Estima-se que, no Brasil, a peritonite secundária (causada por apendicite, perfuração de úlcera ou diverticulite) corresponda a cerca de 80% dos casos de abdome agudo cirúrgico, e a mortalidade pode chegar a 30% quando o tratamento é iniciado após 48 horas do início dos sintomas (dados de 2025).
Você já sentiu uma dor abdominal tão forte que não conseguia se mexer, e cada movimento piorava o desconforto? Essa sensação pode ser um sinal de irritação peritoneal – uma condição que, se não tratada rapidamente, pode levar à peritonite. Entender os sinais de alerta faz toda a diferença entre uma recuperação simples e uma complicação grave. Neste artigo, você vai aprender o que é peritonite, quais as causas, os sintomas e quando procurar o hospital.
- O que é: Inflamação do peritônio, membrana que reveste a cavidade abdominal.
- Quando ocorre: Geralmente após infecção, perfuração de órgão abdominal ou cirurgia.
- Quem trata: Cirurgião geral, gastroenterologista ou clínico geral (em emergência).
- Urgência: Alta – necessita avaliação hospitalar imediata.
- Tratamento: Antibióticos intravenosos e, na maioria dos casos, cirurgia para corrigir a causa.
João, 28 anos, começou com uma dor leve na região do umbigo, que depois migrou para o lado direito, acompanhada de febre e náusea. Achou que era uma “gastrite” e tomou analgésicos. No dia seguinte, a dor se espalhou por toda a barriga, ficou insuportável ao tossir ou andar, e ele não conseguia esticar as pernas. A esposa o levou ao pronto-socorro. O exame clínico mostrou rigidez abdominal e defesa voluntária. A tomografia confirmou apendicite aguda com perfuração e peritonite localizada. João foi operado em menos de 2 horas, recebeu antibióticos e teve alta após 5 dias. O atraso de 24 horas quase custou a vida dele.
O que é peritonite? Causas, sintomas e como se manifesta
A peritonite é a inflamação do peritônio, uma fina membrana que reveste a parede interna do abdômen e cobre os órgãos abdominais. Essa inflamação geralmente é causada por infecção bacteriana ou fúngica, mas também pode ser estéril (como na pancreatite). O peritônio reage agressivamente a qualquer agressão, produzindo líquido inflamatório, pus e aderências. Os sintomas clássicos incluem dor abdominal intensa e contínua, que piora com qualquer movimento — inclusive respirar fundo ou tossir —, febre alta, calafrios, taquicardia, náuseas e vômitos. A barriga fica rígida (“abdômen em tábua”), e o paciente geralmente evita qualquer palpação. A peritonite é uma emergência médica; sem tratamento, o quadro pode progredir para sepse (infecção generalizada) e falência de múltiplos órgãos.
Causas mais comuns da irritação peritoneal
A irritação peritoneal (ou peritonite) pode ter várias origens. As mais frequentes são:
- Apendicite aguda: quando o apêndice inflama e perfura, libera bactérias na cavidade abdominal.
- Úlcera péptica perfurada: uma ferida no estômago ou duodeno que “vaza” conteúdo ácido.
- Diverticulite: inflamação dos divertículos do cólon, que podem perfurar.
- Doença inflamatória pélvica (DIP): infecção que sobe do útero ou trompas, comum em mulheres.
- Infecções pós-operatórias: após cirurgias abdominais, se houver contaminação ou deiscência de sutura.
- Colecistite gangrenosa/perfurada: vesícula biliar inflamada que rompe.
- Pancreatite aguda: inflamação do pâncreas que pode irritar o peritônio por enzimas digestivas.
Independentemente da causa, o resultado é o mesmo: a cavidade abdominal fica “irritada” por agentes químicos ou infecciosos, levando a uma resposta inflamatória violenta.
Causas graves que exigem atenção imediata
Algumas causas de peritonite são particularmente perigosas e exigem intervenção cirúrgica de urgência. Entre elas estão:
- Perfuração de víscera oca (intestino, estômago, bexiga): o extravasamento de fezes, urina ou ácido gástrico provoca peritonite química e bacteriana fulminante.
