Necrotomia: Procedimento, Indicações e Recuperação
No Brasil, estima-se que ocorram cerca de 1 milhão de casos de queimaduras por ano, sendo a necrotomia um dos procedimentos essenciais para evitar amputações e sepse em queimaduras de espessura total (dados do Ministério da Saúde, 2025).
Você já ouviu falar em necrotomia? Se um familiar sofreu uma queimadura grave ou uma ferida que não cicatriza, talvez o médico tenha mencionado esse termo. A necrotomia é uma cirurgia de urgência que remove o tecido morto (necrosado) para salvar a vida e preservar membros. Neste artigo, você vai entender como funciona, quando é necessária e o que esperar da recuperação.
- O que é: Procedimento cirúrgico que incisa e remove tecido necrótico para aliviar a pressão e prevenir infecção.
- Quando ocorre: Em queimaduras profundas, síndrome compartimental, gangrena ou feridas com necrose extensa.
- Quem trata: Cirurgião geral, cirurgião plástico, ortopedista ou intensivista.
- Urgência: Alta – geralmente realizada em caráter de emergência.
- Tratamento: Excisão cirúrgica do tecido morto, seguida de curativos e, se necessário, enxerto de pele.
João, 45 anos, sofreu queimadura de terceiro grau no braço direito ao manusear álcool em um churrasco. Na emergência, o médico percebeu que o braço estava inchado, rígido e com pulsos fracos – sinais de síndrome compartimental. Foi indicada uma necrotomia de emergência com incisões na pele e fáscia para aliviar a pressão. Após o procedimento, a circulação melhorou e João evitou a amputação. Ele permaneceu internado por 20 dias, com curativos diários e posterior enxerto de pele.
O que é necrotomia e quando é indicada
A necrotomia é uma intervenção cirúrgica que consiste em fazer incisões na pele e nos tecidos subjacentes (aponeurose, fáscia) para remover tecido morto (necrosado) e aliviar a pressão interna. O termo vem do grego nekros (morto) e tomia (corte). Diferente do desbridamento, que retira apenas o tecido necrótico superficial, a necrotomia é mais profunda e pode incluir a abertura de compartimentos musculares.
As principais indicações incluem:
- Queimaduras de espessura total (terceiro grau): quando a pele perde a elasticidade e comprime vasos, nervos e músculos.
- Síndrome compartimental: edema excessivo dentro de um compartimento muscular, que compromete a circulação. Pode ocorrer após trauma, esmagamento ou reperfusão.
- Gangrena gasosa ou fascite necrosante: infecções graves que destroem tecido e exigem remoção urgente.
- Feridas crônicas com necrose extensa: úlceras de pressão (escaras) ou pé diabético com tecido inviável.
O objetivo principal é salvar o membro e evitar a disseminação de toxinas e bactérias para a corrente sanguínea. É um procedimento que pode ser feito à beira do leito ou em centro cirúrgico, dependendo da urgência.
Como o procedimento é realizado
A necrotomia é executada sob anestesia geral ou regional, dependendo da extensão. O cirurgião faz incisões longitudinais na pele e na fáscia, seguindo linhas anatômicas que evitam danos a nervos e vasos importantes. Geralmente são feitas duas a quatro incisões no membro afetado, com profundidade suficiente para atingir o plano muscular.
Depois de abertos os compartimentos, o tecido necrótico é excisado (cortado) com bisturi ou tesoura cirúrgica. O sangramento é controlado com cauterização ou ligaduras. A ferida é deixada aberta (não suturada) para permitir drenagem e alívio contínuo da pressão. Um curativo estéril com solução salina ou antisséptico é aplicado.
Em queimaduras, a necrotomia pode ser associada à escarotomia (remoção da escara) e, posteriormente, a enxertos de pele. Em casos de infecção grave, pode ser necessária mais de uma intervenção para garantir a remoção completa do tecido morto.
O procedimento dura entre 30 minutos e 2 horas, dependendo da complexidade. O paciente permanece internado para monitoramento de sinais de infecção, função renal e equilíbrio hidroeletrolítico.
Preparo e cuidados antes do procedimento
Em situações de emergência, o preparo é mínimo: estabilização hemodinâmica, hidratação venosa, analgesia e exames de sangue (hemograma, coagulograma, função renal). Se possível, realiza-se uma avaliação de imagem (como ultrassom ou tomografia) para mapear a extensão da necrose.
Para procedimentos eletivos (por exemplo, em feridas crônicas), o paciente deve:
- Informar todos os medicamentos em uso (especialmente anticoagulantes).
- Realizar exames pré-operatórios conforme orientação médica.
