Introdução
Você está em casa, seu filho acorda com febre alta e aquela tosse seca. O que fazer? A dúvida entre dar o “xarope que sobrou” ou correr para a farmácia é comum, mas pode ser perigosa. Medicar crianças exige conhecimento, cuidado e orientação profissional. Este guia completo foi criado para esclarecer tudo sobre o uso correto de medicamentos na infância — com base na ciência, nas bulas oficiais e na experiência clínica.
| Classe terapêutica | Antitérmicos, analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos, broncodilatadores, anti-histamínicos (pediátricos) |
| Princípios ativos comuns | Paracetamol, ibuprofeno, dipirona, amoxicilina, azitromicina, omeprazol, loratadina, salbutamol |
| Fabricantes referencia | Hypera, EMS, Aché, Medley, Pfizer (antibi. pediátricos), entre outros |
| Apresentações | Suspensão oral (gotas/xarope), comprimidos mastigáveis, supositórios, aerossol, solução injetável (uso hospitalar) |
| Receita necessária | Sim — antitérmicos e analgésicos comuns são OTC, mas antibióticos e anti-inflamatórios exigem prescrição médica (retenção de receita) |
| Registro ANVISA | Todos os medicamentos pediátricos com registro vigente na ANVISA (consulte o lote específico para cada princípio ativo) |
Lucas, 4 anos, 16 kg, começou com febre de 38,8°C e queixou-se de dor ao engolir. A mãe, orientada pela pediatra, administrou paracetamol suspensão 160 mg/5 mL — dose calculada: 10 mg/kg (160 mg ou 5 mL). Após 1h, a febre cedeu parcialmente. No dia seguinte, o médico prescreveu amoxicilina suspensão 50 mg/kg/dia por 10 dias. A mãe ofereceu o antibiótico com suco de laranja natural (sem interação significativa) e manteve hidratação. Lucas evoluiu bem, sem efeitos adversos. Moral: dose calculada pelo peso, uso de medicação específica e seguimento profissional são essenciais.
Para que serve Medicamento: Medicamentos e Crianças – Guia Completo — Indicações oficiais
Este guia abrange as principais classes de medicamentos utilizados na pediatria, com base em bulas aprovadas pela ANVISA e protocolos do Ministério da Saúde. Entenda as indicações oficiais de cada grupo:
- Antitérmicos e analgésicos (paracetamol, ibuprofeno, dipirona): indicados para febre (≥37,8°C), dores leves a moderadas como otalgia, cefaleia, dor de dente e pós-vacinal. O paracetamol é a primeira escolha em menores de 3 meses.
- Anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, nimesulida): usados para processos inflamatórios em amigdalite, artrite reativa, pós-operatório. Nimesulida é contraindicada abaixo de 12 anos.
- Antibióticos (amoxicilina, azitromicina, cefalexina): indicados para infecções bacterianas comprovadas ou fortemente suspeitas — otite média aguda, faringoamigdalite estreptocócica, pneumonia, infecção urinária. Sempre com prescrição.
- Broncodilatadores (salbutamol, fenoterol): para crises de asma e bronquiolite, em inalação ou aerossol dosimetrado.
- Anti-histamínicos (loratadina, desloratadina, cetirizina): para rinite alérgica, urticária, conjuntivite alérgica. Preferir os de segunda geração (menos sedação).
- Inibidores da bomba de prótons (omeprazol): indicados para refluxo gastroesofágico, esofagite erosiva e gastrite. Em crianças, doses ajustadas ao peso.
As indicações devem ser sempre individualizadas conforme a faixa etária, peso, diagnóstico e comorbidades. O uso off-label (fora da bula) só deve ocorrer com respaldo científico e consentimento informado.
Como tomar — Dosagem e administração
A administração de medicamentos em crianças segue rigorosamente o peso corporal (mg/kg) ou a idade, conforme bula. Nunca use a dose de adulto. Abaixo, orientações gerais:
- Paracetamol gotas/suspensão: 10–15 mg/kg/dose a cada 4–6h, máximo 5 doses/dia (75 mg/kg/dia). Exemplo: criança de 12 kg → 120–180 mg por dose (≈ 3–4,5 mL da suspensão 160 mg/5 mL).
- Ibuprofeno suspensão: 5–10 mg/kg/dose a cada 6–8h, máximo 30 mg/kg/dia. Não usar em menores de 6 meses sem supervisão médica.
- Dipirona gotas: 1 gota/kg/dose (solução 50 mg/mL) a cada 6h, máximo 4 doses/dia. Contraindicada em menores de 3 meses ou com alergia a pirazolonas.
- Amoxicilina suspensão: 45–50 mg/kg/dia, dividido a cada 8h (ou 12h para alguns regimes). Dose máxima de 1,5 g/dia em crianças.
- Azitromicina suspensão: 10 mg/kg/dose no 1° dia, depois 5 mg/kg/dose por mais 4 dias (dose total: 30 mg/kg).
