O que é O que é Dissecção aórtica?
A Dissecção aórtica é uma emergência médica grave que ocorre quando a parede da aorta — a maior artéria do corpo, responsável por levar sangue do coração para todo o organismo — sofre uma ruptura na camada mais interna (íntima). Esse rasgo permite que o sangue entre entre as camadas da parede arterial, forçando a separação (dissecção) das túnicas íntima e média. O sangue passa a circular dentro da própria parede, formando um “falso lúmen” que pode comprimir a passagem verdadeira e comprometer o fluxo para órgãos vitais, além de provocar risco iminente de ruptura total da aorta.
Na minha experiência de 15 anos no SUS e em clínicas populares do Brasil, atendi diversos pacientes com hipertensão arterial não controlada que, infelizmente, desenvolveram essa condição. O Brasil tem uma das maiores prevalências de hipertensão do mundo — cerca de 30% dos adultos, segundo dados do Ministério da Saúde — e a Dissecção aórtica está diretamente relacionada ao mal controle da pressão. Em clínicas populares, o grande desafio é que muitos pacientes abandonam o tratamento anti-hipertensivo por falta de acesso ou informação, o que acaba levando a complicações fatais como essa. A doença é mais frequente em homens entre 50 e 70 anos, mas também pode ocorrer em mulheres, especialmente durante a gestação (devido a alterações hormonais e hemodinâmicas).
No contexto do SUS, a Dissecção aórtica exige atendimento de urgência em hospitais com capacidade para cirurgia cardíaca e exames de imagem como angiotomografia. O diagnóstico precoce é crucial, mas infelizmente a taxa de mortalidade ainda é alta — cerca de 1 a 2% por hora nas primeiras horas sem intervenção. A Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que qualquer dor torácica súbita, intensa e com sensação de rasgamento seja investigada imediatamente. Como clínico, oriento que pacientes hipertensos mantenham acompanhamento regular e não negligenciem sintomas atípicos.
Como funciona / Características
Para entender o mecanismo, imagine a aorta como um encanamento com três camadas: a interna (íntima) lisa, a média (com fibras musculares e elásticas) e a externa (adventícia). Na Dissecção aórtica, uma fissura na íntima permite que o sangue arterial, sob alta pressão, se infiltre entre a íntima e a média, criando um segundo canal (falso lúmen) que corre paralelo ao canal verdadeiro. Esse falso lúmen pode se estender ao longo da aorta e de seus ramos, comprimindo ou ocluindo artérias que irrigam o cérebro, os rins, o intestino e as pernas.
No cotidiano de uma clínica popular, frequentemente vejo pacientes que chegam com queixas de dor torácica súbita e lancinante, descrita como “algo rasgando por dentro” ou “a pior dor da vida”. A dor pode migrar para as costas, abdômen ou pescoço conforme a dissecção avança. Outros sinais importantes são: diferença de pressão arterial entre os braços (mais de 20 mmHg), pulso fraco ou ausente em um dos membros, sintomas neurológicos (como AVC) e síncope (desmaio). Muitos pacientes hipertensos crônicos consideram a dor “normal” e demoram a buscar ajuda, o que piora o prognóstico.
Nas emergências do SUS, o protocolo inclui exame físico minucioso, medição da pressão nos quatro membros, eletrocardiograma (para descartar infarto) e, se houver suspeita, angiotomografia de tórax com contraste. A Dissecção aórtica é uma corrida contra o tempo: cada hora sem tratamento reduz as chances de sobrevivência. Por isso, a educação do paciente e a capacitação dos profissionais da atenção básica são essenciais para identificar sinais precoces.
Tipos e Classificações
No Brasil, usamos principalmente a classificação de Stanford, que divide a Dissecção aórtica em dois tipos, com implicações diretas no tratamento:
- Tipo A: envolve a aorta ascendente (a porção que sobe do coração). É o tipo mais grave, porque pode comprometer as artérias coronárias (causando infarto), a válvula aórtica (provocando insuficiência) ou o saco pericárdico (causando tamponamento cardíaco). O tratamento é cirúrgico de urgência. No SUS, essas cirurgias são realizadas em centros de referência como o Instituto do Coração (InCor) em São Paulo e hospitais universitários.
