O que é O que é Aterosclerose periférica?
Na minha rotina de 15 anos atendendo no SUS e em clínicas populares aqui no Brasil, vejo com frequência pacientes que chegam com queixas de “cansaço nas pernas” ou “dor na panturrilha quando ando um quarteirão”. Muitas vezes essas pessoas acham que é coisa da idade, artrose ou falta de condicionamento físico. Mas, em boa parte dos casos, o que está por trás desse sintoma é a aterosclerose periférica — também chamada de doença arterial periférica (DAP). Essa é uma condição em que as artérias que levam sangue para as pernas e braços vão ficando obstruídas por placas de gordura, colesterol, cálcio e outras substâncias, um processo que chamamos de aterosclerose.
Embora muita gente associe aterosclerose apenas ao coração (infarto) ou ao cérebro (AVC), a aterosclerose periférica afeta principalmente os membros inferiores. No Brasil, estima-se que cerca de 10% a 15% das pessoas com mais de 60 anos tenham algum grau da doença, e a prevalência é ainda maior em quem tem diabetes, hipertensão, colesterol alto ou hábito de fumar. Dados do Ministério da Saúde indicam que a DAP é subdiagnosticada, pois muitos pacientes não relatam os sintomas ou os associam ao envelhecimento normal. Na atenção básica do SUS, o teste mais simples para suspeitar da doença é a palpação dos pulsos do pé e a medição do índice tornozelo-braquial (ITB), um exame barato e não invasivo que deveria ser feito com mais frequência, mas ainda é pouco utilizado em clínicas populares pela falta de capacitação ou de equipamento.
O impacto na vida do paciente é grande: além da dor ao caminhar (chamada de claudicação intermitente), a doença pode evoluir para feridas que não cicatrizam, infecções e, em casos graves, amputação. Por isso, reconhecer e tratar a aterosclerose periférica desde cedo é fundamental. Não se trata apenas de “problema de circulação” — é um marcador de risco cardiovascular geral, indicando que outras artérias (do coração, do cérebro, dos rins) também podem estar comprometidas.
Como funciona / Características
Para entender como a aterosclerose periférica age no corpo, imagine uma artéria saudável como um cano novo e liso, por onde o sangue passa sem dificuldade. Nas pessoas que desenvolvem a doença, esse cano vai acumulando placas — como se fosse entupindo com gordura e calcário — até que o fluxo sanguíneo fica reduzido. Os músculos das pernas, que precisam de muito oxigênio durante o exercício, começam a “reclamar” com dor, cãibra, queimação ou sensação de aperto. O sintoma clássico é a dor na panturrilha, coxa ou nádega que aparece depois de caminhar uma certa distância e melhora após parar por alguns minutos. É o que chamamos de claudicação intermitente.
Com o passar do tempo, se a obstrução piora, a dor pode vir até em repouso, principalmente à noite, quando a pessoa está deitada e o sangue precisa vencer a gravidade. Nessa fase, já estamos falando de isquemia crítica, um quadro de risco que exige avaliação urgente com um cirurgião vascular. Outros sinais que aparecem na minha prática clínica: a perna afetada fica mais fria que a outra, a pele fica brilhante e sem pelos, as unhas engrossam e podem ficar escurecidas, e o pé pode ficar pálido ou arroxeado quando elevado.
Na clínica popular, muitos pacientes só procuram ajuda quando aparecem feridas nos dedos ou no calcanhar que não cicatrizam semanas, ou quando o pé fica com uma coloração azulada ou preta — sinal de necrose. Nesses casos, o tratamento é mais agressivo e pode envolver angioplastia (desentupimento com balão e stent) ou cirurgia de revascularização. A prevenção ainda é o melhor caminho: controle do diabetes, da pressão, do colesterol, prática regular de exercícios (caminhada supervisionada é um tratamento comprovado!), parar de fumar e manter o peso adequado.
Tipos e Classificações
A aterosclerose periférica é classificada clinicamente de acordo com a gravidade dos sintomas e o nível de comprometimento arterial. A classificação mais usada no Brasil, tanto no SUS quanto em clínicas particulares, é a classificação de Fontaine, adotada pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Ela divide a doença em quatro estágios:
- Estágio I (assintomático): a pessoa tem placas nas artérias, mas não sente dor nem limitação. Muitas vezes é descoberto em exames de rotina.
- Estágio II (claudicação intermitente): a dor aparece ao caminhar uma distância variável (IIa: > 200 metros sem dor; IIb: < 200 metros). Esse é o estágio mais comum nos consultórios.
- Estágio III (dor em repouso): a pessoa sente dor mesmo parada, principalmente à noite. Indica obstrução mais severa.
- Estágio IV (lesão trófica): há feridas, úlceras ou gangrena. É a fase mais avançada e com maior risco de amputação.
Outra classificação utilizada é a classificação de Rutherford, mais detalhada e comum em hospitais de referência. Ela tem seis categorias e é especialmente útil para definir o tratamento cirúrgico ou endovascular. Ambas ajudam o médico a decidir se o paciente precisa apenas de mudanças de estilo de vida e medicação, ou se já é necessário intervenção.
