sexta-feira, maio 1, 2026

Varizes Esofágicas: quando o sangramento pode ser uma emergência

Você já ouviu falar em varizes no esôfago? Diferente das varizes nas pernas, que costumam causar dor e inchaço, as varizes esofágicas são uma condição interna e muitas vezes silenciosa. Elas se desenvolvem sem avisar e, quando se manifestam, podem colocar a vida em risco em questão de minutos.

É normal sentir um frio na barriga ao pensar nisso. Afinal, como algo dentro do nosso corpo pode ficar tão perigoso sem dar sinais claros? O que muitos não sabem é que essa condição está quase sempre ligada à saúde do fígado. Se você ou alguém próximo tem diagnóstico de doença hepática, entender sobre varizes esofágicas não é apenas informação, é uma medida de proteção.

⚠️ Atenção: O primeiro sinal de varizes esofágicas pode ser um sangramento maciço e fatal. Vômito com sangue (hematêmese) ou fezes muito escuras e pastosas (melena) são emergências médicas que exigem atendimento hospitalar imediato.

O que são varizes esofágicas — além da definição técnica

Imagine o esôfago como um tubo que leva a comida até o estômago. Em sua parede, existem pequenas veias. Agora, pense em um rio que encontra um grande bloqueio em seu curso. A água precisa encontrar outro caminho, sobrecarregando os pequenos córregos ao redor. É mais ou menos isso que acontece com as varizes esofágicas.

Elas são veias dilatadas e tortuosas que se formam na parte inferior do esôfago. Essa dilatação não é por acaso: é uma “válvula de escape”. Quando há um bloqueio ou aumento de pressão no sistema venoso principal do fígado (a veia porta), o sangue é desviado para essas veias menores, que não foram feitas para suportar tanto volume. Com o tempo, elas se dilatam, ficam frágeis e podem se romper.

Varizes esofágicas são normais ou preocupantes?

Esta é uma pergunta crucial. A formação de varizes esofágicas nunca é considerada normal ou um achado benigno. Elas são sempre um sinal de que há um problema de saúde subjacente, quase sempre relacionado ao fígado.

Portanto, são intrinsecamente preocupantes. Sua presença indica que a doença de base (como a cirrose) já está em um estágio que causou alterações significativas na circulação sanguínea. O grande risco não é apenas tê-las, mas a possibilidade real de que elas sangrem. Uma leitora de 58 anos nos perguntou se as varizes que sua mãe tinha poderiam ser “tratadas com remédio para veia”. Na prática, o foco do tratamento vai muito além das veias em si, visando controlar a pressão que as causou e prevenir a catástrofe do sangramento.

Varizes esofágicas podem indicar algo grave?

Sim, e essa é a parte mais importante deste artigo. As varizes esofágicas são, por si só, um marcador de gravidade. Elas são uma das principais complicações da hipertensão portal, que por sua vez é uma consequência comum de doenças hepáticas avançadas.

O rompimento dessas varizes é uma emergência médica com alta taxa de mortalidade. Segundo dados do INCA, doenças hepáticas crônicas estão entre as principais causas de morte no Brasil, e a hemorragia por varizes esofágicas é uma complicação frequente e temida. Ignorar essa condição significa correr um risco desnecessário com a própria vida.

Causas mais comuns: o fígado no centro do problema

Para entender as varizes esofágicas, é preciso olhar para o fígado. Em mais de 90% dos casos, a causa raiz está ali.

Doenças hepáticas crônicas (Cirrose)

A cirrose, que é a cicatrização avançada do fígado, é a causa número um. Seja por alcoolismo crônico, hepatites virais (B ou C), esteatose hepática grave (fígado gorduroso) ou doenças autoimunes, o resultado final é o mesmo: o tecido cicatricial dificulta a passagem do sangue pelo fígado, aumentando a pressão na veia porta.

