sexta-feira, junho 12, 2026

O que é O que é Avc lacunar

O que é AVC lacunar?

O AVC lacunar é um tipo específico de Acidente Vascular Cerebral (derrame) que ocorre quando uma artéria muito pequena e profunda do cérebro fica obstruída, geralmente por um coágulo ou pelo espessamento da parede do vaso. Diferente do AVC clássico, que afeta áreas maiores do cérebro, o lacunar atinge uma região minúscula, formando uma “lacuna” (um pequeno buraco ou cavidade) no tecido cerebral após a lesão. Na minha experiência de 15 anos no SUS e em clínicas populares brasileiras, esse é um dos tipos de AVC mais comuns que atendo, principalmente em pacientes acima de 50 anos com hipertensão arterial e diabetes mal controlados. Ele responde por cerca de 20% a 25% de todos os AVCs isquêmicos no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde.

No dia a dia da clínica popular, chamamos a atenção para o fato de que o AVC lacunar muitas vezes passa despercebido ou é confundido com cansaço, ansiedade ou “dormência passageira”. O paciente chega dizendo: “Doutor, tive uma sensação estranha no braço direito, mas passou em 20 minutos.” Esse quadro, conhecido como Ataque Isquêmico Transitório (AIT) quando os sintomas duram menos de 24 horas, pode ser o primeiro sinal de um AVC lacunar iminente. Por isso, mesmo os sintomas mais leves merecem atenção médica imediata. No Brasil, a prevalência de fatores de risco como hipertensão (atinge cerca de 30% da população adulta) e diabetes (cerca de 8%) torna os lacunares um problema de saúde pública relevante, exigindo ações preventivas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e pronto-atendimentos.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a ANVISA reforçam a importância do diagnóstico precoce e do tratamento com antiagregantes plaquetários (como AAS) e controle rigoroso da pressão. O SUS oferece, gratuitamente, medicamentos e acompanhamento multiprofissional para prevenir novos eventos. Mas o mais importante é o reconhecimento dos sintomas pela população. Por isso, neste verbete, vou explicar de forma simples e direta tudo o que você precisa saber sobre o AVC lacunar.

Como funciona / Características

O AVC lacunar é causado pela oclusão de uma artéria perfurante cerebral, aquelas pequenas arteríolas que irrigam estruturas profundas como os núcleos da base, a cápsula interna, o tálamo e a ponte. O mecanismo mais comum é a microangiopatia – ou seja, a degeneração das paredes das pequenas artérias devido à hipertensão crônica, diabetes ou colesterol alto. Com o tempo, essas artérias ficam espessadas e endurecidas, formando placas de gordura ou coágulos microscópicos que interrompem o fluxo sanguíneo. Como o vaso é muito fino, a área infartada tem geralmente menos de 1,5 cm de diâmetro – daí o nome “lacuna” (pequena cavidade).

Na prática clínica, uma das características marcantes é que os sintomas são altamente variáveis e dependem da localização exata da lesão. Por exemplo, um paciente pode apresentar apenas fraqueza leve em um dos braços ou perda de sensibilidade em um lado do corpo. Outro pode ter dificuldade para falar (afasia) ou andar como se estivesse bêbado (ataxia). Há ainda aqueles que sentem tontura, visão dupla ou dormência no rosto. Como a área afetada é pequena, as sequelas costumam ser menos graves que as de um AVC hemorrágico ou de grande artéria, mas não devem ser menosprezadas: um único AVC lacunar pode causar incapacidade permanente se não tratado, e a repetição de múltiplos lacunares pode levar à demência vascular.

Um exemplo comum no consultório: dona Maria, 65 anos, hipertensa, chega relatando que “o braço esquerdo ficou mole por uns minutos” enquanto cozinhava. Ela ignorou, achou que foi “nervoso”. Três dias depois, teve uma sequência de episódios e, ao procurar a UBS, constatamos no exame neurológico leve assimetria de força. A ressonância mostrou um lacunar na cápsula interna direita. Com medicação adequada (AAS e controle da pressão) e fisioterapia, ela se recuperou bem, mas alerto que o atraso no diagnóstico aumenta o risco de novos eventos.

