Em 2026, a Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1 em cada 3 crianças menores de 5 anos em regiões tropicais apresenta deficiência subclínica de vitamina D, aumentando o risco de raquitismo mesmo em países ensolarados como o Brasil.
Você já notou seu filho com pernas arqueadas, cansaço fácil ou dor nos ossos sem motivo aparente? Esses sinais podem passar despercebidos, mas são bandeiras vermelhas para uma condição antiga e ainda atual: o raquitismo. Neste artigo completo, vamos explicar o que é raquitismo, suas causas, sintomas e os tratamentos mais eficazes, com linguagem simples e base científica.
- O que é: Doença que enfraquece os ossos em crescimento, causada por deficiência de vitamina D, cálcio ou fósforo.
- Quando ocorre: Principalmente na infância, durante o rápido desenvolvimento ósseo.
- Quem trata: Pediatra, ortopedista, endocrinologista ou clínico geral.
- Urgência: Moderada – o diagnóstico precoce evita deformidades permanentes.
- Tratamento: Reposição de vitamina D, cálcio e fósforo, com acompanhamento médico.
Maria, 2 anos, foi levada pela mãe ao pediatra porque andava com as pernas tortas (genu varo) e reclamava de dor ao tocar as pernas. A mãe notou que a menina evitava brincar e estava sempre irritada. O médico solicitou exames de sangue, que mostraram baixíssimos níveis de vitamina D (12 ng/mL) e cálcio baixo. O raio-X revelou alargamento das metáfises femorais. Diagnosticada com raquitismo carencial, Maria iniciou suplementação oral de vitamina D (2.000 UI/dia) e cálcio. Em 3 meses, os sintomas melhoraram e as pernas começaram a se alinhar naturalmente.
O que é raquitismo e como se manifesta
Raquitismo é uma doença metabólica óssea que afeta crianças e adolescentes em fase de crescimento, caracterizada pela mineralização inadequada da matriz óssea. Em termos simples, os ossos não conseguem endurecer como deveriam, ficando moles, frágeis e propensos a deformidades. A principal causa é a deficiência de vitamina D, mas também pode ser provocada por baixa ingestão de cálcio ou fósforo, ou por problemas genéticos que afetam o metabolismo desses nutrientes.
Os primeiros sintomas costumam ser sutis: irritabilidade, atraso no desenvolvimento motor, fraqueza muscular e dor óssea difusa. Conforme a doença avança, surgem sinais clássicos como alargamento dos punhos e tornozelos, rosário raquítico (nódulos nas costelas), pernas arqueadas (“pernas em parênteses”) e, em casos graves, deformidades na coluna e crânio (craniotabes).
É importante entender que o raquitismo não é contagioso nem hereditário na forma mais comum, mas alguns tipos raros (como o raquitismo hipofosfatêmico ligado ao X) são genéticos e exigem abordagem especializada. O diagnóstico precoce é fundamental para evitar danos permanentes à estrutura óssea.
Causas mais comuns
A causa mais frequente do raquitismo é a deficiência nutricional de vitamina D. A vitamina D é essencial para absorver cálcio e fósforo no intestino; sem ela, os ossos não recebem os minerais necessários para se fortalecerem. A deficiência pode ocorrer por:
- Exposição solar insuficiente: a principal fonte de vitamina D é a síntese cutânea pela luz UVB. Crianças que vivem em regiões de baixa insolação, usam protetor solar excessivamente ou passam muito tempo em ambientes fechados têm risco aumentado.
- Baixa ingestão alimentar: poucos alimentos contêm vitamina D naturalmente (peixes gordurosos, gema de ovo, fígado). Crianças com dietas restritivas (veganas, sem suplementação) podem desenvolver carência.
- Aleitamento materno exclusivo sem suplementação: o leite materno é pobre em vitamina D; por isso, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda suplementar 400 UI/dia desde o nascimento até os 12 meses.
- Doenças de má absorção: como doença celíaca, fibrose cística, doença inflamatória intestinal ou cirurgias gástricas, que reduzem a absorção de vitamina D e cálcio.