Quando procurar um médico
Sinais de alerta que não devem ser ignorados:
- Dor nas pernas que aparece ao caminhar distâncias curtas (um quarteirão ou menos) e melhora com o repouso;
- Dor ou queimação nos pés ou dedos quando está deitado, que melhora ao colocar a perna para fora da cama ou ficar sentado;
- Feridas nos pés ou pernas que demoram mais de duas semanas para cicatrizar;
- Pé ou perna que fica visivelmente mais frio que o outro, com coloração pálida, arroxeada ou escura;
- Formigamento, dormência ou fraqueza persistente em uma perna;
- Perda de pelos nas pernas, unhas grossas e pele brilhante sem causa aparente.
Se você tem mais de 50 anos, é fumante ou ex-fumante, diabético, hipertenso ou tem histórico de colesterol alto, é importante fazer uma avaliação vascular mesmo sem sintomas. No SUS, você pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima e solicitar a medição do índice tornozelo-braquial. O médico da família pode iniciar o acompanhamento e, se necessário, encaminhar ao angiologista ou cirurgião vascular. Não espere sentir dor forte ou aparecer feridas — quanto antes o tratamento começar, maior a chance de controlar a doença sem procedimentos invasivos.
Termos Relacionados
- Claudicação intermitente: dor muscular nas pernas que ocorre durante o exercício e melhora com o repouso. É o sintoma mais comum da aterosclerose periférica.
- Índice tornozelo-braquial (ITB): exame simples que compara a pressão arterial no tornozelo com a do braço. Valores menores que 0,90 indicam obstrução nas artérias das pernas.
- Isquemia crítica: forma grave da doença, com dor em repouso e/ou lesões tróficas. Requer tratamento urgente para evitar amputação.
- Angioplastia periférica: procedimento minimamente invasivo para desobstruir a artéria usando um balão e, muitas vezes, um stent (pequena tela metálica).
- Revascularização cirúrgica (bypass): cirurgia em que se cria um “desvio” usando um vaso saudável para contornar a obstrução.
- Doença arterial periférica (DAP): termo mais abrangente que inclui a aterosclerose periférica e outras causas de obstrução arterial.
- Aterosclerose: processo inflamatório crônico que leva ao acúmulo de placas de gordura e calcificação nas artérias de todo o corpo.
- Pé diabético: complicação do diabetes que, associada à aterosclerose periférica, aumenta muito o risco de úlceras e amputações.
Perguntas Frequentes sobre O que é Aterosclerose periférica
1. A aterosclerose periférica tem cura?
Não se fala em “cura” definitiva, porque a aterosclerose é uma doença crônica e progressiva. Mas com tratamento adequado — mudanças no estilo de vida, controle dos fatores de risco e, em alguns casos, medicações como antiagregantes plaquetários e estatinas — é possível interromper a progressão, aliviar os sintomas e evitar complicações como feridas e amputação. Muitos pacientes conseguem voltar a caminhar sem dor. O controle rigoroso do diabetes, da pressão e do colesterol é a chave.
2. Quais exames são feitos para diagnosticar?
O exame inicial é o índice tornozelo-braquial (ITB), que pode ser feito em postos de saúde. Se der alterado, o médico pode solicitar um ultrassom Doppler vascular, que mostra o fluxo sanguíneo e o local da obstrução. Em casos mais complexos, podem ser pedidos angiotomografia ou arteriografia, mas esses são feitos em hospitais de referência. No SUS, o acesso ao Doppler é razoável, mas pode ter filas dependendo da região.
3. Posso fazer caminhada se tenho dor na perna?
Sim, e é uma das melhores terapias para a doença! A caminhada supervisionada — andar até sentir dor moderada, parar e descansar, e depois continuar — estimula a formação de novos vasos (circulação colateral) e melhora os sintomas com o tempo. O ideal é fazer pelo menos 30 minutos, 3 a 5 vezes por semana, sempre com orientação médica. Evite caminhar até a dor extrema ou se houver feridas.
4. A aterosclerose periférica pode causar infarto ou AVC?
Sim, porque a aterosclerose é uma doença sistêmica: se as artérias das pernas estão comprometidas, é muito provável que as artérias do coração e do cérebro também tenham placas. Quem tem DAP tem um risco três a seis vezes maior de infarto e AVC. Por isso, o diagnóstico da aterosclerose periférica é um alerta importante para cuidar da saúde cardiovascular como um todo.
5. Qual a diferença entre aterosclerose periférica e varizes?
São problemas diferentes. A aterosclerose periférica é uma doença das artérias (vasos que levam sangue do coração para as pernas), causando falta de circulação. Varizes são veias dilatadas e tortuosas (vasos que trazem o sangue de volta ao coração) e estão relacionadas a problemas de retorno venoso. Enquanto a DAP provoca dor ao caminhar, as varizes podem causar inchaço, sensação de peso e coceira. Uma pessoa pode ter as duas condições ao mesmo tempo.
6. Como prevenir a aterosclerose periférica?
As medidas são as mesmas para evitar doenças cardiovasculares: não fumar; controlar a pressão arterial, o diabetes e o colesterol; manter o peso saudável; praticar atividade física regular (pelo menos 150 minutos por semana); ter uma alimentação equilibrada, com pouca gordura saturada e sal; e fazer exames de rotina. Para quem já tem fatores de risco, o acompanhamento com o médico da família ou clínico geral no SUS pode detectar a doença precocemente e evitar complicações.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