- Jejum de 6 a 8 horas se for anestesia geral.
- Tomar banho com clorexidina na noite anterior, se indicado.
É fundamental que o médico explique os riscos, benefícios e a necessidade de múltiplas cirurgias, caso a necrose seja extensa. O consentimento informado deve ser assinado.
O que esperar durante o procedimento
O paciente será encaminhado ao centro cirúrgico ou à sala de emergência. A equipe monitora continuamente os sinais vitais (pressão, frequência cardíaca, oxigenação). Após a anestesia, o cirurgião realiza as incisões. O paciente não sente dor, pois está sob efeito anestésico.
Após a abertura da fáscia, é comum observar saída de líquido e sangue acumulados. O tecido necrótico tem aparência escura, sem sangramento ativo. O cirurgião pode usar um dermatomo (instrumento que corta finas camadas de pele) para remover a escara de queimaduras.
A equipe de enfermagem mantém o campo estéril e registra a quantidade de tecido removido. Ao final, a ferida é coberta com gaze embebida em soro fisiológico ou antisséptico, e um curativo compressivo é aplicado. O paciente é então levado à sala de recuperação pós-anestésica.
Recuperação e cuidados pós-procedimento
A recuperação depende da gravidade da lesão e do estado geral do paciente. Nas primeiras 24 a 48 horas, a dor é controlada com analgésicos opioides ou anti-inflamatórios. A ferida permanece aberta e requer trocas de curativo a cada 8 ou 12 horas, sempre com técnica estéril.
O paciente deve ficar em repouso com o membro elevado para reduzir o edema. Fisioterapia motora é iniciada precocemente para evitar contraturas e atrofia muscular. A equipe monitora sinais de infecção como febre, rubor, secreção purulenta ou odor fétido.
Quando o tecido de granulação (vermelho e saudável) começa a aparecer, geralmente entre 5 e 10 dias, o cirurgião pode programar o fechamento da ferida com enxerto de pele ou sutura secundária. Em alguns casos, a ferida cicatriza por segunda intenção (sozinha).
A alta hospitalar ocorre quando não há mais risco de infecção generalizada e o paciente consegue realizar os curativos em casa com auxílio de enfermagem. O acompanhamento ambulatorial é essencial por semanas ou meses.
Riscos e complicações possíveis
Como toda cirurgia, a necrotomia apresenta riscos. Os principais são:
- Infecção: a ferida aberta pode ser porta de entrada para bactérias. O uso de antibióticos profiláticos reduz esse risco.
- Sangramento: lesão inadvertida de vasos durante a incisão. Felizmente, a maioria dos vasos pode ser cauterizada ou ligada.
- Lesão de nervos: incisões profundas podem causar danos neurológicos, embora o cirurgião tome cuidado com a anatomia.
- Formação de queloides ou cicatrizes hipertróficas: comuns em pacientes de pele morena ou negra.
- Necessidade de amputação: se a necrose já estiver muito avançada ou a síndrome compartimental não for aliviada a tempo.
- Complicações sistêmicas: sepse, insuficiência renal, embolia pulmonar – mais frequentes em pacientes críticos.
A taxa de complicações graves varia de 5% a 15%, dependendo da causa e do tempo até o tratamento.
Alternativas ao procedimento
Em algumas situações, a necrotomia pode ser substituída por métodos menos invasivos. Exemplos:
- Desbridamento enzimático: uso de pomadas com colagenase ou papaína para dissolver tecido necrótico. É mais lento e indicado para feridas superficiais.
- Desbridamento autolítico: curativos oclusivos que mantêm o meio úmido, permitindo que o próprio organismo degrade o tecido morto.
- Terapia por pressão negativa (VAC): sistema de vácuo que remove secreções e estimula a granulação. Não remove tecido necrosado, mas pode ser usada após o desbridamento.
- Fasciotomia simples: se apenas a fáscia estiver comprometida, sem necrose extensa, pode-se aliviar a pressão com pequenas incisões sem retirar tecido.
Para síndrome compartimental estabelecida, a fasciotomia é a alternativa mais comum, mas na presença de necrose já instalada a necrotomia é obrigatória.
Resultado e o que ele indica
O sucesso da necrotomia é medido pela melhora da perfusão do membro, redução da dor e controle da infecção. Após o procedimento, espera-se que o tecido saudável volte a ter coloração rosada, pulsos palpáveis e função motora preservada.
Um resultado favorável indica que a intervenção foi feita a tempo. Se o paciente continuar com dor intensa, febre ou piora do estado geral, pode ser necessário repetir a cirurgia ou considerar amputação.