- Isquemia mesentérica: falta de sangue em parte do intestino, causando necrose e perfuração.
- Obstrução intestinal estrangulada: alça intestinal presa em hérnia ou aderência, que sofre necrose.
- Peritonite terciária: ocorre em pacientes imunocomprometidos ou após cirurgias extensas, geralmente por germes multirresistentes.
- Rotura de abscesso intra-abdominal: um foco de pus que se espalha subitamente.
Nesses casos, a evolução para sepse é rápida. A mortalidade pode ultrapassar 40% se a cirurgia não for realizada nas primeiras 6 a 12 horas. Por isso, qualquer dor abdominal forte acompanhada de sinais de irritação peritoneal (rigidez, dor à descompressão, febre) merece avaliação médica imediata.
Sinais de alerta: quando a dor vira emergência
Nem toda dor abdominal é emergência, mas alguns sinais são bandeiras vermelhas. Fique atento se a dor:
- É forte, contínua e piora com movimento, tosse ou ao respirar fundo.
- Vem acompanhada de febre alta (acima de 38,5°C) e calafrios.
- Dificulta ou impede esticar as pernas (posição antálgica).
- Se espalha por todo o abdômen (antes localizada).
- Vem com náuseas, vômitos, boca seca e sensação de desmaio.
- O abdômen fica rígido como uma tábua.
- Surge após cirurgia abdominal recente ou trauma.
Se você tiver qualquer combinação desses sintomas, não espere: vá ao pronto-socorro. Um exame clínico simples, como a palpação abdominal, já pode levantar a suspeita de peritonite e salvar tempo no tratamento.
Como o médico faz o diagnóstico
O diagnóstico da peritonite começa com a história clínica e o exame físico. O médico irá palpar seu abdômen para avaliar dor, rigidez e o chamado “sinal de Blumberg” (dor à descompressão brusca). Se houver suspeita, os exames seguintes ajudam a confirmar e identificar a causa:
- Hemograma completo: leucocitose (aumento de glóbulos brancos) sugere infecção.
- Proteína C reativa (PCR) e procalcitonina: marcadores de inflamação e infecção bacteriana.
- Radiografia de abdômen (em pé e deitado): pode mostrar ar livre sob o diafragma (sinal de perfuração).
- Ultrassonografia abdominal: útil para avaliar vesícula, apêndice, líquido livre.
- Tomografia computadorizada com contraste: padrão-ouro para identificar a fonte da peritonite (apendicite, diverticulite, abscesso).
- Laparoscopia diagnóstica: em casos duvidosos, um pequeno tubo com câmera é inserido no abdômen para inspeção direta.
O diagnóstico precoce é crucial: quanto mais cedo se inicia o tratamento, melhores as chances de recuperação sem sequelas.
Tratamentos disponíveis para peritonite
O tratamento da peritonite é sempre uma emergência e geralmente combina cirurgia e antibióticos. As abordagens incluem:
- Antibioticoterapia intravenosa: iniciada imediatamente com cobertura para bactérias gram-negativas e anaeróbios (ex.: ceftriaxona + metronidazol).
- Cirurgia para controle da fonte: apendicectomia, sutura de úlcera perfurada, ressecção intestinal, drenagem de abscesso, etc. Pode ser feita por laparoscopia ou por incisão aberta (laparotomia).
- Lavagem peritoneal: durante a cirurgia, a cavidade é limpa com soro fisiológico morno para remover pus e detritos.
- Suporte intensivo: hidratação, correção de distúrbios eletrolíticos, analgésicos, suporte ventilatório e drogas vasoativas se houver sepse.
- Drenagem percutânea (em casos selecionados): pequenos abscessos podem ser drenados por radiologia intervencionista, sem cirurgia aberta.
O pós-operatório exige internação hospitalar de 5 a 10 dias, com monitorização contínua. O uso de antibióticos por 7 a 14 dias é comum. A falha no tratamento ou retardo pode levar à peritonite recorrente, aderências e formação de abscessos.