Outra causa comum é a deficiência de cálcio na dieta, especialmente em crianças que não consomem laticínios ou vegetais ricos em cálcio. O fósforo raramente é deficiente, mas pode ocorrer em prematuros ou em uso de antiácidos prolongados.
Causas graves que exigem atenção imediata
Algumas formas de raquitismo são mais raras, mas potencialmente mais graves e requerem diagnóstico e intervenção rápidos. Entre elas destacam-se:
- Raquitismo hipofosfatêmico hereditário: causado por mutações genéticas que levam à perda excessiva de fósforo pelos rins. Os níveis de fósforo no sangue ficam muito baixos, mesmo com vitamina D e cálcio normais. Crianças apresentam deformidades severas, baixa estatura e dor óssea intensa.
- Raquitismo dependente de vitamina D tipo 1 e 2: são defeitos na conversão da vitamina D em sua forma ativa (1,25-di-hidroxivitamina D) ou na resposta dos receptores celulares. Os sintomas surgem precocemente, com hipocalcemia grave, convulsões e deformidades.
- Raquitismo por doença renal crônica: a insuficiência renal prejudica a ativação da vitamina D e a reabsorção de cálcio, levando a osteodistrofia renal.
- Neoplasias (tumores): tumores que produzem substâncias que aumentam a excreção renal de fósforo (raquitismo oncogênico).
Essas condições exigem acompanhamento com especialista (nefrologista, endocrinologista, geneticista) e tratamentos específicos como fosfato oral, calcitriol ou cirurgias corretivas. Qualquer sinal de raquitismo que não melhora com suplementação convencional deve ser investigado.
Como o médico faz o diagnóstico
O diagnóstico do raquitismo começa com uma boa história clínica e exame físico. O médico pergunta sobre alimentação, exposição solar, histórico familiar e sintomas. Durante o exame, procura sinais como alargamento de punhos, rosário raquítico, deformidades nos membros inferiores e craniotabes (crânio amolecido).
Em seguida, são solicitados exames laboratoriais:
- Dosagem de 25-hidroxivitamina D (25(OH)D): é o marcador padrão dos estoques corporais de vitamina D. Valores abaixo de 20 ng/mL indicam deficiência; abaixo de 12 ng/mL, deficiência severa.
- Cálcio, fósforo e fosfatase alcalina (FA): no raquitismo, o cálcio pode estar baixo, o fósforo baixo e a FA elevada (reflete atividade osteoblástica compensatória).
- Exames complementares: em casos suspeitos de raquitismo hereditário, mede-se a 1,25-di-hidroxivitamina D, hormônio paratireoidiano (PTH) e, se necessário, testes genéticos.
Exames de imagem são essenciais. O raio-X de punhos, joelhos e tornozelos mostra alterações típicas: alargamento metafisário (“taça”), irregularidade da placa de crescimento e desmineralização óssea. Em estágios avançados, podem ser vistas deformidades. A densitometria óssea (DEXA) não é usada de rotina, mas pode avaliar a densidade mineral em casos graves.
Tratamentos disponíveis
O tratamento do raquitismo depende da causa subjacente. Na forma mais comum (carencial), a base é a reposição de vitamina D e cálcio:
- Suplementação de vitamina D: geralmente 1.000 a 4.000 UI/dia por via oral, durante 3-6 meses, com ajuste conforme resposta. Em casos de má absorção ou raquitismo resistente, pode-se usar calcitriol (forma ativa).
- Cálcio: recomenda-se 500-1.000 mg/dia de cálcio elementar, especialmente durante a fase de crescimento. Fontes alimentares são preferíveis, mas suplementos (carbonato de cálcio) são usados se necessário.
- Fósforo: quando há hipofosfatemia grave (raquitismo hipofosfatêmico), administra-se fosfato oral em doses fracionadas.
Além da medicação, é fundamental orientar a exposição solar moderada (15-20 minutos/dia, sem protetor, em horários seguros) e uma dieta rica em cálcio (leite, queijo, brócolis, couve, sardinha). Fisioterapia pode ajudar na reabilitação muscular e correção postural. Em casos de deformidades graves que não se corrigem com o crescimento, pode-se indicar cirurgia ortopédica (osteotomias corretivas). O acompanhamento regular com pediatra e, se necessário, endocrinologista, é essencial para monitorar níveis séricos e radiografias até a remissão completa.
