quarta-feira, maio 27, 2026

O que é Coração artificial

O que é O que é Coração artificial?

O coração artificial é um dispositivo mecânico implantável que substitui total ou parcialmente a função de bombeamento do coração humano, mantendo a circulação sanguínea e oxigenação dos órgãos vitais. Na prática clínica do SUS e de clínicas populares brasileiras, ele é indicado principalmente para pacientes com insuficiência cardíaca avançada (estágio D) que não respondem mais aos medicamentos e que aguardam um transplante cardíaco (chamado de “ponte para transplante”) ou, em casos selecionados, como tratamento definitivo quando o transplante não é possível.

No Brasil, a insuficiência cardíaca atinge cerca de 2 milhões de pessoas, sendo uma das principais causas de hospitalização no SUS, segundo dados do Ministério da Saúde. A cada ano, aproximadamente 25 mil pacientes necessitam de transplante cardíaco, mas apenas uma pequena parcela consegue doador compatível em tempo hábil. O coração artificial surge como uma alternativa para reduzir a fila de espera e a mortalidade. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regula o registro e a fiscalização desses dispositivos, garantindo padrões de segurança. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também orienta a prática por meio de resoluções específicas, como a que estabelece os critérios para implante em hospitais habilitados.

Na rotina de uma clínica popular, não realizamos o implante — esse é feito em centros terciários de alta complexidade, como hospitais universitários e institutos de cardiologia credenciados pelo SUS. No entanto, acompanhamos os pacientes na pré e pós-alta: ajustes de medicação, monitoramento de anticoagulação (já que o dispositivo exibe risco de coágulos) e manejo de complicações como infecções. Por isso, o médico generalista precisa reconhecer os sinais de insuficiência cardíaca refratária e encaminhar corretamente. É comum ouvir familiares perguntarem: “Doutor, meu parente vai ganhar um coração de plástico?”. Explicar de forma clara e humanizada o que é o coração artificial é parte do nosso ofício.

Como funciona / Características

O princípio básico é simples: uma bomba mecânica (geralmente centrífuga ou de diafragma) retira o sangue do ventrículo esquerdo ou de ambas as câmaras cardíacas e o impulsiona para a aorta, mantendo a pressão e o fluxo adequados. O dispositivo é conectado a uma fonte de energia externa (baterias recarregáveis) que o paciente carrega em uma bolsa ou mochila, e um cabo transcutâneo atravessa a pele até o motor interno. A tecnologia mais usada atualmente são os dispositivos de assistência ventricular esquerda (DAVE), que auxiliam apenas o lado esquerdo; já o coração artificial total substitui os dois ventrículos.

Na prática clínica, o que mais vejo como médico do SUS são os DAVEs pulsáteis ou de fluxo contínuo. Os modernos são pequenos, silenciosos e permitem que o paciente realize atividades leves do dia a dia, como caminhar e tomar banho (com cuidados especiais para o cabo). A bateria dura em média 8 a 12 horas, e o paciente precisa recarregá‑la diariamente. Exames de controle como ecocardiograma e hemograma são feitos periodicamente. Uma característica crucial é o uso de anticoagulantes (varfarina ou rivaroxabana) para evitar trombose no dispositivo, o que exige monitoramento frequente do INR no SUS.

Uma cena comum na clínica popular: o paciente chega com a “mochilinha” do coração artificial, e muitos confundem o cabo com uma sonda. Expliquei que aquele fio fino é a “tomada” que mantém o coração funcionando enquanto o dele próprio está descansando. A adaptação psicológica é tão importante quanto a parte técnica – muitos relatam medo de dormir e não acordar se a bateria acabar. Por isso, enfatizamos o suporte da equipe multidisciplinar e o treinamento do cuidador.

Tipos e Classificações

No Brasil, os corações artificiais são classificados de acordo com a função e o tempo de uso. Os principais tipos são:

  • Dispositivo de Assistência Ventricular Esquerda (DAVE): auxilia apenas o ventrículo esquerdo, responsável por bombear sangue para o corpo. É o mais usado como ponte para transplante. Exemplos: HeartMate III, HVAD (aprovados pela ANVISA).
  • Dispositivo de Assistência Biventricular (BiVAD): suporta ambos os ventrículos, indicado quando o coração direito também falha. Mais complexo e de maior risco.
  • Coração Artificial Total (CAT): substitui completamente o coração nativo, que é removido cirurgicamente. É menos comum, utilizado em casos de insuficiência biventricular irreversível ou cardiomiopatia restritiva. Exemplo: CardioWest (SynCardia).
  • Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO): não é um coração artificial propriamente dito, mas um suporte temporário (dias a semanas) que oxigena o sangue fora do corpo; usado em emergências até a decisão por um implante definitivo.
  • Balão Intra‑aórtico (BIA): um balão que infla e desinfla sincronizado com o batimento cardíaco, aumentando a perfusão coronariana – é temporário, geralmente usado em choque cardiogênico.

A classificação também leva em conta o fluxo (pulsátil vs. contínuo). Os modelos mais modernos são de fluxo contínuo, mais duráveis e com menos complicações. O SUS incorpora esses dispositivos por meio de protocolos específicos, e os hospitais habilitados devem seguir as diretrizes do Programa Nacional de Transplantes.