Outras causas de hipertensão portal

Menos comumente, o bloqueio pode estar antes (pré-hepático) ou depois (pós-hepático) do fígado. Coágulos na veia porta ou na veia esplênica (trombose) ou algumas doenças cardíacas graves que congestionam o fígado também podem levar à formação de varizes esofágicas.

Condições raras

Em casos muito específicos, como na síndrome de Budd-Chiari (obstrução das veias hepáticas), o mecanismo é similar. É importante investigar a causa exata, pois o manejo da doença de base é parte fundamental do tratamento, assim como em outras condições complexas que exigem diagnóstico preciso, como a pancreatite aguda.

Sintomas associados: do silêncio à emergência

As varizes esofágicas em si são assintomáticas até o momento do sangramento. Você não sente dor ou desconforto por causa delas. Por isso, a vigilância é key. Os sintomas, quando aparecem, são do sangramento ou da doença hepática avançada:

Sinais de Sangramento Ativo (EMERGÊNCIA):

• Vômito com sangue vivo ou em “borra de café” (hematêmese).
• Fezes pretas, alcatroadas e com odor muito forte (melena).
• Tontura, sensação de desmaio ou confusão mental (sinais de grande perda de sangue).
• Palidez cutânea e aceleração dos batimentos cardíacos.

Sinais da Doença Hepática de Base:

• Inchaço (edema) nas pernas e barriga (ascite).
• Icterícia (pele e olhos amarelados).
• Facilidade para formar hematomas ou sangrar.
• Confusão mental ou sonolência excessiva (encefalopatia hepática).

Como é feito o diagnóstico

Como as varizes esofágicas não dão sintomas, o diagnóstico é proativo e baseado na suspeita da doença hepática. O principal exame é a endoscopia digestiva alta.

Através de um tubo flexível com uma câmera, o médico visualiza diretamente o esôfago, o estômago e o duodeno. Ele consegue ver o tamanho, a cor e os sinais de risco de sangramento das varizes. Esse exame é tão crucial que, para pacientes com cirrose conhecida, é feito periodicamente como rastreamento, mesmo sem sintomas. Exames de imagem, como ultrassom com Doppler, avaliam o fígado e o fluxo na veia porta. A conduta de vigilância é essencial, assim como em outras situações onde o diagnóstico precoce muda o prognóstico, como na identificação de uma espondilolistese na coluna.

O Ministério da Saúde reforça a importância do diagnóstico e manejo adequados das doenças crônicas do fígado para prevenir complicações como esta.

Tratamentos disponíveis: prevenir o sangramento é a meta

O tratamento das varizes esofágicas tem dois pilares: prevenir o primeiro sangramento e tratar o sangramento quando ele ocorre.

1. Prevenção Primária (antes de sangrar):

Medicamentos betabloqueadores: Como o propranolol ou nadolol. Eles reduzem a pressão dentro das veias, diminuindo o risco de ruptura.
Ligadura Elástica (Banding): Feita por endoscopia. Coloca-se pequenas “borrachinhas” na base da variz para estrangulá-la, fazendo com que ela seque e caia. É o procedimento preferencial para varizes de maior risco.

2. Tratamento do Sangramento Ativo (emergência):

• Estabilização do paciente com soro, sangue e medicamentos.
• Endoscopia de urgência para realizar ligadura elástica ou escleroterapia (aplicação de substância que fecha a veia).
• Uso de sondas especiais que comprimem as varizes mecanicamente.
• Em casos refratários, procedimentos radiológicos (como a derivação portossistêmica intra-hepática – TIPS) ou cirurgia.

3. Tratamento da Causa de Base:

Parar de ingerir álcool, tratar a hepatite viral, controlar o diabetes e o peso no caso do fígado gorduroso. Sem isso, as varizes esofágicas tendem a reaparecer ou piorar.

