O que é O que é Alucinação?
Alucinação é a percepção de algo que não existe na realidade objetiva, ou seja, a pessoa vê, ouve, sente, cheira ou prova algo que não está presente no ambiente externo. Diferente de um simples engano (como achar que viu um vulto), a alucinação acontece sem nenhum estímulo real e a pessoa muitas vezes tem convicção de que aquilo é verdadeiro, o que pode causar sofrimento intenso. Na prática clínica brasileira, especialmente no SUS e em clínicas populares, as alucinações são um dos motivos mais comuns de procura por atendimento em saúde mental, principalmente em pacientes com transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia, transtorno bipolar em fase psicótica, depressão grave com sintomas psicóticos, ou ainda em quadros neurológicos (demências, epilepsia) e intoxicações por substâncias (álcool, cocaína, crack, anfetaminas).
Estima-se que, no Brasil, cerca de 1% da população adulta tenha algum transtorno psicótico ao longo da vida, e até 70% desses pacientes apresentam alucinações auditivas em algum momento. Dados do Ministério da Saúde (MS) indicam que a prevalência de alucinações na população geral (sem doença diagnosticada) pode chegar a 10-15% em estudos de base comunitária, especialmente em idosos com privação sensorial ou em episódios de sono-vigília mal controlados. Nas clínicas populares, é muito comum receber pacientes que relatam “ouvir vozes” ou “ver vultos” após uso abusivo de bebida alcoólica (alucinose alcoólica) ou durante crises de abstinência do álcool (delirium tremens). Outro contexto frequente são as alucinações relacionadas ao uso de medicações (efeitos colaterais de antiparkinsonianos, corticoides, antimaláricos) e em estados febris, principalmente em crianças e idosos.
É fundamental que o médico clínico geral saiba diferenciar alucinação de ilusão (distorção de um estímulo real, como ver uma cortina e achar que é uma pessoa) e de pseudolucinação (quando a pessoa percebe que a experiência não é real, mas mesmo assim a vivencia). Essa diferença impacta diretamente na conduta: enquanto alucinações verdadeiras em contexto psicótico costumam exigir tratamento medicamentoso com antipsicóticos e acompanhamento psiquiátrico, as pseudolucinações podem ser abordadas com acolhimento, psicoeducação e, às vezes, ajuste de medicações. No SUS, o acesso ao tratamento é feito pela Atenção Primária (UBS), que pode solicitar avaliação com o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) ou encaminhar para Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) nos casos de transtornos psicóticos persistentes.
Como funciona / Características
A alucinação ocorre por uma falha na atividade cerebral que normalmente distingue estímulos internos da realidade externa. Em termos simples, o cérebro “acredita” que está processando um estímulo sensorial vindo do ambiente, mas na verdade está gerando essa experiência sozinho. Isso pode envolver qualquer modalidade sensorial, mas no dia a dia das clínicas populares brasileiras, as mais relatadas são:
– Alucinações auditivas: a pessoa ouve vozes, sons, sussurros, batidas, músicas. Muitas vezes as vozes são depreciativas, comandam ações ou fazem comentários sobre o comportamento do paciente. Exemplo comum: paciente chega à consulta dizendo “doutor, tem uma voz que fala que ninguém gosta de mim”.
– Alucinações visuais: vê figuras humanas ou animais, luzes, sombras, objetos deformados. Em idosos com demência ou degeneração macular, podem ver “vultos” ou “pessoas pequenas” (síndrome de Charles Bonnet).
– Alucinações táteis: sensação de algo andando na pele, formigamento, picadas, ou a sensação de estar sendo tocado. Muito comum em usuários de crack (sensação de “bichos andando” – formigação).
– Alucinações olfativas e gustativas: cheiros ou gostos estranhos, frequentemente associados a crises convulsivas parciais (epilepsia do lobo temporal).
– Alucinações cinestésicas: sensação de que o corpo está se movendo ou flutuando (pode ocorrer em crises de ansiedade e em quadros neurológicos).