Do ponto de vista laboratorial, a normalização dos níveis de creatinina e CPK (enzima liberada pela lesão muscular) sinaliza recuperação. O acompanhamento com exames de imagem (Doppler, ressonância) pode ser útil para avaliar a viabilidade muscular.
Quando é urgente procurar médico
Sinais de alerta que exigem atendimento imediato:
- Queimadura ou ferida com bolhas escuras, cheiro forte ou secreção sanguinolenta.
- Inchaço progressivo de um braço ou perna, com pele muito esticada e brilhante.
- Dormência, formigamento ou incapacidade de mover o membro.
- Febre alta (acima de 38,5°C) acompanhada de calafrios.
- Manchas avermelhadas ou arroxeadas que se espalham rapidamente pela pele.
Se você notar qualquer um desses sinais após uma lesão ou cirurgia recente, vá ao pronto-socorro mais próximo. O tempo é crucial para evitar amputação ou sepse.
- 01. Se você tem diabetes ou doença vascular, examine seus pés diariamente – feridas pequenas podem evoluir para necrose.
- 02. Em caso de queimadura, não passe manteiga, pasta de dente ou pó de café; lave com água fria e cubra com pano limpo.
- 03. Após a necrotomia, mantenha o curativo seco e troque conforme a orientação da equipe – não use remédios caseiros.
- 04. Evite fumar: o cigarro prejudica a circulação e dificulta a cicatrização.
- 05. Siga a fisioterapia à risca para recuperar a força e mobilidade do membro.
Perguntas Frequentes sobre necrotomia procedimento indicacoes recuperacao
1. Necrotomia dói?
Durante a cirurgia, não, porque você está anestesiado. Após o procedimento, a dor é controlada com analgésicos. A ferida aberta pode causar desconforto, mas a equipe médica ajusta a medicação conforme necessidade.
2. Quanto tempo fica no hospital?
Depende da gravidade. Em média, de 7 a 21 dias. Pacientes com queimaduras extensas podem ficar meses internados, com múltiplas cirurgias.
3. É possível andar após uma necrotomia na perna?
Inicialmente não, pois o repouso com elevação é necessário. Com a evolução e fisioterapia, a maioria dos pacientes recupera a deambulação, mas pode precisar de órteses ou apoio.
4. A necrotomia deixa cicatriz grande?
Sim, as incisões são longas e podem formar cicatrizes visíveis. O uso de malhas compressivas e cremes cicatrizantes ajuda a melhorar a aparência após a alta.
5. Qual a diferença entre necrotomia e desbridamento?
Desbridamento é a remoção de tecido necrótico superficial. Necrotomia é mais profunda, incluindo fáscia e músculo, e tem como objetivo aliviar a pressão (como na síndrome compartimental).
6. Quem precisa de necrotomia?
Pacientes com queimaduras de terceiro grau, síndrome compartimental, gangrena gasosa ou feridas com necrose extensa. A decisão é médica, baseada em exame clínico e exames complementares.
7. Existe necrotomia em outros locais do corpo além dos membros?
Sim, pode ser feita no tronco (como na síndrome compartimental abdominal) ou até no couro cabeludo em queimaduras profundas. Porém, a maioria é em braços e pernas.
8. Posso prevenir a necessidade de necrotomia?
Em parte, sim. Cuidar de feridas pequenas, controlar diabetes, evitar tabagismo e procurar atendimento precoce em queimaduras reduz o risco de necrose extensa.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clinica Popular Fortaleza, com base em evidências científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 25/06/2026
Na Clinica Popular Fortaleza você encontra consultas acessíveis com especialistas que explicam seu diagnóstico e orientam o melhor tratamento.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica profissional. Sempre consulte um médico ou profissional de saúde habilitado para diagnóstico e tratamento.
Referências externas:
MedlinePlus – Fasciotomy and Necrotomy
Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) – Necrotomia
Conteúdos relacionados:
Clinica Popular Fortaleza — Consultas Médicas
Exames na Clinica Popular Fortaleza
CID F41 — Ansiedade: o que significa
CID M54 — Dorsalgia (dor nas costas)
CID J06 — Infecção Respiratória Aguda
CID K21 — Doença por Refluxo Gastroesofágico
CID N39 — Infecção do Trato Urinário
CID G43 — Enxaqueca
CID J45 — Asma
Omeprazol: para que serve
Dipirona: para que serve e como usar
Ibuprofeno: para que serve
Amoxicilina: para que serve
Azitromicina: para que serve
Paracetamol: para que serve
O que é meditação guiada
Saúde coletiva: conceitos e objetivos
O que é hematoquezia


