O que é O que é Distrofia simpático-reflexa?
A Distrofia simpático-reflexa – também chamada de síndrome dolorosa regional complexa (SDRC) tipo 1 – é uma condição de dor crônica que surge geralmente após uma lesão (fratura, entorse, cirurgia, imobilização prolongada) ou, menos frequentemente, sem um motivo aparente. Na prática do dia a dia em clínicas populares e no SUS, o que vejo com frequência é o paciente que “quebrou o braço”, ficou de gesso, e depois que o gesso saiu a dor não passou – pelo contrário, ela se intensificou, o braço inchou, ficou quente ou frio demais, e até o toque de uma roupa provoca sofrimento. A dor crônica tratada no Brasil afeta cerca de 30% da população adulta, e a distrofia simpático-reflexa representa uma parcela ainda subdiagnosticada, especialmente nas regiões com menor acesso a especialistas.
O mecanismo é complexo: o sistema nervoso simpático (aquele que controla funções involuntárias, como circulação e suor) fica “desregulado” e começa a enviar sinais de dor mesmo sem que haja uma lesão ativa. No SUS, o diagnóstico é essencialmente clínico – não existe um exame de sangue ou de imagem que feche o diagnóstico com certeza – e muitas vezes o paciente percorre vários médicos até que alguém suspeite da condição. Nos ambulatórios de ortopedia e reumatologia das capitais, a prevalência estimada é de 5 a 20% após fraturas de punho, tornozelo ou cirurgias ortopédicas, mas em cidades menores e clínicas populares o número real é desconhecido por falta de registros específicos no Ministério da Saúde.
O tratamento precoce é fundamental. Quanto mais cedo se identifica a Distrofia simpático-reflexa, maiores as chances de controle da dor e recuperação da função. Infelizmente, o atraso no diagnóstico é comum – em média, seis meses a um ano – o que leva a atrofia muscular, rigidez articular e sofrimento desnecessário. Como médico que atende nas clínicas populares de Fortaleza, vejo mães que deixam de trabalhar para cuidar do filho com a síndrome, idosos que abandonam a fisioterapia por falta de recursos e jovens que se sentem incompreendidos porque “não tem nada no exame”. Por isso, a informação clara e o acolhimento são tão importantes quanto o tratamento.
Como funciona / Características
O paciente com Distrofia simpático-reflexa descreve uma dor em queimação ou fisgada que não passa com analgésicos comuns. A região afetada (mão, punho, pé, joelho) pode apresentar inchaço (edema), alteração de temperatura (mais quente ou mais fria que o outro lado), sudorese excessiva ou, ao contrário, pele muito seca, e mudanças na cor (avermelhada, arroxeada, pálida). No consultório, um sinal clássico é o paciente não tolerar que a roupa toque a pele ou mesmo o exame com o estetoscópio.
No dia a dia da clínica, vejo três situações típicas:
- Pós-fratura: um paciente que fraturou o punho, o gesso foi retirado há três meses, a radiografia mostra consolidação perfeita, mas ele não consegue fechar a mão e a dor é incapacitante.
- Pós-cirurgia: após uma cirurgia de túnel do carpo ou hérnia de disco, a dor se espalha para além da área operada e vem acompanhada de inchaço e rigidez.
- Sem causa clara: uma paciente que relata que “o braço começou a doer do nada” após um pequeno esbarrão. O exame neurológico é normal, mas o membro está frio e com manchas.
A evolução é dividida em estágios (agudo, distrófico e atrófico), mas nem todo paciente progride para o estágio final se tratado adequadamente. No estágio agudo (primeiros 3 meses), o edema e a vermelhidão predominam. No distrófico (3 a 12 meses), a pele fica fina e brilhante, e as unhas quebradiças. No atrófico (>12 meses), a atrofia muscular e a contratura se instalam, tornando a reabilitação muito mais difícil.
Tipos e Classificações
No Brasil, a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) utiliza o código M89.0 – Algodistrofia simpático-reflexa para registrar a condição. Já a classificação mais aceita internacionalmente é:
- Tipo 1 (Distrofia simpático-reflexa clássica): sem lesão de nervo periférico identificada. Corresponde a cerca de 90% dos casos.
- Tipo 2 (Causalgia): quando há uma lesão clara de um nervo (por exemplo, após ferimento cortante ou cirurgia). A dor costuma ser ainda mais intensa e localizada no território do nervo.
Além disso, os protocolos do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (SBED) recomendam a avaliação baseada nos critérios de Budapest (sensibilidade, vasomotores, sudomotores, edema e motor/trófico). Na prática, o médico pergunta: “Sua pele muda de cor? Ela fica mais quente? Você sua mais nessa região? O movimento está limitado?” – são respostas simples que ajudam a fechar o diagnóstico.
Quando procurar um médico
Sinais de alerta que não podem ser ignorados:
- Dor persistente após uma lesão que já deveria estar curada (fratura consolidada, cirurgia com boa evolução).
- Inchaço, calor ou frio local que não melhora com repouso e gelo.
- Alterações na cor da pele (avermelhada, arroxeada, pálida) ou no suor (excessivo ou ausente).
- Dificuldade para movimentar o membro