O que NÃO fazer

NÃO ignorar o diagnóstico de doença hepática. Se você tem cirrose, fazer o rastreamento endoscópico é não negociável.
NÃO usar anti-inflamatórios (como ibuprofeno, diclofenaco) ou aspirina. Eles aumentam o risco de sangramento gastrointestinal de forma perigosa.
NÃO consumir bebidas alcoólicas. O álcool piora diretamente a doença hepática e a hipertensão portal.
NÃO fazer dietas ou usar medicamentos sem orientação médica. Alguns podem sobrecarregar o fígado ou interagir com os remédios de controle da pressão portal.
NÃO adiar a ida ao médico se tiver vômito ou fezes com sangue. A cada minuto, a perda sanguínea piora o prognóstico. Da mesma forma, sintomas persistentes em outras áreas, como um zumbido pulsátil no ouvido, também merecem investigação.

Se os sintomas persistem ou estão piorando, você pode estar ignorando um problema mais sério. Uma avaliação médica rápida pode evitar complicações.

Perguntas frequentes sobre varizes esofágicas

Varizes esofágicas têm cura?

As varizes esofágicas em si podem ser eliminadas com tratamentos como a ligadura elástica. No entanto, a tendência é que novas varizes se formem se a causa de base (a hipertensão portal) não for controlada. Portanto, o manejo é contínuo, focado em controle e prevenção, não necessariamente em “cura” definitiva.

Qual a diferença entre varizes esofágicas e varizes gástricas?

A localização. As varizes esofágicas ficam no esôfago, enquanto as gástricas ficam no estômago. Ambas têm a mesma causa (hipertensão portal) e riscos similares de sangramento. O tratamento pode variar um pouco devido à anatomia diferente de cada local.

É possível ter varizes esofágicas sem cirrose?

Sim, é possível, mas é menos comum. Como explicado, qualquer condição que cause hipertensão portal pode levar a isso, como trombose da veia porta. No entanto, a cirrose responde pela grande maioria dos casos.

Com que frequência devo repetir a endoscopia se tenho cirrose?

Isso é definido pelo seu hepatologista ou gastroenterologista. Geralmente, se a primeira endoscopia não mostrar varizes, o exame é repetido em 2 a 3 anos. Se mostrar varizes pequenas, o intervalo pode ser de 1 a 2 anos. Se já houver varizes médias ou grandes, o tratamento preventivo é iniciado e a vigilância segue conforme a resposta ao tratamento.

O sangramento sempre vem com vômito de sangue?

Nem sempre. Dependendo da quantidade e velocidade do sangramento, o sangue pode seguir todo o caminho pelo intestino e se manifestar apenas pelas fezes muito escuras (melena). O vômito com sangue ocorre quando o sangramento é mais rápido e volumoso.

Existem alimentos que pioram as varizes esofágicas?

Não existem alimentos que causem ou rompam as varizes diretamente. No entanto, alimentos muito duros, secos ou mal mastigados podem, teoricamente, causar um trauma mecânico na parede frágil do esôfago. O maior cuidado alimentar está em evitar o sal em excesso (que piora a ascite) e seguir uma dieta adequada para a saúde do fígado.

Varizes esofágicas causam dor ou azia?

Não. Elas não causam sintomas locais como dor, queimação ou dificuldade para engolir. Se você tem esses sintomas, eles provavelmente estão relacionados a outro problema, como refluxo gastroesofágico ou esofagite, que também merecem avaliação, assim como uma cálculo uretral causa sintomas urinários específicos.

Meu parente teve sangramento por varizes e sobreviveu. Qual o cuidado agora?

O risco de um novo sangramento é alto nas primeiras semanas. O acompanhamento deve ser rigoroso. Geralmente, é programada uma nova endoscopia em curto prazo para fazer mais ligaduras e garantir que todas as varizes de risco estejam tratadas. O uso de betabloqueadores será reavaliado e mantido. É um momento de extrema adesão ao tratamento e às consultas.

Revisão médica: Conteúdo revisado por profissional de saúde (CRM ativo).

Última atualização: Abril de 2026

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Procure sempre um profissional de saúde para diagnóstico e tratamento adequados.

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