Cuidados em casa e alívio dos sintomas
Enquanto o tratamento médico é realizado, algumas medidas caseiras ajudam a aliviar os sintomas e acelerar a recuperação:
- Garanta exposição solar diária: coloque a criança ao sol da manhã (antes das 10h) ou no final da tarde (após as 16h), por 15-20 minutos, com braços e pernas descobertos.
- Ofereça alimentos ricos em cálcio e vitamina D: leite e derivados, salmão, sardinha, gema de ovo, fígado de boi, suco de laranja fortificado. Consulte um nutricionista se necessário.
- Evite atividades que sobrecarreguem os ossos: crianças com dor óssea devem evitar corridas, saltos e esportes de impacto até melhora clínica.
- Use analgésicos com orientação médica: paracetamol ou ibuprofeno podem ser usados para dor, mas sempre sob prescrição e por curto período.
- Mantenha a hidratação e o sono adequados: o repouso é importante para a recuperação óssea e muscular.
Lembre-se: o tratamento caseiro nunca substitui a terapia médica. A suplementação deve ser mantida exatamente como prescrita, e consultas de acompanhamento são obrigatórias.
Quando ir ao pronto-socorro
Embora o raquitismo seja uma doença de evolução crônica, algumas situações requerem atendimento de urgência:
- Convulsões ou espasmos musculares: podem indicar hipocalcemia severa (cálcio muito baixo no sangue), que é uma emergência médica.
- Dor óssea intensa e súbita: pode sinalizar uma fratura patológica (osso quebrado sem trauma importante).
- Dificuldade respiratória ou deformidade torácica grave: o rosário raquítico pode comprometer a expansão pulmonar em casos avançados.
- Letargia, vômitos frequentes ou recusa alimentar: podem estar associados a hipercalcemia (excesso de cálcio) induzida pelo tratamento, necessitando ajuste da medicação.
Se você observar qualquer um desses sinais, leve a criança imediatamente a um pronto-socorro pediátrico.
Como prevenir
A prevenção do raquitismo é simples e extremamente eficaz. As principais medidas são:
- Suplementação de vitamina D para bebês: do nascimento até 12 meses, oferecer 400 UI/dia de vitamina D, conforme recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria. Para prematuros, a dose pode ser maior, sob orientação médica.
- Exposição solar adequada: após os 6 meses, incentivar brincadeiras ao ar livre diariamente, com proteção nos horários de pico, mas permitindo pequenos períodos sem filtro solar.
- Alimentação balanceada: incluir fontes de cálcio (leite, queijo, vegetais verde-escuros) e alimentos fortificados com vitamina D. Verifique rótulos de leites e cereais.
- Acompanhamento pediátrico: consultas regulares permitem avaliar o crescimento e detectar precocemente qualquer deficiência.
- Gestantes e nutrizes: mulheres grávidas e que amamentam devem manter níveis adequados de vitamina D (suplementação de 600-800 UI/dia é comum).
No Brasil, o Programa Nacional de Suplementação de Vitamina D para crianças de 6 a 24 meses está disponível em unidades básicas de saúde. Informe-se no posto de saúde mais próximo.
Diferença entre raquitismo e osteomalacia
Embora ambas sejam doenças de mineralização óssea deficiente causada por falta de vitamina D, existe uma diferença fundamental: o raquitismo ocorre em crianças e adolescentes com ossos ainda em crescimento (placas epifisárias abertas), enquanto a osteomalacia afeta adultos com ossos maduros (placas fechadas).
No raquitismo, as alterações são mais evidentes nas placas de crescimento (metáfises), levando a deformidades características (pernas arqueadas, rosário raquítico). Na osteomalacia, os ossos tornam-se difusamente moles, causando dor óssea generalizada, fraqueza muscular e aumento do risco de fraturas, mas sem deformidades típicas de crescimento. O tratamento em ambos os casos é semelhante: reposição de vitamina D e cálcio, mas na osteomalacia as doses podem ser maiores e o tempo de tratamento mais prolongado.
