quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Câncer de células escamosas da faringe

O que é Câncer de células escamosas da faringe?

Olá, eu sou médico clínico geral, e ao longo de 15 anos atendendo no SUS e em clínicas populares aqui no Brasil, uma pergunta que ouço com frequência é: “doutor, o que é esse tal de câncer de células escamosas da faringe?”. Vou tentar explicar de forma simples e direta.

O câncer de células escamosas da faringe é um tipo de tumor maligno que surge nas células que revestem a faringe – aquela região que conecta o nariz e a boca à laringe e ao esôfago. Essas células, chamadas de escamosas, têm formato achatado e formam uma camada protetora. Quando sofrem alterações genéticas, começam a se multiplicar sem controle, formando uma massa (o tumor). Esse é o tipo mais comum de câncer de faringe, responsável por mais de 90% dos casos.

No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de faringe faz parte do grupo dos tumores de cabeça e pescoço, que é o quinto mais frequente entre os homens brasileiros. A cada ano, estima-se cerca de 10 mil novos casos desse grupo, sendo boa parte deles na faringe. Na minha prática, vejo muitos pacientes que chegam com queixas de “nó na garganta”, dificuldade para engolir ou rouquidão que não passa. Infelizmente, o diagnóstico tardio é comum, especialmente em pessoas com menor acesso a exames especializados – uma realidade que o SUS tenta enfrentar com a expansão da atenção básica e das referências para otorrinolaringologia.

Os principais fatores de risco que encontro nos consultórios são o tabagismo (cigarro, cachimbo) e o consumo excessivo de álcool. Mas, nos últimos anos, a infecção pelo papilomavírus humano (HPV) – principalmente o tipo 16 – tem se tornado uma causa crescente, especialmente em tumores da orofaringe (parte média da faringe). Por isso, a vacinação contra HPV, oferecida pelo SUS para meninos e meninas, é uma ferramenta importante de prevenção.

Como funciona / Características

O câncer de células escamosas da faringe se desenvolve de forma progressiva. No início, as células alteradas ficam restritas à camada superficial (in situ). Com o tempo, o tumor invade tecidos mais profundos, podendo obstruir a passagem de ar ou alimento, causar sangramentos e se espalhar para os linfonodos do pescoço (os “caroços” que a gente sente).

Na prática clínica, vejo pacientes que demoram meses para procurar ajuda. Um exemplo comum: seu João, 55 anos, lavrador, fumante há 30 anos e que bebe cerveja todo fim de semana. Ele começou com uma dor de garganta que não passava, achou que era “gripe”, usou remédios caseiros. Depois, passou a sentir um desconforto ao engolir, como se algo estivesse “entalado”. Quando veio à clínica, já tinha um caroço no pescoço. Exames mostraram um tumor na orofaringe com metástase para linfonodos. Esse é um retrato triste, mas real, da dificuldade de acesso e da falta de informação.

O tumor pode se manifestar em diferentes partes da faringe:

  • Nasofaringe (atrás do nariz): sintomas como obstrução nasal, sangramento, infecções de ouvido repetidas.
  • Orofaringe (atrás da boca, incluindo amígdalas e base da língua): dor de garganta persistente, dificuldade para engolir, sensação de corpo estranho, alteração na voz.
  • Hipofaringe (parte inferior, perto da laringe): rouquidão, dor ao engolir, desconforto no pescoço.

Uma característica importante é que o câncer de células escamosas da faringe pode ser associado ao HPV (principalmente na orofaringe) ou ao tabaco/álcool (mais comum nas outras regiões). Os tumores relacionados ao HPV tendem a ter melhor resposta ao tratamento e prognóstico mais favorável.

Tipos e Classificações

Para definir o melhor tratamento, os médicos usam classificações padronizadas. No Brasil, seguimos as diretrizes do INCA e do Ministério da Saúde, baseadas no sistema TNM:

  • T (tumor): tamanho e extensão local (T1 a T4).
  • N (node/linfonodo): se há comprometimento dos gânglios do pescoço (N0 a N3).
  • M (metástase): se há disseminação para outros órgãos (M0 ou M1).