Na prática, o médico clínico geral precisa investigar a história detalhada: quando começou, que tipo de percepção, se o paciente reconhece como irreal (insight), se há outros sintomas associados (delírios, desorganização do pensamento, alterações de humor, sonolência ou agitação), uso de substâncias (álcool, drogas ilícitas, medicamentos controlados), comorbidades clínicas (febre, infecções, distúrbios metabólicos) e história familiar de transtornos psicóticos. Muitas vezes, em consultas de 15 minutos em uma clínica popular, é possível fazer um rastreio básico com perguntas como “Você já viu ou ouviu coisas que outras pessoas não veem ou ouvem?” ou “Alguém já comentou que você está ouvindo vozes?”.
Um erro frequente é atribuir toda alucinação a um transtorno psiquiátrico. Por exemplo, um idoso com infecção urinária e febre baixa pode apresentar alucinações visuais (delirium) – nesse caso, o tratamento é a correção da infecção, não o uso de antipsicóticos. Da mesma forma, pacientes com tumores cerebrais, hipoglicemia ou distúrbios tireoidianos podem ter alucinações como manifestação inicial. Por isso, a investigação clínica é indispensável e, no SUS, os exames de rotina (hemograma, glicemia, função tireoidiana, sorologias) são acessíveis e devem ser solicitados.
Tipos e Classificações
No Brasil, a classificação das alucinações segue as diretrizes internacionais (CID-11 e DSM-5-TR), mas também se considera a classificação fenomenológica usada nos ambulatórios de psiquiatria:
1. Quanto à modalidade sensorial:
– Auditivas (simples: ruídos, zumbidos; complexas: vozes com conteúdo)
– Visuais (simples: flashes, pontos; complexas: cenas, pessoas)
– Olfativas e gustativas (raras, mas importantes na epilepsia)
– Táteis (cutâneas e viscerais)
– Cinestésicas (movimento corporal sentido sem movimento real)
2. Quanto à complexidade:
– Simples: estímulos elementares, como apitos, zumbidos, luzes piscando.
– Complexas: percepções elaboradas, como vozes falando frases, cenas completas.
3. Quanto ao insight (consciência de irrealidade):
– Com insight: o paciente sabe que não é real (ex.: síndrome de Charles Bonnet).
– Sem insight: o paciente acredita que a percepção é real (ex.: esquizofrenia).
4. Classificação etiológica no contexto brasileiro:
– Psicóticas: associadas a transtornos psiquiátricos (esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo, transtorno bipolar).
– Orgânicas: causadas por doenças clínicas (infecções, distúrbios metabólicos, tumores, meningite, encefalite).
– Tóxicas: por uso/abstinência de álcool, cocaína, crack, maconha (especialmente em grandes quantidades), anfetaminas, alucinógenos (LSD, cogumelos).
– Relacionadas a privação sensorial: em idosos com surdez/cegueira, pacientes em isolamento prolongado.
– Funcionais: em pacientes com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou transtorno dissociativo.
Uma classificação menos formal, mas muito usada na ponta do SUS, é separar as alucinações “benignas” (como as que ocorrem ao dormir – hipnagógicas antes de dormir ou hipnopômpicas ao acordar) daquelas que indicam transtorno mental grave. As alucinações hipnagógicas e hipnopômpicas são comuns na população geral (até 30% das pessoas já tiveram alguma) e, isoladamente, não indicam doença.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico (de preferência um clínico geral na UBS ou em uma clínica popular) se:
– Perceber que ouve, vê, sente ou cheira coisas que outras pessoas ao redor não percebem.
– Essas experiências forem repetitivas, perturbarem o sono, o trabalho ou os relacionamentos.
– Você ou algum familiar passar a agir de forma desconfiada, agressiva ou isolada por causa dessas percepções.
– Houver febre, confusão mental, desorientação, sonolência excessiva ou alteração repentina do comportamento (suspeita de delirium).
– Houver uso recente de álcool, drogas ou medicação que possa estar causando o sintoma.
– A pessoa for idosa e apresentar alucinações visuais sem outros sintomas – pode ser síndrome de Charles Bonnet (benigna) ou sinal de demência incipiente.
– Uma criança referir “ouvir vozes” – não é normal e precisa ser investigada, pois pode ser desde estresse pós-traumático até transtorno psicótico (raro, mas possível).
– As alucinações vierem acompanhadas de fortes dores de cabeça, convulsões, perda de consciência ou sinais neurológicos focalizados (fraqueza em um lado do corpo, dificuldade de fala – suspeita de lesão cerebral).