O diagnóstico diferencial é feito por idade, exames de imagem (raio-X mostra alargamento metafisário no raquitismo; na osteomalacia, há pseudofraturas de Looser) e exames laboratoriais.
- 01. Coloque o bebê no colo ao sol da manhã por 10-15 minutos diários, apenas de fralda, para síntese natural de vitamina D.
- 02. Ofereça alimentos fontes de cálcio pelo menos 3 vezes ao dia: leite, iogurte, queijo, brócolis, couve, sardinha.
- 03. Nunca administre suplementos de vitamina D por conta própria – o excesso pode causar toxicidade (hipercalcemia).
- 04. Observe o desenvolvimento motor do seu filho: atraso para sentar, engatinhar ou andar pode ser um sinal precoce.
- 05. Em dias nublados ou de inverno, aumente o consumo de alimentos fortificados com vitamina D (leites, cereais).
- 06. Leve a criança a todas as consultas de puericultura – o pediatra avalia o crescimento e pode solicitar exames preventivos.
Perguntas Frequentes sobre o que é raquitismo, causas, sintomas, diagnóstico e tratamento
1. Raquitismo tem cura?
Sim, o raquitismo carencial (por deficiência de vitamina D e/ou cálcio) tem cura com reposição adequada e correção dos fatores causais. As deformidades ósseas leves a moderadas geralmente se corrigem sozinhas com o crescimento. Já as formas genéticas ou secundárias a doenças crônicas podem exigir tratamento contínuo, mas com controle adequado é possível ter qualidade de vida.
2. Raquitismo é contagioso?
De forma alguma. O raquitismo é uma doença metabólica, não infecciosa. Não se transmite de pessoa para pessoa. O que pode parecer “contágio” é a ocorrência em várias crianças da mesma família devido a hábitos alimentares ou de exposição solar semelhantes.
3. Bebês que tomam leite materno precisam de suplemento de vitamina D?
Sim. O leite materno contém baixas quantidades de vitamina D. A recomendação oficial é suplementar 400 UI/dia para todos os bebês em aleitamento materno exclusivo, desde o nascimento até 1 ano de idade, independentemente da estação do ano.
4. Quanto tempo leva para o tratamento do raquitismo fazer efeito?
Os sintomas como dor e fraqueza muscular começam a melhorar em 2 a 4 semanas de tratamento. As alterações radiográficas (mineralização óssea) podem ser vistas em 2 a 3 meses. Deformidades ósseas levam meses a anos para se corrigir, dependendo da gravidade e da idade da criança.
5. Existe raquitismo em adultos?
Em adultos, a deficiência de vitamina D causa osteomalacia, não raquitismo. Os sintomas são diferentes: dor óssea difusa, fraqueza muscular proximal e maior risco de fraturas. O tratamento é semelhante, com reposição de vitamina D e cálcio.
6. Crianças de pele escura têm mais risco de raquitismo?
Sim, porque a melanina reduz a produção cutânea de vitamina D. Portanto, crianças de pele mais escura necessitam de maior exposição solar ou suplementação para atingir níveis adequados. Este é um fator de risco importante a ser considerado.
7. O raquitismo pode causar nanismo?
Sim, em casos graves e não tratados, o raquitismo pode comprometer o crescimento linear, resultando em baixa estatura. No entanto, com tratamento precoce, a maioria das crianças atinge uma estatura normal ou próxima do normal.
8. Como é feito o diagnóstico de raquitismo hipofosfatêmico?
Além dos exames de sangue que mostram fósforo baixo, cálcio normal e FA elevada, a confirmação é por testes genéticos (mutação no gene PHEX). O tratamento específico inclui fosfato oral e calcitriol, e o acompanhamento é multidisciplinar.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clinica Popular Fortaleza, com base em evidências científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 25/06/2026
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica profissional. Sempre consulte um médico ou profissional de saúde habilitado para diagnóstico e tratamento.
Referências:
MedlinePlus – Rickets (em inglês)
Biblioteca Virtual em Saúde – Raquitismo
MSD Saúde – Guia de Raquitismo
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