O que é Câncer de células escamosas da bexiga?
O câncer de células escamosas da bexiga (CECB) é um tipo de tumor maligno que se origina nas células epiteliais escamosas (planas e finas) que revestem internamente a bexiga. Diferente do carcinoma urotelial (o tipo mais comum, que surge do urotélio), o CECB é um subtipo menos frequente, correspondendo a cerca de 2% a 5% dos cânceres de bexiga no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). No dia a dia de uma clínica popular do SUS, esse diagnóstico aparece geralmente em pacientes com história de infecções urinárias de repetição, uso prolongado de sonda vesical (cateterismo), cálculos na bexiga (pedras) ou esquistossomose – doença parasitária endêmica em algumas regiões do Nordeste e Minas Gerais. Muitos pacientes chegam à consulta com queixas de sangue na urina (hematúria) e dores pélvicas, e o atraso no diagnóstico é comum, principalmente nas unidades básicas de saúde com acesso limitado a exames como cistoscopia e biópsia.
O contexto do Sistema Único de Saúde (SUS) é desafiador: a maior parte dos casos é diagnosticada em estágios avançados, quando o tumor já invadiu a camada muscular da bexiga ou se espalhou para linfonodos próximos. A ANVISA regula os insumos para biópsia e os materiais para cistoscopia, mas a disponibilidade desses procedimentos varia muito entre as regiões do país. Nas clínicas populares de Fortaleza, por exemplo, frequentemente encaminhamos pacientes para serviços de uro-oncologia em hospitais de referência como o Hospital do Câncer (Ceará) ou o INCA (Rio de Janeiro). O CFM estabelece diretrizes éticas para o tratamento multimodal (cirurgia, radioterapia e quimioterapia), e a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) divulga protocolos de estadiamento TNM, usados em todo o Brasil para definir o prognóstico e a abordagem terapêutica.
É fundamental que o paciente entenda que o câncer de células escamosas da bexiga não é o mesmo que o câncer de bexiga comum (carcinoma urotelial). Ele está fortemente associado a processos inflamatórios crônicos, como a esquistossomose (causada pelo Schistosoma haematobium), que ainda afeta comunidades rurais do Nordeste. Por isso, a prevenção envolve o combate à doença parasitária com saneamento básico e tratamento precoce das infecções urinárias. No SUS, o rastreio é feito principalmente em grupos de risco: pacientes com cateterismo de longa permanência, portadores de cálculo vesical recidivante, ou com hematúria inexplicada.
Como funciona / Características
O câncer de células escamosas da bexiga se comporta de forma mais agressiva que o carcinoma urotelial. Ele tende a crescer localmente, invadindo a parede muscular da bexiga (músculo detrusor) e, com frequência, já apresenta metástases para linfonodos regionais no momento do diagnóstico. Em cerca de 70% dos casos, o tumor está em estágio ≥ T2 (invasão muscular) na primeira avaliação, o que exige tratamento mais radical, geralmente cistectomia total (remoção cirúrgica da bexiga) seguida de quimioterapia ou radioterapia, conforme o estadiamento e as condições clínicas do paciente.
Na prática da clínica popular, o que vemos é um paciente típico: homem ou mulher (com discreto predomínio masculino) na faixa dos 50-70 anos, morador de zona rural ou periurbana, com histórico de infecções urinárias recorrentes tratadas com antibióticos de forma empírica nas farmácias ou postos. Muitas vezes, o paciente relata “urina com sangue” (hematúria) que aparece e desaparece, sendo confundida com infecção ou cálculo. Quando chega ao consultório, a bexiga já pode estar espessada e com tumor vegetante visível na cistoscopia. A confirmação diagnóstica vem da biópsia por cistoscopia, que mostra as células escamosas típicas com queratinização (produção de queratina, como na pele).
Um exemplo real: seu José, 62 anos, pedreiro aposentado, veio ao posto com queixa de dor ao urinar e sangue na urina havia três meses. Já havia feito exame de urina e ultrassom na UBS, que mostrou espessamento da parede vesical. Encaminhado ao urologista do SUS, foi submetido a cistoscopia e biópsia. O laudo: carcinoma de células escamosas, queratinizante, grau histológico intermediário. Felizmente, o tumor ainda estava restrito à submucosa (estágio T1), e o tratamento foi com ressecção transuretral (TUR) complementada com radioterapia. Seu José segue em acompanhamento com cistoscopias anuais.
