O que é O que é O que é Avc recorrente?
O termo AVC recorrente se refere a um novo episódio de Acidente Vascular Cerebral (popularmente conhecido como derrame) que ocorre em uma pessoa que já teve um AVC anterior. Na minha experiência de 15 anos no SUS e em clínicas populares, vejo muitos pacientes que, infelizmente, subestimam os riscos após o primeiro evento. Eles melhoram, voltam ao trabalho, param de tomar a medicação e, meses ou anos depois, chegam ao pronto-socorro com sequelas ainda mais graves. Esse é o retrato do AVC recorrente.
No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, o AVC é a segunda maior causa de morte e a principal causa de incapacidade entre adultos. Estima-se que, a cada ano, ocorram cerca de 200 mil novos casos. Destes, aproximadamente 25% (um em cada quatro) terão um AVC recorrente em até cinco anos. As taxas de recorrência são maiores nos primeiros 30 dias após o primeiro evento (recorrência precoce) e nos primeiros 12 meses. Por isso, a prevenção secundária – o conjunto de medidas para evitar um novo AVC – é uma prioridade no SUS, com diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde e protocolos clínicos adotados em toda a rede.
Na prática da clínica popular, lido com pacientes que muitas vezes abandonam o tratamento por falta de informação ou por dificuldade de acesso aos medicamentos. A boa notícia é que, com acompanhamento adequado, a redução do risco de AVC recorrente pode chegar a 80%. Por isso, é fundamental que a população entenda que um “derrame” não é um evento isolado: ele é um sinal de alerta de que seu corpo precisa de cuidados contínuos.
Como funciona / Características
O AVC recorrente pode acontecer por dois mecanismos principais: o mesmo que causou o primeiro AVC (como uma placa de gordura na carótida que continua crescendo) ou por um novo fator de risco mal controlado (como a hipertensão arterial não tratada). Imagine uma pessoa que teve um AVC isquêmico pequeno, que afetou apenas o braço direito. Após a alta, ela parou de tomar o AAS e a estatina porque “se sentia bem”. Seis meses depois, ela chega ao consultório com o lado esquerdo do corpo paralisado e dificuldade para falar. Esse é um exemplo comum de AVC recorrente – muitas vezes mais grave que o primeiro, pois lesiona áreas cerebrais que já estavam comprometidas.
Caracteristicamente, o AVC recorrente pode ser dividido em dois períodos: a recorrência precoce (até 30 dias do evento inicial) e a tardia (após 30 dias). A precoce está muito relacionada a causas como embolia cardíaca (por fibrilação atrial) ou doença aterosclerótica instável. Já a tardia está mais associada ao acúmulo de fatores de risco ao longo do tempo, como tabagismo, diabetes descompensada e sedentarismo.
Na rotina do SUS, usamos o escore de risco de recorrência (como o Escore de Essen) para identificar pacientes de alto risco. Pacientes com AVC recorrente têm maior probabilidade de sequelas permanentes e maior mortalidade. Por isso, todo paciente que já teve um AVC deve ser tratado como de alto risco para um novo evento e seguir rigorosamente as orientações médicas.
Tipos e Classificações
O AVC recorrente pode ser classificado de acordo com o tipo do primeiro AVC e do novo evento. As duas grandes categorias – AVC isquêmico (causado por obstrução de uma artéria) e AVC hemorrágico (causado por rompimento de um vaso) – podem se repetir. É possível que um paciente tenha um primeiro AVC isquêmico e o recorrente também isquêmico, ou que mude de tipo (por exemplo, isquêmico seguido de hemorrágico, especialmente se fizer uso inadequado de anticoagulantes).
Na prática clínica, usamos a classificação TOAST (Trial of Org 10172 in Acute Stroke Treatment) para determinar a causa do AVC isquêmico e orientar a prevenção. As principais categorias são:
- Aterosclerótico de grandes artérias: placas nas carótidas ou vertebrais. A recorrência é alta se não houver revascularização (cirurgia ou stent) e controle dos fatores de risco.
- Cardioembólico: causado por coágulos que vêm do coração, especialmente na fibrilação atrial. O AVC recorrente é comum se o paciente não tomar anticoagulante corretamente.
- Lacunar: pequenos infartos profundos ligados à hipertensão. A recorrência é frequente se a pressão arterial não for controlada.
- Outras causas determinadas: como dissecação arterial, vasculites ou trombofilias.
- Criptogênico: sem causa definida. Nesses casos, o risco de recorrência é menor, mas ainda existe.
No Brasil, o SUS disponibiliza exames como ultrassom de carótidas, ecocardiograma e angiografia cerebral para investigar a causa e ajustar o tratamento. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do AVC do Ministério da Saúde padroniza o uso de antiagregantes (AAS, clopidogrel) e anticoagulantes (varfarina, rivaroxabana) na prevenção secundária.
Quando procurar um médico
Qualquer pessoa que já teve um AVC e apresentar sintomas neurológicos novos deve procurar imediatamente um serviço de urgência. Não espere os sintomas passarem sozinhos. No Brasil, a campanha “AVC: cada minuto conta” ensina a regra SAMU (Sorriso, Abraço, Música, Urgência):
- Sorriso: o rosto está torto? Peça para a pessoa sorrir.
- Abraço: um dos braços está caído? Peça para levantar ambos.
- Música: a fala está enrolada ou confusa? Peça para repetir uma frase simples.
- Urgência: se houver qualquer alteração, ligue 192 (SAMU) ou vá para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou hospital com emergência.
Além disso, mesmo sem sintomas agudos, todo paciente com AVC prévio deve ter acompanhamento regular com clínico geral ou neurologista na Atenção Básica (posto de saúde) para ajustar a medicação, controlar pressão, glicemia e colesterol, e receber orientações sobre atividade física e alimentação. Se você ou um familiar teve um AVC, não falte às consultas de retorno – a prevenção é a única forma de evitar o AVC recorrente.
Termos Relacionados
- AVC isquêmico: tipo mais comum de derrame, causado pela obstrução de uma artéria por um coágulo ou placa de gordura. Corresponde a cerca de 85% dos casos no Brasil.
- AVC hemorrágico: menos frequente, mas mais letal, ocorre quando um vaso sanguíneo se rompe. O AVC recorrente hemorrágico é mais comum em pacientes com pressão alta descontrolada ou uso de anticoagulantes.
- Ataque isquêmico transitório (AIT): um “mini-AVC” onde os sintomas duram menos de 24 horas. É um sinal de alerta importante: cerca de 10% dos pacientes com AIT terão um AVC completo nos próximos 90 dias.
- Prevenção secundária: conjunto de medidas para evitar um novo evento depois do primeiro. Inclui medicamentos, controle de pressão, diabetes, colesterol, cessação do tabagismo e prática de exercícios.
- Antiagregante plaquetário:


