sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Câncer de células escamosas do colo do útero

O que é Câncer de células escamosas do colo do útero?

O câncer de células escamosas do colo do útero é o tipo mais comum de câncer que afeta a parte inferior do útero, chamada de colo do útero ou cérvix. Imagine o colo do útero como uma pequena “porta” entre a vagina e o corpo do útero. Esse câncer começa nas células finas e chatas (escamosas) que revestem a superfície externa do colo. Na prática clínica aqui no Brasil, especialmente no SUS e em clínicas populares, nós vemos muitos casos que poderiam ter sido evitados com o preventivo (Papanicolau) em dia.

Em 2023, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou cerca de 17 mil novos casos por ano no Brasil, com um risco de 13,25 casos a cada 100 mil mulheres. Trata-se do terceiro tumor mais frequente entre as mulheres brasileiras, perdendo apenas para o câncer de mama e o colorretal. O que mais me preocupa no dia a dia é que a maioria dos diagnósticos ainda ocorre em estágios avançados, principalmente em regiões com menor acesso ao rastreamento. A boa notícia é que, quando detectado precocemente, as chances de cura superam 90%.

O principal vilão é o papilomavírus humano (HPV), transmitido por via sexual. Quase todos os casos de carcinoma escamoso do colo do útero estão ligados a tipos oncogênicos do HPV, especialmente os tipos 16 e 18. No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, mas a adesão ainda é um desafio. Como médico de clínica popular, vejo que muitas pacientes desconhecem a relação entre HPV e câncer, e aí entra o nosso papel de educar.

Como funciona / Características

O câncer de células escamosas do colo do útero não surge de uma hora para outra. Ele tem uma longa fase pré-invasiva, chamada de neoplasia intraepitelial cervical (NIC), que pode durar anos. No consultório, explico para as pacientes como se fosse uma “ferida” que vai se transformando lentamente. O HPV infecta as células do colo, e na maioria das vezes o sistema imunológico elimina o vírus sozinho. Porém, em algumas mulheres, a infecção persiste e, ao longo do tempo, provoca alterações celulares que podem evoluir para um câncer invasivo.

Na prática, recebemos mulheres com resultados de preventivo alterados (lesão de alto grau) e encaminhamos para colposcopia e biópsia. Quando o câncer já está instalado, os sintomas mais comuns são sangramento vaginal após a relação sexual, entre as menstruações ou após a menopausa, corrimento com mau cheiro e, em fases mais avançadas, dor pélvica. Um exemplo real: uma paciente de 42 anos, três filhos, nunca tinha feito preventivo. Veio ao posto com sangramento há seis meses. Na colposcopia, já havia uma lesão vegetante no colo. A biópsia confirmou carcinoma escamoso invasor estágio IB. Ela foi encaminhada para o centro de oncologia e fez cirurgia e radioterapia. Hoje está curada, mas o diagnóstico precoce teria evitado todo o sofrimento.

O tratamento depende do estadiamento. Para lesões precursoras (NIC 2/3), fazemos excisão por cirurgia de alta frequência (CAF) ou conização. Para câncer invasor inicial, a histerectomia (retirada do útero) pode ser curativa. Já nos casos avançados, usamos radioterapia e quimioterapia. No SUS, o acesso ao tratamento é garantido pela Lei dos 60 dias (Lei 12.732/2012), que assegura início do tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Mas sabemos que na prática há filas e barreiras geográficas, especialmente no Norte e Nordeste.

Tipos e Classificações

O câncer de células escamosas do colo do útero é subdividido em subtipos histológicos, mas para a paciente o mais importante é entender a classificação por estágio. A Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) define os estágios, usados mundialmente e adotados no Brasil:

  • Estágio I: câncer limitado ao colo do útero. Subdividido em IA (microinvasivo, só visto ao microscópio) e IB (lesão visível a olho nu).
  • Estágio II: tumor ultrapassa o colo, mas não atinge a parede pélvica ou o terço inferior da vagina.
  • Estágio III: invasão da parede pélvica ou ureter (causando hidronefrose) ou compromete o terço inferior da vagina.
  • Estágio IV: invasão da bexiga ou reto (IVA) ou metástases a distância (IVB).

No Brasil, a classificação citológica de Bethesda (usada no laudo do preventivo) também é rotina. Ela divide as lesões em: ASC-US (células escamosas atípicas de significado indeterminado), LSIL (lesão intraepitelial de baixo grau) e HSIL (lesão de alto grau). HSIL é o que mais nos preocupa, pois tem maior risco de evolução para câncer.

Quando procurar um médico

No dia a dia, oriento minhas pacientes: não espere sintomas para fazer o preventivo. O exame deve ser feito anualmente por mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram ou têm vida sexual. Após dois exames normais consecutivos, pode-se espaçar para cada três anos, conforme recomendação do Ministério da Saúde.

Sinais de alerta que exigem procura imediata ao médico (UBS, clínica popular ou pronto-atendimento):

  • Sangramento vaginal após relação sexual, entre as menstruações ou após a menopausa.
  • Corrimento vaginal persistente, com odor fétido ou com sangue.
  • Dor pélvica ou na região lombar que não passa.
  • Dor durante a relação sexual (dispareunia).
  • Sangramento urinário ou fecal (em estágios avançados).

