O que é Aterosclerose cerebral?
Aterosclerose cerebral é uma condição em que as artérias que levam sangue para o cérebro vão ficando estreitas e endurecidas por causa do acúmulo de placas de gordura, colesterol e outras substâncias. Esse processo acontece lentamente ao longo dos anos e pode passar despercebido até que um evento mais grave aconteça, como um acidente vascular cerebral (AVC). Na minha prática no SUS e em clínicas populares, vejo muitos pacientes que só descobrem a aterosclerose cerebral depois de sofrerem um derrame ou de sentirem tonturas e lapsos de memória persistentes.
No Brasil, o AVC é a principal causa de morte e incapacidade em adultos, segundo dados do Ministério da Saúde. Estima-se que cerca de 100 mil pessoas morrem por ano vítimas de AVC no país, e a aterosclerose cerebral é uma das causas mais frequentes, especialmente em pacientes com hipertensão arterial, diabetes e colesterol alto. Na rotina da clínica popular, atendo muitos homens acima dos 50 anos e mulheres na pós-menopausa que já apresentam esses fatores de risco e não fazem acompanhamento regular.
A boa notícia é que a aterosclerose cerebral pode ser prevenida e tratada com mudanças de estilo de vida e medicamentos disponíveis pelo SUS, como anti-hipertensivos, estatinas e antiagregantes plaquetários (como o AAS). O diagnóstico precoce, muitas vezes feito por Doppler de carótidas durante um check-up, permite iniciar o tratamento antes que ocorram danos irreversíveis. A ANVISA regula a qualidade dos exames de imagem e dos medicamentos, garantindo que mesmo nas unidades básicas de saúde haja acesso a terapias eficazes.
Como funciona / Características
Imagine que as artérias do cérebro são canos por onde o sangue passa para levar oxigênio e nutrientes. Na aterosclerose cerebral, esses canos vão ficando entupidos por dentro com uma placa formada por gordura, cálcio e restos celulares. É como aquela crosta que se forma em um cano de cozinha quando a gordura se acumula. Com o tempo, a placa endurece e reduz o diâmetro da artéria, diminuindo o fluxo de sangue.
No dia a dia do consultório, explico aos pacientes que esse estreitamento pode causar dois problemas principais: primeiro, a placa pode se romper e formar um coágulo que bloqueia completamente a artéria — é o AVC isquêmico, o mais comum; segundo, a artéria pode ficar tão estreita que o cérebro não recebe sangue suficiente, levando a sintomas como tontura, dificuldade para falar ou fraqueza em um lado do corpo que some depois de alguns minutos (chamamos de ataque isquêmico transitório, ou AIT). Muitos pacientes que atendia na clínica popular relatavam que sentiam “formigamento que passa” e não davam importância, mas esse era o alerta.
As artérias mais afetadas são as carótidas, localizadas no pescoço, e as artérias intracranianas. O exame mais simples para avaliar isso nas unidades do SUS é o ultrassom Doppler de carótidas, que não dói e mostra se há placas e o grau de obstrução. Na minha experiência, é um exame indispensável para pacientes hipertensos ou diabéticos acima dos 50 anos, principalmente se fumam ou têm histórico de AVC na família.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, não usamos uma classificação complexa para a aterosclerose cerebral em si, mas sim a localização e a gravidade do estreitamento. Os tipos mais relevantes são:
- Aterosclerose de grandes artérias extracranianas — que afeta as carótidas e as artérias vertebrais no pescoço. É a forma mais comum e a que mais causa AVC.
- Aterosclerose de pequenas artérias intracranianas — atinge os pequenos vasos dentro do cérebro, relacionada principalmente à hipertensão crônica não controlada. Pode causar os chamados AVCs lacunares, que são pequenos derrames que muitas vezes não são percebidos, mas que se acumulam e levam à demência vascular.
- Doença aterosclerótica difusa — quando há placas em várias artérias ao mesmo tempo, comumente associada a diabetes e colesterol muito alto.
