O que é Carcinoma basocelular?
O carcinoma basocelular (CBC) é o tipo mais comum de câncer de pele no Brasil e no mundo. Ele se origina nas células basais, que ficam na camada mais profunda da epiderme (a parte superficial da pele). Na prática do dia a dia, é frequente eu receber pacientes na clínica popular com uma “feridinha” no rosto, no nariz ou na orelha que não cicatriza há semanas ou meses. Muitas vezes, a pessoa acha que é uma espinha encravada, uma picada de inseto ou uma assadura que não melhora. O grande alerta é justamente essa lesão que persiste, sangra facilmente e forma uma crosta que cai e volta.
No Brasil, o carcinoma basocelular corresponde a cerca de 70% dos casos de câncer de pele do tipo não melanoma. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa para cada ano é de mais de 170 mil novos casos de câncer de pele não melanoma, sendo o mais incidente entre os brasileiros. A boa notícia é que esse tipo de tumor cresce lentamente, raramente se espalha para outros órgãos (metástase) e, quando tratado precocemente, tem altíssima chance de cura. No entanto, como ele pode invadir tecidos vizinhos e causar destruição local (especialmente em áreas como nariz, pálpebras e orelhas), o diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais para evitar mutilações e complicações.
No contexto do SUS, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento do carcinoma basocelular é garantido por meio da Atenção Primária (postos de saúde) e da rede de dermatologia e cirurgia ambulatorial. A maioria dos casos pode ser resolvida com uma pequena cirurgia em ambiente de centro cirúrgico ambulatorial, sem necessidade de internação. O encaminhamento para um dermatologista ou cirurgião de pele é feito pelo clínico geral da unidade básica, fortalecendo a linha de cuidado do câncer de pele no Brasil.
Como funciona / Características
Na consulta, explico ao paciente que o carcinoma basocelular é um tumor de crescimento lento e localmente invasivo. Ele não “pula” para outros órgãos como faz o melanoma, mas pode “comer” os tecidos ao redor, destruindo cartilagens, ossos e nervos se não for retirado. As características clínicas mais comuns são:
- Nódulo perolado: uma elevação brilhante, semelhante a uma pérola, com vasinhos sanguíneos finos visíveis (telangiectasias). Costuma surgir na face, principalmente no nariz, testa, bochechas e orelhas.
- Úlcera que não cicatriza: uma ferida aberta, que pode sangrar com facilidade, formar crosta e nunca fechar completamente.
- Lesão plana e descamativa: em alguns subtipos, o CBC aparece como uma mancha áspera, avermelhada ou acastanhada, que pode ser confundida com eczema ou psoríase.
- Cicatriz irregular: em pessoas de pele morena ou negra, o CBC pode se apresentar como uma área endurecida, brilhante e com perda da pigmentação.
No dia a dia da clínica popular, é comum eu ver pacientes que trabalham expostos ao sol (agricultores, pescadores, pedreiros, vendedores ambulantes) e que têm múltiplas lesões. Eles costumam dizer: “Doutor, essa casquinha no nariz vive caindo e voltando”. Esse é um clássico relato de CBC. Outro exemplo: uma senhora de 70 anos que usa chapéu todos os dias, mas tem uma lesão na pálpebra inferior que insiste em não sarar. Muitas vezes, os pacientes acham que é “machucado de óculos” ou “alergia”. Por isso, a avaliação médica, mesmo de um clínico geral atento, é essencial para suspeitar do diagnóstico e encaminhar corretamente.
O principal fator de risco é a exposição cumulativa à radiação ultravioleta (UV) do sol ao longo da vida. Pessoas de pele clara, olhos claros, cabelos ruivos ou loiros, e que se queimam facilmente têm maior risco. Outros fatores incluem: idade avançada, histórico de queimaduras solares na infância, uso de câmaras de bronzeamento artificial (proibidas no Brasil pela ANVISA), exposição a arsênio, radioterapia prévia e imunossupressão (como em transplantados).
Tipos e Classificações
Na prática clínica, usamos a classificação histológica (de acordo com o exame de microscopia após biópsia) para orientar o tratamento e o prognóstico. Os principais tipos de carcinoma basocelular são:
- Nodular (o mais comum): aquele nódulo perolado, com vasinhos, bem definido. Responde muito bem à cirurgia.
- Superficial: aparece como uma mancha vermelha e descamativa, geralmente no tronco. Pode ser tratado com cremes (como imiquimode) ou cirurgia.
- Infiltrativo ou morfeiforme: um tipo mais agressivo, que cresce “escondido” na pele, formando uma placa endurecida e mal delimitada. Exige margens cirúrgicas maiores e, às vezes, cirurgia micrográfica de Mohs (técnica especializada disponível em poucos centros, mas que no SUS pode ser realizada em serviços de referência).
- Ulcerado (clássico “ferida que não cicatriza”): pode surgir a partir de qualquer subtipo e já está em fase mais avançada, com invasão local.
- Pigmentado: contém melanina e pode ser confundido com melanoma. Em peles mais escuras, é mais frequente e exige cuidado no diagnóstico diferencial.