- Omeprazol: 0,5–1,0 mg/kg/dose, uma vez ao dia, 30–60 min antes do café da manhã.
Use sempre o dispositivo de medição incluso (copo, seringa dosadora ou conta-gotas). Agite bem a suspensão antes de administrar. Registro de dose e horário ajuda a evitar excessos. Em caso de vômito até 30 min após a dose, aguarde o próximo horário — nunca repita a dose integral.
Efeitos colaterais
Toda substância ativa pode causar reações adversas. Conhecer os principais efeitos colaterais em crianças prepara pais e cuidadores para agir com segurança:
- Paracetamol: raramente reações alérgicas (urticária, broncoespasmo). Hepatotoxicidade grave em doses >75 mg/kg/dia. Sintomas iniciais: náusea, palidez, sudorese.
- Ibuprofeno: desconforto gástrico, náusea, diarreia. Em crianças desidratadas — risco de lesão renal aguda. Pode desencadear asma em sensíveis (5-10% das crianças asmáticas).
- Dipirona: hipotensão (se infusão rápida — uso hospitalar), agranulocitose (rara, ≈1/1 milhão), reações cutâneas. Qualquer sinal de febre + dor de garganta + úlceras orais após inicio: requer hemograma urgente.
- Amoxicilina: diarreia (mais comum), erupção cutânea (5-10%), náusea. Colite pseudomembranosa (rara, por Clostridium difficile).
- Azitromicina: dor abdominal, vômito, diarreia, prolongamento do intervalo QT (precaução em cardiopatias).
- Loratadina/cetirizina: sonolência leve (mais comum com cetirizina), boca seca, cefaleia.
- Salbutamol inalatório: taquicardia, tremor de extremidades, agitação, náusea.
Qualquer reação adversa suspeita deve ser comunicada ao médico e registrada no sistema VigiMed (ANVISA).
Contraindicações e quem não deve usar
Medicamentos não são inofensivos. Conheça as contraindicações absolutas e relativas para a população pediátrica:
- Paracetamol: hipersensibilidade ao fármaco; insuficiência hepática grave (Child-Pugh C). Evitar em crianças com alcoolismo (raro em pediatria, mas presente em adolescentes).
- Ibuprofeno: infecção por varicela (risco de fascite necrosante), dengue, insuficiência renal, úlcera péptica ativa, diátese hemorrágica. Menores de 6 meses: apenas sob prescrição.
- Dipirona: alergia a pirazolonas (dipirona, fenazona, propifenazona), agranulocitose prévia, porfiria aguda, déficit de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD). Menores de 3 meses.
- Amoxicilina: alergia a penicilinas, mononucleose infecciosa (risco de exantema grave). Nefropatia alérgica (rara).
- Azitromicina: hipersensibilidade a macrolídeos, arritmia cardíaca com QT longo, miastenia gravis.
- Omeprazol: uso prolongado sem necessidade (risco de deficiência de B12, osteoporose, infecções intestinais). Evitar em menores de 1 ano sem recomendação médica.
A contraindicação deve ser verificada caso a caso, e o médico deve ser informado de alergias prévias.
Interações medicamentosas
Interações podem potencializar a toxicidade ou reduzir a eficácia. Em crianças polimedicadas, redobre a atenção:
- Paracetamol + anticonvulsivantes (carbamazepina, fenitoína, fenobarbital): aumento do metabolismo hepático do paracetamol → maior risco de hepatotoxicidade mesmo em doses terapêuticas.
- Ibuprofeno + anticoagulantes (varfarina, heparina): risco de sangramento gastrointestinal. Evitar associação se possível.
- Dipirona + metotrexato: aumento da toxicidade do metotrexato. Evitar.
- Amoxicilina + alopurinol: maior risco de reações cutâneas (exantema).
- Azitromicina + antácidos (hidróxido de alumínio/magnésio): redução da absorção de azitromicina. Administrar com 2h de intervalo.
- Omeprazol + digoxina: aumento da digoxina plasmática (risco de intoxicação). Monitorar níveis.
- Salbutamol + betabloqueadores (propranolol): antagonismo do efeito broncodilatador.
Sempre informe ao pediatra todos os medicamentos que a criança usa (incluindo fitoterápicos e vitaminas).
Preço e genérico disponível
Todos os medicamentos mencionados possuem versões genéricas no Brasil, com eficácia e segurança comprovadas pela ANVISA (testes de bioequivalência). O custo médio em farmácias populares varia conforme apresentação e região:
- Paracetamol suspensão 200 mg/mL (gotas) — genérico: R$ 8,00 a R$ 18,00
- Ibuprofeno suspensão 100 mg/5 mL — genérico: R$ 10,00 a R$ 22,00
- Dipirona gotas 50 mg/mL — genérico: R$ 5,00 a R$ 12,00
- Amoxicilina suspensão 250 mg/5 mL — genérico: R$ 12,00 a R$ 28,00
- Azitromicina suspensão 200 mg/5 mL — genérico: R$ 18,00 a R$ 35,00
A troca por genérico é segura e recomendada, desde que o farmacêutico oriente sobre a mesma concentração e posologia. Na Clinica Popular Fortaleza, você encontra orientação sobre medicamentos genéricos e economia.