Tipos e Classificações

O AVC lacunar é, na verdade, uma subcategoria dos AVCs isquêmicos (aqueles causados por obstrução, e não por sangramento). No Brasil, a classificação mais usada na prática clínica é a Classificação de Oxfordshire (também conhecida como classificação de Bamford), que divide os AVCs isquêmicos em quatro síndromes clínicas. O lacunar se enquadra na Síndrome Lacunar (LACS), caracterizada por sintomas puramente motores, puramente sensoriais, ou sensório-motores, sem alterações corticais (como afasia ou negligência). Mas existem outras formas de classificar:

  • Classificação TOAST (Trial of Org 10172 in Acute Stroke Treatment): divide por etiologia. O lacunar é um subtipo (doença de pequenas artérias), diferenciando-se de cardiombolia, aterosclerose de grandes artérias, etc.
  • Classificação anatômica: baseada na localização – núcleos da base, tálamo, cápsula interna, ponte. Cada localização gera um conjunto específico de sintomas.
  • Classificação por tempo de sintomas: AIT lacunar (sintomas <24h) x AVC lacunar estabelecido (>24h).

No contexto do SUS, usamos protocolos do CFM e do Ministério da Saúde que padronizam o diagnóstico por neuroimagem (tomografia ou, preferencialmente, ressonância magnética). A ressonância é mais sensível para detectar lacunas recentes. O conhecimento dos tipos ajuda a equipe a decidir a conduta: por exemplo, em lacunares, o uso de trombolíticos (medicamentos para dissolver coágulos) é controverso, pois a lesão é pequena e o risco de sangramento pode não compensar. A base do tratamento é sempre o controle rigoroso dos fatores de risco.

Quando procurar um médico

Todo episódio de sintomas neurológicos súbitos, mesmo que passageiros, deve levar à busca imediata de atendimento médico. Para o AVC lacunar, a rapidez é fundamental porque ele pode ser um sinal de que outros eventos maiores estão a caminho. Os sinais de alerta são os mesmos do AVC em geral, resumidos na sigla SAMU (Solicite ajuda, Apele para a força do braço, Mude a fala, Urgência) ou na adaptação brasileira FAST (Face, Arm, Speech, Time). Vou detalhar:

  • Face torta: Peça para a pessoa sorrir – se um lado do rosto não se mover, é sinal de alerta.
  • Braço fraco: Peça para levantar os braços – se um deles cair, pode ser fraqueza.
  • Dificuldade na fala: Peça para repetir uma frase simples – se a pessoa falar enrolado ou não conseguir, procure ajuda.
  • Dormência isolada: Sensação de formigamento ou adormecimento em um lado do corpo, sem causa aparente.
  • Tontura ou perda de equilíbrio: Especialmente se associada a outros sintomas.
  • Dor de cabeça intensa e súbita: Embora menos comum no lacunar, pode ocorrer.

Na minha experiência, muitos pacientes ignoram sintomas leves achando que “vai passar”. Um conselho que sempre dou: mesmo que os sintomas desapareçam em minutos, procure uma UBS, clínica popular ou pronto-socorro. O AIT lacunar é um forte preditor de AVC nos próximos dias ou semanas. O SUS tem a Linha de Cuidado do AVC, com unidades de AVC em hospitais de referência. Ligue 192 (SAMU) se os sintomas forem repentinos e incapacitantes. Não espere.

Termos Relacionados

  • AVC isquêmico: Tipo mais comum de derrame, causado pela obstrução de uma artéria cerebral. O lacunar é um subtipo.
  • Hipertensão arterial sistêmica (pressão alta): Principal fator de risco para AVC lacunar. O controle da pressão é a medida preventiva mais eficaz.
  • Diabetes mellitus: Glicemia elevada danifica pequenos vasos (microangiopatia), aumentando o risco de lacunares.
  • Microangiopatia cerebral: Doença das pequenas artérias do cérebro, responsável pela maioria dos AVCs lacunares.
  • Ataque Isquêmico Transitório (AIT): Episódio breve de sintomas neurológicos (como fraqueza ou dormência) que dura menos de 24 horas, sem deixar sequelas. Pode ser o prenúncio de um AVC lacunar.
  • Ressonância magnética (RM): Exame de imagem mais sensível para detectar lacunas (infartos pequenos).
  • Antiagregante plaquetário (ex: AAS, clopidogrel): Medicamento usado para prevenir novos AVCs lacunares, inibindo a formação de coágulos.
  • Demência vascular: Perda progressiva da função cognitiva causada por múltiplos AVCs lacunares ou lesões isquêmicas difusas.

Perguntas Frequentes sobre AVC lacunar

O AVC lacunar é mais grave que o AVC comum?

Não necessariamente. Por ser pequeno, o AVC lacunar costuma causar sequelas menos extensas e tem menor mortalidade imediata. Porém, ele não deve ser