No SUS, usamos a classificação de estenose (estreitamento) em percentuais: até 50% é considerada leve, entre 50% e 70% moderada, e acima de 70% grave. Essa classificação orienta a conduta: para estenoses graves, muitas vezes indicamos cirurgia de endarterectomia de carótida (limpeza da placa) ou colocação de stent, procedimentos disponíveis em hospitais públicos de referência. O CFM e as sociedades brasileiras de neurologia e cirurgia vascular definem protocolos claros para isso.
Quando procurar um médico
O grande desafio da aterosclerose cerebral é que ela inicialmente não dá sintomas. Por isso, é fundamental que pessoas com fatores de risco façam check-ups regulares. Procure um clínico geral ou um neurologista se você tem:
- Pressão alta (hipertensão arterial)
- Diabetes tipo 2
- Colesterol LDL elevado (acima de 130 mg/dL, ou conforme meta individual)
- Tabagismo ou histórico de tabagismo
- Obesidade (principalmente gordura abdominal)
- Histórico familiar de AVC ou doença cardíaca precoce (antes dos 60 anos)
Sinais de alerta que exigem avaliação imediata (suspeita de AVC ou AIT):
- Fraqueza ou dormência de um lado do corpo (rosto, braço ou perna)
- Dificuldade para falar ou entender o que os outros dizem
- Perda súbita de visão em um olho (como uma “cortina” descendo)
- Tontura intensa com desequilíbrio, sem causa aparente
- Dor de cabeça súbita e muito forte, sem motivo
Mesmo que esses sintomas desapareçam em minutos, não ignore! Pode ser um AIT, que é um alerta de que um AVC maior está por vir. Nas clínicas populares, sempre oriento: “se você sentir qualquer alteração repentina na fala, força ou visão, vá imediatamente a uma UPA ou hospital, mesmo que melhore.”
Para a prevenção, o SUS oferece consultas com clínicos gerais, enfermeiros e médicos de família nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Lá são solicitados exames simples como lipidograma (perfil de colesterol), glicemia e aferição de pressão. Se houver suspeita, o médico encaminha para o Doppler de carótidas e, se necessário, para serviços de neurologia.
Termos Relacionados
- AVC isquêmico — tipo de derrame causado pelo bloqueio de uma artéria cerebral por um coágulo ou placa aterosclerótica. É a consequência mais grave da aterosclerose cerebral.
- Ataque isquêmico transitório (AIT) — sintomas de AVC que duram menos de 24 horas e desaparecem, mas indicam alto risco de AVC futura.
- Placa aterosclerótica — depósito de gordura, cálcio e células inflamatórias na parede da artéria. É a lesão da aterosclerose.
- Colesterol LDL — o “colesterol ruim”, principal componente das placas. O controle do LDL é essencial na prevenção.
- Hipertensão arterial — pressão alta, que acelera o dano nas artérias e é o principal fator de risco para aterosclerose cerebral no Brasil.
- Diabetes mellitus tipo 2 — doença que aumenta a formação de placas e inflamação nas artérias, agravando a aterosclerose.
- Estenose carotídea — estreitamento da artéria carótida provocado pela aterosclerose, medida em percentuais e tratada com cirurgia ou stent.
- Doppler de carótidas — exame de ultrassom que avalia o fluxo sanguíneo e a presença de placas nas artérias do pescoço, disponível no SUS.
Perguntas Frequentes sobre Aterosclerose cerebral
A aterosclerose cerebral tem cura?
Não se pode reverter totalmente as placas já formadas, mas é possível estabilizá-las e até reduzir um pouco o volume com tratamento adequado. O principal é evitar que as placas cresçam e se rompam, prevenindo o AVC. Com mudanças de hábitos (alimentação saudável, atividade física, parar de fumar) e medicamentos (como estatinas e anti-hipertensivos), a maioria das pessoas consegue viver bem e sem complicações.
Como prevenir a aterosclerose cerebral?
A prevenção começa cedo e é muito eficaz. Mantenha a pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg, o colesterol LDL controlado (abaixo de 100 mg/dL para quem tem risco alto), a glicemia normal e o peso saudável. Faça exames de sangue ao menos uma vez por ano, principalmente após os 40 anos. Não fume e evite consumo excessivo de álcool. O SUS oferece


