O que é Aminotransferase?
Se você já fez um exame de sangue de rotina, provavelmente já viu os nomes TGO (AST) e TGP (ALT) no resultado. Esses são os nomes mais comuns para as aminotransferases, também chamadas de transaminases. Na prática clínica do dia a dia, especialmente no SUS e em clínicas populares brasileiras, esses são exames que pedimos quase que diariamente para avaliar como está o fígado do paciente.
As aminotransferases são enzimas que ficam dentro das células do fígado (hepatócitos) e, em menor quantidade, no coração, músculos e rins. Elas participam de reações químicas importantes para o metabolismo – basicamente, ajudam a transformar aminoácidos em energia. Quando o fígado sofre uma agressão – seja por uma hepatite viral, consumo excessivo de álcool, acúmulo de gordura (esteatose hepática) ou uso de certos medicamentos – as células se rompem e essas enzimas vazam para a corrente sanguínea. É por isso que, no exame de sangue, os níveis de aminotransferase ficam elevados.
No Brasil, as hepatites virais (B e C) ainda são uma causa importante de doença hepática, embora a vacinação contra hepatite B tenha reduzido muito os casos. Dados do Ministério da Saúde mostram que entre 2000 e 2022 foram notificados mais de 700 mil casos de hepatites virais no país. Além disso, a esteatose hepática não alcoólica (fígado gorduroso) tornou-se um problema crescente, associado à obesidade e ao diabetes – condições que afetam milhares de brasileiros. Por isso, quando um paciente chega ao consultório com fatores de risco como sobrepeso, pressão alta ou colesterol alterado, pedir as aminotransferases é um dos primeiros passos para investigar a saúde do fígado. No SUS, esses exames estão disponíveis na atenção básica e são fundamentais para o rastreamento e acompanhamento de doenças hepáticas, conforme as diretrizes do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde.
Como funciona / Características
Na prática, as aminotransferases são medidas por meio de uma simples coleta de sangue, geralmente feita em jejum de 8 a 12 horas – embora para esse exame específico o jejum não seja tão crítico, pedimos por precaução. Os valores de referência podem variar de laboratório para laboratório, mas em adultos saudáveis costumam ficar abaixo de 40 U/L para TGO e TGP. No entanto, esses números não são absolutos: pequenas elevações (até 1,5 vez o limite superior) podem ocorrer após exercício intenso, uso de bebida alcoólica na noite anterior ou até mesmo por conta de medicamentos como paracetamol ou estatinas.
No cotidiano de uma clínica popular, é muito comum o paciente chegar com o resultado de um check-up e perguntar: “Doutor, minhas transaminases estão altas, o que pode ser?”. Aí entramos com a avaliação clínica: perguntamos sobre consumo de álcool, uso de remédios, sintomas como cansaço, inchaço, olhos amarelados, e solicitamos exames complementares (ultrassom de abdome, sorologias para hepatites, perfil lipídico). Uma característica importante: a TGP (ALT) é mais específica do fígado do que a TGO (AST). A TGO também está presente no coração, nos músculos e nos rins. Por isso, se a TGO estiver mais alta que a TGP, pensamos em lesão muscular, cardíaca ou alcoolismo. Já se a TGP for maior que a TGO, é mais sugestivo de hepatite viral ou esteatose.
Vou dar um exemplo real: atendi semana passada uma senhora de 52 anos, com sobrepeso e diabetes tipo 2. Ela veio se queixando de cansaço e desconforto na barriga. Pedi um hemograma completo com aminotransferases. O resultado mostrou TGP = 78 U/L e TGO = 52 U/L. Com base nisso, solicitei um ultrassom de abdome que confirmou esteatose hepática grau II. Ela ficou aliviada por não ser algo grave, mas entendemos que precisava mudar a alimentação e controlar o diabetes – exatamente o que orientamos ali na consulta. Esse é o dia a dia: usar as aminotransferases como uma ferramenta simples e barata para detectar problemas que, se ignorados, podem evoluir para cirrose ou câncer de fígado.
Tipos e Classificações
No Brasil, classificamos as aminotransferases em dois tipos principais, que são os medidos nos exames de rotina:
- Aspartato aminotransferase (AST) – também chamada de TGO (transaminase glutâmico oxalacética). É encontrada no fígado, coração, músculos esqueléticos, rins e cérebro.
- Alanina aminotransferase (ALT) – também chamada de TGP (transaminase glutâmico pirúvica). Está presente quase que exclusivamente no fígado, sendo um marcador mais específico de lesão hepática.
Além da dosagem individual, usamos a razão AST/ALT (índice de De Ritis) para ajudar no diagnóstico diferencial. Por exemplo:
- Se AST/ALT > 2,0 → sugere doença hepática alcoólica ou cirrose.
- Se AST/ALT < 1,0 → sugere hepatite viral aguda ou esteatose hepática.
- Se AST/ALT entre 1,0 e 2,0 → pode ser hepatite crônica ou medicação hepatotóxica.
Essa classificação é amplamente utilizada nos serviços de saúde brasileiros, desde as Unidades Básicas de Saúde até os ambulatórios especializados. O CFM recomenda que os laudos laboratoriais incluam os valores de referência e a unidade utilizada, e a ANVISA regula a padronização dos métodos de dosagem para garantir a confiabilidade dos resultados.
Quando procurar um médico
Você não precisa sair correndo ao hospital só porque suas aminotransferases estão um pouco acima do normal. Mas existem situações que merecem atenção e uma consulta com clínico geral ou hepatologista:
- Alteração persistente ou elevada: se em exames repetidos a TGP ou TGO estiverem acima de 2 vezes o limite superior (ex: > 80 U/L) ou se houver um aumento súbito (ex: TGP > 500 U/L), procure avaliação médica.
- Sintomas associados: cansaço inexplicável, perda de apetite, náuseas, vômitos, dor no lado direito da barriga, urina escura (cor de coca-cola), fezes claras (cor de massa de vidraceiro) ou icterícia (olhos e pele amarelados). Esses são sinais de alerta de hepatite aguda ou colestase.
- Fatores de risco: se você tem diabetes, obesidade, colesterol alto, consome bebida alcoólica em excesso (mais de 2 doses/dia para homens ou 1 dose/dia para mulheres) ou já teve contato com pessoas com hepatite, vale a pena fazer um check-up com dosagem de aminotransferases.
- Uso de medicamentos: se você faz uso contínuo de remédios como paracetamol (em doses altas), anticoncepcionais, estatinas, antifúngicos ou antituberculose, é prudente monitorar a função hepática com exames periódicos.
No SUS, o primeiro passo é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. O médico da família pode solicitar os exames e, se necessário, encaminhar para um hepatologista ou infectologista. Lembre-se: não se automedique com chás ou “remédios para limpar o fígado” – isso pode piorar a situação. O melhor tratamento é identificar a causa e agir sobre ela.
Termos Relacionados
- Hepatite – Inflamação do fígado, que pode ser causada por vírus (A, B, C, D, E), álcool, medicamentos ou doenças autoimunes. As aminotransferases ficam elevadas durante a fase aguda ou crônica.
- Esteatose hepática – Acúmulo de gordura no fígado, muito comum em pessoas com obesidade, diabetes ou colesterol alto. Geralmente eleva discretamente a TGP.
- Cirrose – Estágio avançado de fibrose hepática, onde o fígado perde sua função. As aminotransferases podem