Cuidados em casa e alívio dos sintomas
Após receber alta hospitalar, o paciente deve seguir algumas recomendações para evitar complicações e promover a recuperação:
- Repouso relativo: evitar esforços físicos e carregar peso por 4 a 6 semanas.
- Alimentação leve: iniciar com líquidos, evoluindo para pastosos e sólidos conforme tolerância. Evitar frituras, laticínios e alimentos gordurosos.
- Uso correto dos medicamentos: cumprir o esquema antibiótico e analgésico prescrito pelo médico.
- Observar sinais de infecção: febre, dor que volta, vermelhidão ou secreção na ferida cirúrgica – comunicar imediatamente.
- Hidratação: beber bastante água para evitar constipação e ajudar a eliminar toxinas.
- Retorno gradual às atividades: só retornar ao trabalho ou escola após liberação médica.
É fundamental não automedicar nem usar anti-inflamatórios por conta própria, pois podem mascarar sintomas de piora. O acompanhamento com o cirurgião é essencial nas primeiras semanas.
Quando ir ao pronto-socorro
Você deve ir ao pronto-socorro imediatamente se apresentar qualquer um dos seguintes sinais, que podem indicar peritonite ou complicação pós-operatória:
- Dor abdominal que piora rapidamente, não melhora com repouso ou analgésicos comuns.
- Barriga dura e dolorida ao toque leve.
- Febre alta (acima de 38,5°C) associada a calafrios ou tremores.
- Vômitos frequentes que impedem ingerir líquidos.
- Inchaço abdominal progressivo.
- Dificuldade para urinar ou eliminar gases/fezes.
- Queda de pressão, tontura, desmaio ou confusão mental.
- Ferida cirúrgica com vermelhidão, pus ou abertura dos pontos.
Não espere “ver se melhora”. Peritonite é uma condição tempo-dependente: cada hora perdida aumenta o risco de sepse e óbito. Leve um familiar ou chame uma ambulância se não puder dirigir.
Como prevenir a peritonite
A prevenção da peritonite está diretamente ligada ao tratamento precoce de condições que podem evoluir para perfuração ou infecção abdominal. Algumas medidas incluem:
- Não ignore dores abdominais persistentes: busque atendimento se a dor não melhorar em 6 horas ou piorar.
- Trate apendicite e diverticulite a tempo: o diagnóstico precoce evita a perfuração.
- Medique corretamente úlceras pépticas: o uso de protetores gástricos e o controle de H. pylori reduzem o risco de perfuração.
- Evite traumatismos abdominais: use cinto de segurança, evite quedas e acidentes.
- Cuidados pós-operatórios rigorosos: siga as orientações de higiene, retorno e medicação após cirurgias abdominais.
- Mantenha vacinação em dia: algumas infecções (como a peritonite bacteriana espontânea em cirróticos) podem ser prevenidas com vacinas (pneumococo, influenza).
- Controle doenças crônicas: diabetes, cirrose e imunossupressão aumentam o risco de peritonite.
Infecções urinárias e pélvicas também devem ser tratadas adequadamente para evitar ascensão de germes à cavidade peritoneal.
Diferença entre peritonite e condições semelhantes
A peritonite muitas vezes se confunde com outras condições abdominais. Veja as principais diferenças:
- Gastrite/úlcera não perfurada: a dor é em queimação, localizada na boca do estômago, melhora com alimentos ou antiácidos; não há rigidez abdominal nem febre alta.
- Pancreatite aguda: dor intensa que irradia para as costas, alivia com flexão do tronco; não necessariamente há defesa abdominal; amilase/lipase elevadas.
- Cólica intestinal (virose): dor em cólica, com períodos de alívio, acompanhada de diarreia e náusea; abdômen não fica rígido.
- Obstrução intestinal: dor em cólica, distensão abdominal, parada de eliminação de gases e fezes; mas a rigidez só aparece se houver complicação.
