de sangue). Se o tratamento com corticoides não for iniciado rapidamente, a lesão pode ser irreversível em 24 a 48 horas. Por isso, qualquer sintoma visual súbito em um idoso com cefaleia deve ser tratado como emergência. Felizmente, com o tratamento precoce, a maioria dos pacientes mantém a visão.
Preciso fazer biópsia? Dói muito?
A biópsia de artéria temporal é o exame que confirma o diagnóstico, mas nem sempre é obrigatória se os sintomas e exames de sangue forem típicos. O procedimento é feito com anestesia local, dura cerca de 30 minutos e deixa um pequeno corte na região da têmpora. A maioria dos pacientes relata apenas desconforto leve. O SUS realiza a biópsia em hospitais de médio e grande porte, mas a disponibilidade varia conforme a região. O Conselho Federal de Medicina (CFM) orienta que o diagnóstico seja o mais rápido possível para evitar danos visuais.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