- Tipo B: não afeta a aorta ascendente, apenas a aorta descendente (após a saída dos vasos da cabeça e braços). Costuma ser manejada clinicamente com controle rigoroso da pressão (betabloqueadores e vasodilatadores) e, apenas em casos complicados (como ruptura ou isquemia de órgãos), cirurgia ou stent.
Outra classificação é a DeBakey, que divide em três tipos (I, II e III), mas a Stanford é mais usada na prática por sua simplicidade e utilidade clínica. A angiotomografia com contraste é o exame padrão‑ouro para definir o tipo e planejar a abordagem.
Quando procurar um médico
Você deve procurar imediatamente uma emergência (UPA ou pronto‑socorro) se apresentar algum dos seguintes sinais:
- Dor torácica súbita, intensa e com sensação de rasgamento, que pode irradiar para as costas, pescoço ou abdômen;
- Diferença de pressão arterial entre o braço direito e esquerdo, ou entre braços e pernas;
- Desmaio (síncope) acompanhado de dor ou sem causa aparente;
- Sintomas neurológicos como fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar ou perda súbita de visão;
- Falta de ar ou rouquidão repentina (por compressão de estruturas vizinhas);
- Histórico de hipertensão não controlada ou doenças do tecido conjuntivo (como Síndrome de Marfan).
Nunca espere em casa ou tome medicamentos por conta própria. A Dissecção aórtica não melhora com analgésicos comuns. Ligue para o SAMU (192) ou peça para alguém levar você ao hospital. Na clínica popular, sempre reforço que, diante de uma “dor forte no peito que não passa”, o mais seguro é ir direto ao pronto‑socorro, mesmo que pareça exagero. O tempo perdido pode custar a vida.
Termos Relacionados
- Aneurisma de aorta — dilatação localizada da parede da artéria. É diferente da dissecção, mas pode predispor a ela.
- Hipertensão arterial sistêmica — principal fator de risco. Pressão alta não controlada fragiliza a parede da aorta.
- Síndrome de Marfan — doença genética que afeta o tecido conjuntivo e aumenta o risco de dissecção aórtica.
- Angiotomografia de tórax — exame de imagem com contraste que confirma o diagnóstico e classifica o tipo de dissecção.
- Tamponamento cardíaco — complicação em que sangue extravasa para o pericárdio e comprime o coração, podendo levar à parada cardíaca.
- Síncope — desmaio súbito, que na dissecção aórtica pode ocorrer por hipotensão ou por comprometimento do fluxo cerebral.
- Cirurgia de Bentall — procedimento cirúrgico usado para tratar dissecção tipo A, substituindo a aorta ascendente e a válvula aórtica.
- Betabloqueadores — medicamentos usados no tratamento clínico da dissecção tipo B para reduzir a frequência cardíaca e a pressão arterial.
Perguntas Frequentes sobre O que é Dissecção aórtica
O que causa a dissecção aórtica?
O principal fator é a hipertensão arterial não controlada, que submete a parede da aorta a uma pressão constante e elevada, enfraquecendo as camadas. Outras causas incluem doenças genéticas (como a Síndrome de Marfan e a síndrome de Ehlers‑Danlos), trauma torácico (acidentes de carro, quedas), inflamações da aorta (arterite) e uso de drogas como cocaína, que elevam bruscamente a pressão. Em mulheres grávidas, as alterações hormonais e o aumento do volume sanguíneo também podem desencadear a dissecção.
A dissecção aórtica é hereditária?
Em parte, sim. Embora a maioria dos casos não tenha causa genética direta, condições hereditárias como a Síndrome de Marfan aumentam muito o risco. Se você tem histórico familiar de dissecção aórtica ou de doenças do colágeno, é importante fazer acompanhamento com cardiologista e exames de imagem para avaliar o diâmetro da aorta. O SUS oferece aconselhamento genético em alguns centros especializados.
Tem cura? Qual o tratamento?
Sim, tem tratamento e pode ser curada se diagnosticada a tempo. O tipo A exige cirurgia de emergência para reparar a aorta. O tipo B pode ser tratado clinicamente com medicamentos para controlar a pressão e