Se você tem resultado de preventivo com lesão de alto grau (HSIL) ou já com diagnóstico de NIC 2/3, o encaminhamento para colposcopia deve ser rápido. Na clínica popular, sempre agendo a paciente em até duas semanas. Não ignore os lembretes de retorno que a unidade de saúde envia.

Termos Relacionados

  • HPV (Papilomavírus Humano): Vírus sexualmente transmissível responsável por quase 100% dos casos de câncer de colo de útero. Existem mais de 200 tipos, mas os de alto risco (16 e 18) são os mais perigosos.
  • Preventivo (Papanicolau): Exame ginecológico que coleta células do colo do útero para detectar alterações precursoras do câncer. É a principal ferramenta de rastreio no SUS.
  • Colposcopia: Exame com um aparelho de aumento que permite visualizar o colo do útero e orientar biópsias. É o próximo passo após um preventivo alterado.
  • NIC (Neoplasia Intraepitelial Cervical): Lesões precursoras do câncer. Classificadas em NIC 1 (baixo grau), NIC 2 e NIC 3 (alto grau). Quanto maior o grau, maior o risco de progressão.
  • Conização: Procedimento cirúrgico que remove um cone do colo do útero contendo a lesão. É curativo para NIC 2/3 e também ajuda no diagnóstico de microinvasão.
  • Histerectomia radical: Cirurgia para remover o útero, colo e parte dos ligamentos, indicada para câncer invasor inicial. No SUS, é realizada em hospitais de referência.
  • Vacina HPV: Vacina quadrivalente (contra tipos 6, 11, 16 e 18) disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Previne cerca de 70% dos cânceres de colo de útero.
  • Estadiamento: Avaliação da extensão do câncer (I a IV) que define o tratamento e o prognóstico. Feito com exames de imagem como ressonância ou tomografia.

Perguntas Frequentes sobre o que é Câncer de células escamosas do colo do útero

1. Câncer de células escamosas do colo do útero tem cura?

Sim, tem cura, especialmente quando diagnosticado precocemente. Lesões precursoras (NIC) têm chance de cura de praticamente 100% com procedimentos simples como a conização. Para câncer invasor em estágio inicial (I e IIA), a cirurgia ou radioterapia curam cerca de 80-90% das pacientes. Mesmo em estágios avançados, o tratamento com radioterapia e quimioterapia pode controlar a doença por anos. O segredo é não perder o preventivo.

2. Quais são os primeiros sintomas do câncer de colo do útero?

Nos estágios iniciais, o câncer de colo do útero geralmente não causa sintomas. Por isso o preventivo é tão importante. Quando aparecem sintomas, os mais comuns são: sangramento vaginal leve após relação sexual, corrimento rosado ou com sangue, e sangramento entre as menstruações. Em fases mais avançadas, pode haver dor pélvica, perda de peso e sangramento abundante. Se você notar qualquer um desses sinais, marque uma consulta o mais rápido possível.

3. O que causa o câncer de células escamosas do colo do útero?

A causa principal é a infecção persistente pelo HPV de alto risco, especialmente os tipos 16 e 18. O HPV é transmitido sexualmente. Fatores que aumentam o risco incluem: início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros, tabagismo, uso prolongado de anticoncepcionais orais, baixa imunidade (como em HIV) e falta de exames preventivos regulares. Lembre-se: ter HPV não significa ter câncer. Na maioria das mulheres, o corpo elimina o vírus sozinho. O problema é quando a infecção persiste por muitos anos.

4. Como é feito o diagnóstico no SUS?

O diagnóstico começa na Unidade Básica de Saúde (UBS) com a coleta do preventivo (Papanicolau). Se o resultado mostrar alterações suspeitas (ASC-US, LSIL ou HSIL), a paciente é encaminhada para um serviço de referência para colposcopia e biópsia. O material da biópsia é analisado por um patologista. Todo esse fluxo é regulado pelas secretarias municipais de saúde. O tempo entre a suspeita e o diagnóstico definitivo pode variar, mas a lei garante tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Em clínicas populares, muitas vezes realizamos o preventivo e orientamos a paciente sobre a rede de encaminhamento.

5. Tem como prevenir o câncer de células escamosas do colo do útero?

Sim, a prevenção é altamente eficaz. As principais medidas são: vacina contra o HPV (disponível no SUS para meninos e meninas de 9 a 14 anos), uso de preservativo em todas as relações sexuais (embora não proteja totalmente, reduz o risco), e realização periódica do preventivo a partir dos 25 anos. O preventivo detecta lesões pré-cancerosas que podem ser tratadas antes de se transformarem em câncer. No Brasil, o rastreio organizado pelo Ministério da Saúde cobre mulheres de 25 a 64 anos. Não fume, pois o tabagismo duplica o risco de progressão do HPV para câncer.

6. A vacina contra HPV pode substituir o preventivo?

Não. A vacina contra o HPV é uma ferramenta poderosa de prevenção primária, mas não cobre todos os tipos oncogênicos do HPV (cobre os tipos 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos). Além disso, a vacina não trata infecções já existentes. Por isso, mesmo as mulheres vacinadas devem continuar fazendo o preventivo regularmente a partir dos 25 anos. A recomendação do Ministério da Saúde e da OMS é que a vacina seja associada ao rastreamento, não substituindo o exame.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.

Fontes confiáveis:


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