sexta-feira, junho 12, 2026

O que é O que é Aterosclerose mesentérica

O que é Aterosclerose mesentérica?

A aterosclerose mesentérica é uma condição na qual placas de gordura, colesterol e outras substâncias se acumulam nas paredes das artérias que levam sangue para o intestino (artérias mesentéricas). Com o tempo, essas placas endurecem e estreitam os vasos, reduzindo o fluxo sanguíneo para o abdômen. Pense como se fosse um cano entupido por gordura: a água passa com dificuldade. No nosso corpo, esse “entupimento” pode causar dor abdominal crônica, principalmente depois das refeições, e em casos graves levar à morte do tecido intestinal.

Na minha prática de 15 anos entre o SUS e clínicas populares, vejo que muitos pacientes idosos, especialmente os que têm diabetes, hipertensão arterial, colesterol alto ou são tabagistas, chegam com queixas de “dor na boca do estômago” ou “má digestão frequente” e acabam sendo tratados para gastrite por meses antes de um diagnóstico correto. No Brasil, a prevalência da aterosclerose mesentérica é difícil de precisar, pois muitos casos ficam assintomáticos ou são confundidos com outros problemas. Dados do Ministério da Saúde indicam que a doença arterial periférica (que inclui as artérias mesentéricas) afeta cerca de 15% das pessoas com mais de 70 anos, especialmente em regiões com alta taxa de obesidade e sedentarismo, como nas grandes cidades e no Nordeste brasileiro.

É fundamental entender que a aterosclerose mesentérica não é uma doença isolada — é uma manifestação da aterosclerose geral do corpo. Quem tem placas nas artérias do coração (infarto) ou nas pernas (obstrução arterial) tem grande chance de também ter nas artérias mesentéricas. Por isso, no SUS, quando um paciente apresenta fatores de risco cardiovasculares e dor abdominal crônica, a equipe de atenção primária deve considerar essa hipótese e solicitar exames como o Doppler de artérias mesentéricas, disponível na rede pública mediante encaminhamento para serviços de referência em angiologia ou cirurgia vascular.

Como funciona / Características

O intestino precisa de sangue rico em oxigênio para funcionar bem. As duas principais artérias que fazem esse trabalho são a artéria mesentérica superior e a artéria mesentérica inferior. Na aterosclerose mesentérica, placas de gordura (ateromas) se formam dentro dessas artérias, estreitando a passagem do sangue. O resultado é uma “fome” de oxigênio no intestino, chamada de isquemia mesentérica.

O sintoma mais comum é a dor abdominal após comer. Isso acontece porque a digestão exige mais sangue para o intestino. Com a artéria estreita, o fluxo não aumenta o suficiente, causando dor em cólica ou queimação no meio da barriga, cerca de 30 minutos a 2 horas após as refeições. Muitos pacientes aprendem a comer menos para evitar a dor e acabam perdendo peso sem motivo aparente. É o que eu vejo na clínica: Dona Maria, 68 anos, diabética, chega dizendo “doutor, emagreci 8 quilos nos últimos 3 meses, mas não estou de regime. Depois do almoço sinto uma dor chata, que passa sozinha depois de um tempo”. Exames de sangue mostram anemia leve e colesterol alto. O Doppler das artérias mesentéricas confirma estenose (estreitamento) de 70% na artéria mesentérica superior.

Outras características incluem medo de comer (sitofobia), sensação de estufamento, náuseas e, em estágios avançados, diarreia ou constipação. É importante diferenciar a forma crônica (que evolui lentamente) da forma aguda (que é uma emergência). Na isquemia mesentérica aguda, o bloqueio é súbito — geralmente por um coágulo — e causa dor abdominal intensa e contínua, com vômitos e sangue nas fezes. Essa situação requer atendimento hospitalar imediato, com risco de perfuração intestinal e morte. Felizmente, a maioria dos casos diagnosticados em clínicas populares é da forma crônica, onde o paciente tem tempo para ser avaliado e tratado no SUS.

Tipos e Classificações

A aterosclerose mesentérica pode ser classificada clinicamente em dois grandes grupos:

  • Isquemia mesentérica crônica (ou angina mesentérica): é a forma mais comum, causada pelo estreitamento gradual das artérias. Os sintomas aparecem e pioram ao longo de meses ou anos. É o tipo que vemos em ambulatórios de clínica geral e cardiologia.
  • Isquemia mesentérica aguda: ocorre quando uma placa se rompe ou um coágulo entope totalmente uma artéria. É uma emergência cirúrgica. No SUS, os hospitais de grande porte com serviço de cirurgia vascular são referência para esse atendimento.

Do ponto de vista do grau de estreitamento, os médicos usam a classificação por Doppler ou angiotomografia:

  • Estenose leve: menos de 50% de estreitamento. Geralmente assintomática, mas fator de alerta para progressão.
  • Estenose moderada: entre 50% e 70%. Pode causar sintomas após refeições grandes.
  • Estenose grave: acima de 70%. Sintomas frequentes e risco de evolução para isquemia aguda.

No Brasil, o CFM e a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) recomendam que todo paciente com suspeita de aterosclerose mesentérica seja submetido a um exame de imagem vascular não invasivo (Doppler ou angiotomografia) antes de qualquer intervenção. Não existe um protocolo nacional específico, mas as diretrizes do Ministério da Saúde para doença arterial obstrutiva periférica incluem as artérias mesentéricas.

Quando procurar um médico

Na rotina de uma clínica popular oriento os pacientes a procurarem atendimento médico se apresentarem qualquer um dos seguintes sinais de alerta:

  • Dor abdominal que aparece sempre depois de comer e melhora em jejum ou algumas horas após a refeição.
  • Perda de peso inexplicada (5% ou mais do peso corporal em 6 meses) associada a dor pós-prandial.
  • Sangue nas fezes (vivo ou escuro), vômitos com sangue ou fezes pretas (melena) — isso sugere isquemia aguda e requer emergência.
  • Dor abdominal súbita e intensa, que não passa, acompanhada de náuseas, vômitos ou distensão abdominal — vá ao pronto-socorro imediatamente.

No SUS, o primeiro passo é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico generalista vai ouvir sua história, fazer exame físico e solicitar exames iniciais como hemograma, colesterol e glicemia. Se houver suspeita de aterosclerose mesentérica, ele encaminhará para um angiologista ou cirurgião vascular no serviço de referência. Pacientes com diagnóstico confirmado e sintomas controlados podem ser acompanhados na atenção primária, com foco no controle dos fatores de risco (dieta, exercício, medicações para colesterol e diabetes). Já os casos graves ou com risco de isquemia aguda são encaminhados para hospitais de média e alta complexidade.

Termos Relacionados

  • Aterosclerose: doença inflamatória crônica que leva ao acúmulo de placas de gordura nas artérias de todo o corpo, incluindo as mesentéricas.
  • Isquemia mesentérica: falta de oxigênio no intestino causada pela