Tipos e Classificações
A classificação do câncer de células escamosas da bexiga segue dois eixos principais: o estadiamento TNM (Tumor, Linfonodo, Metástase) e a classificação histológica.
1. Estadiamento TNM (8ª edição, adotada pelo SUS):
– T0: sem tumor; T1: invasão do tecido conjuntivo abaixo do epitélio (lâmina própria); T2: invasão do músculo da bexiga; T3: invasão da gordura perivesical; T4: invasão de órgãos vizinhos (próstata, útero, parede pélvica).
– N0: sem metástases linfonodais; N1-3: linfonodos regionais comprometidos.
– M0: sem metástases à distância; M1: metástases (pulmão, fígado, ossos).
2. Tipo histológico:
– Carcinoma de células escamosas clássico (queratinizante): com formação de pérolas córneas (estruturas de queratina). É o subtipo mais comum e mais associado a esquistossomose. Responde pior à quimioterapia.
– Carcinoma de células escamosas não queratinizante: menos frequente, mas com comportamento biológico semelhante.
– Variante basalóide: raro, mais agressivo, com células pequenas e alta taxa mitótica.
No Brasil, a classificação é padronizada pelos laudos patológicos dos hospitais conveniados ao SUS e segue as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). A partir do estadiamento, define-se a conduta: para T1 (não invasão muscular) pode-se tentar ressecção local e BCG intravesical (imunoterapia); para T2 ou mais, a cistectomia radical é padrão.
Quando procurar um médico
Os sinais de alerta para o câncer de células escamosas da bexiga são semelhantes aos de outros tumores vesicais, mas merecem atenção redobrada em pacientes com fatores de risco (esquistossomose, cateterismo crônico, cálculos de repetição). Você deve procurar um médico – preferencialmente um clínico geral na UBS ou um urologista – se apresentar:
- Hematúria (sangue na urina) – visível a olho nu (macrohematúria) ou detectada no exame de urina (microhematúria). Mesmo que seja indolor e intermitente, nunca deve ser ignorada.
- Dor ou ardência ao urinar (disúria) que persiste por mais de duas semanas, principalmente em pacientes com infecções urinárias de repetição que não melhoram com antibióticos.
- Aumento da frequência urinária (vontade de urinar muitas vezes, inclusive à noite) associado a urgência.
- Dor pélvica ou lombar persistente, sem relação com compressão ou trauma.
- Perda de peso inexplicada e cansaço, especialmente em idosos.
- Se você tem histórico de esquistossomose, cateterismo vesical prolongado ou cálculo vesical, deve realizar cistoscopia periódica conforme orientação do urologista (anual ou bienal).
No SUS, o primeiro passo é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS). O clínico geral solicitará exame de urina tipo I, ultrassom de vias urinárias e, se houver suspeita, encaminhará ao urologista para cistoscopia e biópsia. O diagnóstico precoce pode salvar a bexiga e evitar tratamentos radicais.
Termos Relacionados
- Carcinoma urotelial: tipo mais comum de câncer de bexiga, originado das células de transição do urotélio. Diagnóstico diferencial com o CECB.
- Hematúria: presença de sangue na urina, principal sintoma de apresentação do câncer de bexiga.
- Cistoscopia: exame endoscópico que permite visualizar diretamente o interior da bexiga e colher biópsias.
- Bexiga: órgão muscular oco que armazena a urina antes da micção. Local do câncer.
- Esquistossomose: doença parasitária causada pelo Schistosoma haematobium, cuja forma crônica está fortemente associada ao CECB em regiões endêmicas do Brasil.
- Metástase: disseminação do câncer para outros órgãos ou linfonodos distantes.
- Biópsia: remoção de um fragmento de tecido para análise microscópica, fundamental para confirmar o diagnóstico.
- Estadiamento TNM: sistema de classificação que descreve a extensão do tumor primário (T), comprometimento de linfonodos (N) e presença de metástases (M).