No Brasil, os dermatopatologistas seguem a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e as diretrizes da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Para o clínico geral, o importante é saber que qualquer lesão suspeita deve ser biopsiada para confirmar o tipo e planejar a abordagem.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico (clínico geral ou dermatologista) se notar qualquer lesão na pele que:
- Não cicatriza em 4 semanas
- Sangra facilmente, mesmo com pequenos traumas (como ao lavar o rosto)
- Muda de cor, tamanho ou forma ao longo do tempo
- Apresenta aspecto perolado, brilhante ou uma crosta que cai e volta
- Coça, arde ou dói
- Surge em áreas expostas ao sol (rosto, orelhas, couro cabeludo em calvos, ombros, dorso das mãos)
- É uma ferida que não fecha, especialmente em pessoas com mais de 50 anos e histórico de exposição solar
No SUS, o primeiro passo é agendar uma consulta no posto de saúde com o clínico geral. Ele fará o exame clínico e, se houver suspeita de carcinoma basocelular, encaminhará para o dermatologista da rede. A biópsia (retirada de um fragmento da lesão para análise) é feita no ambulatório de dermatologia, com anestesia local. Não precisa de jejum nem de internação. Após o diagnóstico, o tratamento cirúrgico é agendado e realizado em centro cirúrgico ambulatorial, também com anestesia local. O paciente retorna no mesmo dia para casa. Todo esse fluxo é coberto pelo SUS.
Não ignore uma lesão suspeita. Quanto antes o diagnóstico, menor a chance de cicatrizes extensas, deformidades e tratamentos mais complexos.
Termos Relacionados
- Câncer de pele não melanoma: termo que engloba o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular (outro tipo comum). Juntos, representam a maioria dos cânceres de pele no Brasil.
- Melanoma: tipo de câncer de pele mais agressivo, originado nos melanócitos (células que produzem pigmento). Embora menos comum, é o mais perigoso. O CBC não se transforma em melanoma.
- Queratose actínica: lesão pré-cancerosa, áspera e descamativa, causada pelo sol. Não é câncer, mas pode evoluir para carcinoma espinocelular. O CBC não surge diretamente dela.
- Dermatoscopia: exame rápido e indolor feito com um aparelho de aumento (dermatoscópio) que permite ao dermatologista visualizar estruturas profundas da pele. Ajuda a diferenciar CBC de outras lesões benignas.
- Biópsia de pele: procedimento simples, com anestesia local, em que se retira um pequeno fragmento da lesão para análise no microscópio. É o padrão-ouro para confirmar o diagnóstico.
- Margem cirúrgica: faixa de pele saudável ao redor do tumor que é retirada junto com a lesão para garantir que não restem células cancerosas. No CBC, geralmente de 3 a 5 mm.
- Curetagem e eletrocoagulação: técnica usada para CBCs pequenos e superficiais, em que se raspa a lesão com uma cureta e se cauteriza a base com corrente elétrica. Comum em consultórios dermatológicos, inclusive no SUS.
- Imiquimode: creme imunomodulador usado para tratar CBCs superficiais, principalmente em pacientes que não podem ou não desejam fazer cirurgia. Disponível no SUS por meio de protocolos específicos.
Perguntas Frequentes sobre Carcinoma basocelular
O carcinoma basocelular tem cura?
Sim, o carcinoma basocelular tem altíssima taxa de cura, especialmente quando diagnosticado e tratado precocemente. A remoção cirúrgica completa (com margens livres) resolve praticamente 100% dos casos. Mesmo em lesões mais avançadas, o tratamento adequado (cirurgia ampliada, radioterapia ou medicações tópicas) pode curar a doença. É raro que o CBC leve à morte, exceto em situações extremamente negligenciadas, com invasão de estruturas vitais.
Precisa de quimioterapia?
Na grande maioria dos casos, não. O tratamento padrão é a cirurgia local. A quimioterapia sistêmica (comprimidos ou veia) só é considerada em casos muito raros de CBC metastático, o que é excepcional. Em alguns pacientes com tumores extensos ou que não podem operar, podem ser usadas terapias-alvo (como vismodegibe) disponíveis no SUS por meio de protocolos de medicamentos de alto custo. Consulte o dermatologista para saber a melhor opção para o seu caso.
O carcinoma basocelular é contagioso?
Não. O carcinoma basocelular é um câncer de pele que não se transmite de pessoa para pessoa. Não há qualquer risco de contágio pelo toque, pelo ar ou por compartilhar objetos. É uma doença causada por danos acumulados nas células da própria pessoa, principalmente pela exposição ao sol.
Depois de retirado, o CBC pode voltar?
Sim, há risco de recidiva local, ou seja, o tumor pode crescer novamente no mesmo local se não foi completamente removido (margens comprometidas). Por isso, a cirurgia deve ser feita com controle de margens. Além disso, pacientes que já tiveram um CBC têm maior risco de desenvolver novos tumores em outras áreas da pele. Por isso, é fundamental fazer acompanhamento regular com o dermatologista e proteger-se do sol.
Qual a diferença entre carcinoma basocelular e melanoma?
O carcinoma basocelular é o câncer de pele mais comum e menos agressivo. Ele cresce devagar, raramente dá metástase e tem alta chance de cura. O melanoma é mais raro, mas muito mais perigoso: pode se espal