Além disso, os tumores são classificados por localização anatômica (nasofaringe, orofaringe, hipofaringe) e pelo subtipo histológico (queratinizante, não queratinizante, etc.). A presença do HPV é determinada por imuno-histoquímica (marcador p16). No SUS, esses exames são realizados em laboratórios de patologia credenciados, e o resultado é essencial para decidir se o paciente vai se beneficiar mais de radioterapia, quimioterapia ou cirurgia.

Vale lembrar que a classificação é feita após exames como endoscopia digestiva alta com biópsia, tomografia computadorizada ou ressonância magnética do pescoço. Infelizmente, na atenção primária, muitos desses exames têm filas longas – o que reforça a importância de buscar atendimento precoce.

Quando procurar um médico

Se você ou alguém próximo apresentar qualquer um dos sinais abaixo por mais de duas a três semanas, é importante procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um clínico geral:

  • Rouquidão persistente, sem causa aparente (gripe, alergia).
  • Dor de garganta que não melhora com tratamentos comuns.
  • Dificuldade para engolir (disfagia), especialmente alimentos sólidos.
  • Sensação de “nó” ou “caroço” na garganta.
  • Dor de ouvido de um lado só, sem infecção local.
  • Aparecimento de um caroço (linfonodo) no pescoço, indolor ou não.
  • Perda de peso inexplicada, cansaço ou sangramento pela boca ou nariz.
  • Mau hálito persistente sem causa dentária.

Na consulta, o médico vai fazer uma história detalhada e examinar o pescoço e a garganta. Se houver suspeita, o encaminhamento para um otorrinolaringologista é feito pela regulação do SUS. Não deixe para depois – quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de cura e menos agressivo o tratamento.

Termos Relacionados

  • Carcinoma espinocelular – Outro nome para o câncer de células escamosas, muito usado por patologistas.
  • Faringe – Tubo muscular que conecta o nariz e a boca ao esôfago e à laringe; divide-se em nasofaringe, orofaringe e hipofaringe.
  • HPV (papilomavírus humano) – Vírus sexualmente transmissível que pode causar verrugas genitais e alguns tipos de câncer, incluindo o de orofaringe.
  • Disfagia – Dificuldade ou dor ao engolir; sintoma comum nesses tumores.
  • Linfonodo – Pequeno órgão do sistema linfático, popularmente chamado de “íngua”; é comum o câncer se espalhar para os do pescoço.
  • Endoscopia digestiva alta – Exame com uma câmera flexível que permite visualizar a faringe e o esôfago; pode colher biópsia.
  • Radioterapia – Tratamento que usa radiação para destruir células cancerosas; uma das principais opções no SUS.
  • Quimioterapia – Uso de medicamentos que matam células que se dividem rapidamente; pode ser combinada com radioterapia.

Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de células escamosas da faringe

1. Esse câncer tem cura?

Sim, tem cura, especialmente quando diagnosticado nos estágios iniciais. O tratamento pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou combinações. No SUS, o acesso a esses tratamentos é regulado, mas existem centros de referência em todo o país. A taxa de cura varia conforme o estágio: tumores pequenos (T1) podem ter mais de 80% de chance de controle, enquanto tumores avançados (T4) são mais desafiadores. O acompanhamento multidisciplinar é fundamental.

2. É contagioso?

Não. O câncer de células escamosas da faringe não é uma doença contagiosa. Porém, alguns fatores de risco associados, como o HPV, podem ser transmitidos por contato sexual. A vacinação contra HPV é uma forma de prevenção, mas o tumor em si não passa de pessoa para pessoa.

3. Quem tem mais risco de desenvolver?

Os principais grupos de risco são: homens


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