Na rede de saúde pública, o primeiro passo é ir a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para uma consulta com clínico geral. Se necessário, haverá referência para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou para o serviço de psiquiatria ambulatorial. Em situações de agitação extrema, risco de autoagressão ou heteroagressão, ou comprometimento clínico grave (delirium), a emergência ou o SAMU (192) deve ser acionado. O Conselho Federal de Medicina (CFM) orienta que o médico deve sempre investigar causas orgânicas antes de fechar diagnóstico psiquiátrico – isso evita tratamentos inadequados e garante segurança.
A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) disponibiliza materiais informativos, e o Ministério da Saúde inclui as alucinações como sintoma-alvo no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para esquizofrenia e outros transtornos psicóticos. O acesso a esses protocolos pode ser consultado no site oficial do governo: Saúde Mental – Ministério da Saúde.
Termos Relacionados
- Delírio: Crença falsa e fixa, mantida com convicção mesmo contra evidências. Exemplo: achar que está sendo perseguido pelos vizinhos. Diferente da alucinação, que é percepção sem estímulo; o delírio é um conteúdo do pensamento.
- Ilusão: Interpretação equivocada de um estímulo real. Exemplo: ver uma sombra de uma árvore e achar que é uma pessoa. Não é alucinação porque há um objeto real distorcido.
- Pseudoalucinação: Experiência sensorial vivida no espaço interno (na mente), sem projeção para o mundo exterior. O paciente tem consciência de que não é real, mas sente como se fosse. Comum em transtornos de personalidade e transtorno de estresse pós-traumático.
- Alucinose alcoólica: Alucinações auditivas ou visuais que ocorrem durante ou após o consumo excessivo de álcool, sem rebaixamento do nível de consciência. Pode ser confundida com psicose e requer abstinência e avaliação psiquiátrica.
- Delirium: Estado agudo de confusão mental, com atenção reduzida, desorientação e frequentemente alucinações visuais ou táteis. Causado por infecções, uso de medicamentos, desidratação, entre outros. É uma emergência médica.
- Esquizofrenia: Transtorno psiquiátrico crônico que cursa com alucinações (principalmente auditivas), delírios, pensamento desorganizado e sintomas negativos (apatia, isolamento). No Brasil, atinge cerca de 1% da população e tem forte estigma social.
- Síndrome de Charles Bonnet: Ocorre em idosos com baixa visão (catarata, degeneração macular) que desenvolvem alucinações visuais complexas (pessoas, paisagens, animais) mantendo insight preservado. Não é psicose, e o tratamento é orientar o paciente e tratar a deficiência visual.
- Psicose: Condição em que a pessoa perde o contato com a realidade, podendo apresentar alucinações, delírios ou pensamento muito desorganizado. Pode ser causada por transtornos mentais, uso de substâncias, doenças clínicas ou medicamentos.
Perguntas Frequentes sobre O que é Alucinação
Ouvir vozes é sempre sinal de esquizofrenia?
Não. Embora seja um sintoma clássico da esquizofrenia, ouvir vozes (alucinação auditiva) pode ocorrer em outras condições: depressão psicótica, transtorno bipolar, estresse pós-traumático, uso de álcool ou drogas, privação de sono, e até em pessoas sem qualquer transtorno mental (cerca de 5-10% da população já ouviu vozes ao menos uma vez na vida, muitas vezes em situações de estresse extremo). O fundamental é avaliar o contexto, a frequência, o conteúdo (se é crítico, ameaçador, comentário) e a presença de outros sintomas. Uma avaliação médica completa pode diferenciar.
O que fazer se um familiar idoso começa a ver pessoas ou animais que não existem?
Primeiro, mantenha a calma e não contradiga a pessoa de forma agressiva. Diga algo como “entendo que você está vendo isso, mas eu não estou vendo”. Observe se há outros sinais de confusão mental, febre, sonolência, desorientação. Se o idoso tem boa visão e não há sintomas gerais, pode ser a síndrome de Charles Bonnet (benigna). Mas se vier acompanhado de quedas, isolamento ou agitação, procure uma UBS ou pronto-socorro para investigar infecções (urinária, respiratória) ou efeitos de medicamentos. Nunca dê medicação por