O que perguntar ao médico antes de usar
Antes de iniciar qualquer medicamento em seu filho, leve estas questões à consulta:
- Qual a dose exata em mg e em mL (ou gotas) para o peso da minha criança?
- Por quanto tempo devo administrar esse medicamento? Há necessidade de reavaliação?
- Quais sinais de efeito colateral devo observar e quando procurar o pronto-socorro?
- Este medicamento interage com outros que meu filho já toma (incluindo vitaminas e chás)?
- Existe alternativa mais segura ou mais barata (como um genérico)?
- O que fazer se meu filho vomitar logo após tomar o remédio?
- Em caso de febre, qual antiérmico posso usar concomitantemente (se necessário)?
- Calcule a dose sempre pelo peso, nunca pela idade isoladamente — crianças com mesmo peso e idades diferentes podem receber a mesma dose. Use balança digital e anote o peso antes de cada consulta.
- Prefira suspensões e xaropes — comprimidos podem ser engasgados; não parta comprimidos sem orientação farmacêutica (pode alterar a absorção).
- Registre cada dose em um papel — horário, medicamento e dose. Isso evita duplicidades e excessos, especialmente quando mais de um cuidador administra.
- Não misture o remédio na mamadeira ou no suco todo — se a criança não tomar tudo, a dose fica incorreta. Use seringa dosadora e ofereça diretamente na boca, depois ofereça líquido.
- Mantenha a caderneta de vacinação em dia — muitas infecções são evitáveis e reduzem a necessidade de medicamentos. Consulte o calendário vacinal no site da ANVISA.
- Armazene em local fresco e seguro — fora do alcance das crianças e sem exposição ao sol. Suspensões abertas geralmente têm validade de 14 a 28 dias em geladeira (verifique a bula).
- Nunca chame o medicamento de “doce” ou “gostosura” — a criança pode entender que é um alimento e buscar consumir sem supervisão.
Perguntas frequentes
👉 Posso dar paracetamol e ibuprofeno no mesmo dia?
Sim, mas com intervalo de no mínimo 4h entre eles e respeitando as doses máximas de cada um. O esquema de alternância só é recomendado em casos de febre refratária, sob orientação médica e com registro rigoroso.
👉 O que fazer se meu filho recusar o medicamento?
Ofereça de forma calma, com seringa dosadora voltada para a bochecha. Não force nem ameace. Se a recusa persistir, converse com o médico sobre alternativas de sabor ou apresentação (supositório, comprimido mastigável).
👉 Qual a melhor posição para dar remédio para um bebê?
Sentado ou semi-sentado, com a cabeça levemente inclinada para trás. Isso facilita a deglutição e evita engasgo. Para líquidos, use seringa dosadora sem agulha, introduzindo entre a bochecha e a gengiva.
👉 Antibiótico precisa de receita? Posso interromper antes do prazo?
Sim, antibióticos exigem prescrição médica (receita de controle especial para alguns). Nunca interrompa antes do prazo prescrito, mesmo que a criança esteja bem — a resistência bacteriana é um grave problema de saúde pública.
👉 Criança pode tomar dipirona para dor de dente?
A dipirona é um analgésico eficaz para cólica e dor de dente, mas a causa deve ser diagnosticada. Idealmente, procure um dentista pediátrico. Não use mais de 4 doses/dia por mais de 3 dias sem supervisão.
👉 Existe “xarope para tosse” seguro para menores de 2 anos?
A ANVISA contraindica expectorantes e antitusígenos para menores de 2 anos. A tosse aguda em bebês geralmente é viral — hidratação, lavagem nasal com soro fisiológico e umidificação do ambiente são as medidas iniciais seguras.
👉 Como descartar medicamentos vencidos?
Nunca jogue no lixo comum ou no vaso sanitário. Entregue em uma farmácia que participe do programa de descarte (farmácias populares, drogarias grandes). Isso protege o meio ambiente e evita acidentes.
👉 É verdade que alguns medicamento “cortam” o efeito de vacinas?
Sim, o uso de anti-inflamatórios (ibuprofeno, nimesulida) antes ou logo após vacinas pode reduzir a resposta imunológica. Antitérmicos (paracetamol, dipirona) parecem não interferir, mas consulte o pediatra antes de administrar.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clinica Popular Fortaleza, com base em bulas oficiais ANVISA, evidências científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 30/06/2026
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Fontes e leituras complementares:
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- Exames na Clinica Popular Fortaleza
- Omeprazol: para que serve e como tomar
- Dipirona: para que serve, dosagem e efeitos
- Ibuprofeno: para que serve e cuidados
- Amoxicilina: para que serve e como usar
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