Quando procurar um médico

Na minha experiência, muitos pacientes chegam ao consultório com sintomas de insuficiência cardíaca avançada e não sabem que podem se beneficiar de um coração artificial. Os sinais de alerta que exigem avaliação médica urgente são:

  • Falta de ar intensa e progressiva, mesmo em repouso ou com mínimos esforços (como andar até o banheiro).
  • Inchaço nas pernas, tornozelos ou abdômen (edema) que não melhora com repouso ou diuréticos.
  • Fadiga extrema, tontura ao levantar ou desmaios frequentes, indicando baixo débito cardíaco.
  • Palpitações, dor no peito ou sensação de “coração saindo pela boca”.
  • Piora da função renal ou necessidade de internações repetidas por descompensação cardíaca.
  • Para quem já tem o dispositivo implantado: febre, vermelhidão no local do cabo, secreção ou alteração no funcionamento do equipamento (bipes de alarme, queda na vazão).

Oriento sempre: não espere a falta de ar ficar insuportável. Todo paciente com insuficiência cardíaca classe III ou IV (NYHA) deve ser encaminhado para um centro de referência em coração artificial. O SUS dispõe de ambulatórios especializados e, se houver critérios, a cirurgia pode ser autorizada via Central de Transplantes.

Termos Relacionados

  • Insuficiência Cardíaca Avançada – estágio em que o coração não consegue bombear sangue suficiente, mesmo com medicamentos, e que pode levar à indicação de coração artificial.
  • Transplante Cardíaco – substituição do coração doente por um órgão de doador falecido; o coração artificial muitas vezes é usado como ponte para esse transplante.
  • Ponte para Transplante (Bridge to Transplant) – uso do dispositivo para manter o paciente vivo até que um coração compatível esteja disponível.
  • Terapia de Destino (Destination Therapy) – quando o coração artificial é implantado como tratamento definitivo, sem perspectiva de transplante (comum em idosos ou com contraindicações).
  • Anticoagulação – uso de medicamentos para prevenir coágulos dentro do dispositivo, fundamental no acompanhamento.
  • Ecocardiograma – exame de ultrassom que avalia a função cardíaca e o posicionamento do dispositivo.
  • Centro de Alta Complexidade em Cardiologia (CAC) – hospital credenciado pelo SUS para realizar implantes de coração artificial e transplantes.
  • Choque Cardiogênico – condição grave de baixo fluxo sanguíneo que pode exigir suporte mecânico imediato como ECMO ou DAVE.

Perguntas Frequentes sobre O que é Coração artificial

Quanto tempo uma pessoa pode viver com um coração artificial?

A sobrevida depende de vários fatores: tipo do dispositivo, estado geral do paciente, adesão ao tratamento e complicações. Dados internacionais mostram que com os DAVEs modernos, cerca de 70‑80% dos pacientes sobrevivem um ano, e 50‑60% chegam a cinco anos. No Brasil, o tempo de espera por transplante pode ser longo, e o coração artificial permite que o paciente viva por anos com boa qualidade. Conheci pacientes que ficaram mais de 3 anos com o dispositivo até receberem o transplante. A sobrevida média como terapia de destino também é de 2 a 4 anos, mas há relatos de 7 anos ou mais com cuidados intensivos.

É possível ter uma vida normal com coração artificial?

Sim, dentro de certos limites. A maioria dos pacientes consegue realizar atividades cotidianas como alimentar‑se, tomar banho (com cuidado para não molhar o curativo do cabo), caminhar e até trabalhar em funções leves. Atividades físicas intensas, esportes de contato e mergulho são desaconselhados. A liberdade é relativa, pois o paciente depende das baterias e precisa estar sempre atento aos alarmes. Muitos retomam a vida social, viajam (com planejamento de recarga) e sentem grande melhora na falta de ar. Na clínica, oriento que a adaptação emocional é tão importante quanto a técnica – o apoio da família e do psicólogo faz diferença.

O SUS cobre o implante de coração artificial?

Sim, o SUS oferece o implante de coração artificial para pacientes elegíveis, como parte do Programa Nacional de Transplantes. O procedimento é realizado em hospitais de alta complexidade credenciados. O paciente deve ser avaliado por uma equipe multidisciplinar e atender a critérios clínicos (insuficiência cardíaca avançada, ausência de contraindicações). A cirurgia e o dispositivo são financiados pelo SUS. Contudo, o acesso ainda é limitado pela capacidade dos centros e pelo custo elevado. A lista de espera pode ser longa, e a decisão é centralizada na Central de Transplantes do estado.

Quais são os principais riscos e complicações?

As complicações mais frequentes são: infecções no local de saída do cabo (a taxa chega a 20‑30%), sangramentos (pelo uso de anticoagulantes), formação de coágulos no dispositivo (que podem causar derrames), falha mecânica do equipamento (embora rara) e problemas psicológicos (ansiedade, depressão). Também há risco de insuficiência cardíaca direita, que pode piorar após o implante. Por isso, o acompanhamento rigoroso no SUS, com exames periódicos e suporte de uma equipe treinada, é crucial para minimizar riscos.

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