- Doença inflamatória pélvica (DIP): dor no baixo ventre, corrimento vaginal, febre; pode ter dor à palpação profunda, mas sem defesa generalizada.
- Pneumonia de base pulmonar: pode causar dor abdominal referida, mas associada a tosse, dor torácica e alterações na ausculta.
A grande chave é a rigidez abdominal e a dor à descompressão (sinal de Blumberg). Se você pressiona a barriga e sente dor quando solta bruscamente, isso é fortemente sugestivo de irritação peritoneal.
- 01. Aprenda o “teste do tosse”: se tossir ou espirrar piorar muito a dor abdominal, suspeite de irritação peritoneal.
- 02. Não use compressas quentes ou frias na barriga se houver suspeita de peritonite – isso pode esconder sinais.
- 03. Tenha sempre um contato de emergência: em caso de dor forte, vá ao hospital em vez de esperar a “dor passar”.
- 04. Evite tomar antibióticos por conta própria, pois podem mascarar os sintomas e atrasar o diagnóstico.
- 05. Após cirurgia abdominal, anote a temperatura corporal diariamente; qualquer febre deve ser comunicada ao cirurgião.
- 06. Manter um peso saudável e controlar glicemia reduz riscos de infecções pós-operatórias.
- 07. Em viagens, saiba onde fica o hospital mais próximo – a rapidez no atendimento é determinante.
Perguntas Frequentes sobre o que é peritonite causas sintomas tratamento
Peritonite tem cura?
Sim, desde que diagnosticada e tratada precocemente. A combinação de cirurgia (se necessária) e antibióticos adequados leva à cura na maioria dos casos. O prognóstico piora quando há atraso no tratamento, presença de comorbidades ou germes multirresistentes.
O que causa peritonite? Quais as principais causas?
As causas mais comuns são apendicite perfurada, úlcera gástrica ou duodenal perfurada, diverticulite, infecções ginecológicas, pancreatite, complicações de cirurgias abdominais e, em pacientes com cirrose, a peritonite bacteriana espontânea.
Quanto tempo leva para se recuperar de uma peritonite?
A recuperação varia de 2 a 6 semanas. Pacientes com peritonite leve/tratada precocemente podem receber alta em 5–7 dias. Casos graves, com sepse e múltiplas cirurgias, podem exigir internação prolongada e meses de reabilitação.
Peritonite é contagiosa?
Não, a peritonite não é contagiosa. É uma inflamação/infecção interna, geralmente causada por bactérias que já estavam no sistema digestivo (flora endógena) ou por contaminação externa (cirurgias, trauma).
Preciso de cirurgia para toda peritonite?
Na grande maioria dos casos, sim. A cirurgia é necessária para remover a fonte da infecção (ex.: apêndice inflamado, suturar uma perfuração, drenar pus). Em casos muito selecionados, como peritonite bacteriana espontânea do cirrótico, o tratamento pode ser apenas clínico com antibióticos, mas isso é exceção.
O que é peritonite bacteriana espontânea?
É uma infecção do líquido ascítico que ocorre em pacientes com cirrose e ascite, sem uma causa cirúrgica aparente. Ocorre por migração de bactérias intestinais. O tratamento é com antibióticos intravenosos, e não com cirurgia.
Quais são os exames para diagnosticar peritonite?
Os principais são: hemograma, PCR, radiografia de abdômen (em pé), tomografia computadorizada e, em alguns casos, laparoscopia diagnóstica. A análise do líquido peritoneal (paracentese) é usada na peritonite bacteriana espontânea.
Como saber se a peritonite está voltando após o tratamento?
Fique atento a dor abdominal que retorna, febre, calafrios, distensão, falta de apetite e mal-estar. Qualquer suspeita exige nova avaliação médica urgente. Pode ser necessário reexame de imagem ou nova cirurgia.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clinica Popular Fortaleza, com base em evidencias científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 25/06/2026
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica profissional. Sempre consulte um médico ou profissional de saúde habilitado para diagnóstico e tratamento.
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