No Brasil, a liraglutida (Victoza® e Saxenda®) já ultrapassou 2 milhões de prescrições acumuladas desde 2020, e a ANVISA aprovou seu uso para obesidade em adolescentes a partir de 12 anos em 2023. Em 2025, o preço médio da caneta injetável varia entre R$ 250 e R$ 450, dependendo da dose e da rede de farmácias.
Introdução – como a liraglutida afeta sua saúde geral
Seu médico acabou de prescrever liraglutida e você quer entender exatamente como esse medicamento pode mudar seu controle glicêmico ou seu peso. Talvez você tenha diabetes tipo 2, obesidade ou ambos. A liraglutida não é um remédio comum: ela age imitando um hormônio natural do seu corpo, o GLP-1, que regula o apetite, a liberação de insulina e o esvaziamento do estômago. Isso significa que, além de reduzir a glicose no sangue, ela promove saciedade e perda de peso sustentada. Mas seus efeitos vão além: estudos mostram benefícios cardiovasculares e renais. Neste artigo, você vai descobrir como a liraglutida atua na prática, quais cuidados tomar e o que esperar do tratamento.
- Classe terapêutica: Agonista do receptor de GLP-1 (incretinomimético)
- Princípio ativo: Liraglutida
- Fabricante principal: Novo Nordisk (Victoza® para diabetes; Saxenda® para obesidade)
- Apresentações: Solução injetável em canetas preenchidas (6 mg/mL – 3 mL/caneta)
- Requer receita: Sim – receita de controle especial (tarja vermelha, retenção obrigatória)
- Registro ANVISA: Sim – nº 1.0040.0240 (Victoza®) e nº 1.0040.0262 (Saxenda®)
Maria, 45 anos, professora, com diabetes tipo 2 diagnosticado há três anos e Índice de Massa Corporal de 32 kg/m² (obesidade grau I). Ela usava metformina 850 mg duas vezes ao dia, mas a hemoglobina glicada (HbA1c) ainda estava em 8,2%. O endocrinologista prescreveu liraglutida na dose inicial de 0,6 mg/dia, aumentando gradualmente até 1,8 mg/dia. Após quatro meses, Maria perdeu 7 kg, sua glicemia de jejum caiu de 180 para 110 mg/dL e a HbA1c chegou a 6,5%. Ela relatou náuseas leves na primeira semana, mas controlou com refeições fracionadas e ingesta de líquidos. O caso mostra como a liraglutida pode integrar um plano terapêutico eficaz para controle glicêmico e perda de peso.
Para que serve a liraglutida: indicações oficiais
A liraglutida é um agonista do receptor de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1). Ela mimetiza a ação do GLP-1 endógeno, que é secretado pelas células L do intestino após a ingestão de alimentos. Seus principais efeitos incluem: estimulação da secreção de insulina dependente de glicose (só age quando a glicemia está elevada), supressão da secreção de glucagon, retardo do esvaziamento gástrico e aumento da saciedade no sistema nervoso central. Isso resulta em menor ingestão calórica e melhor controle glicêmico.
As indicações aprovadas pela ANVISA e pela FDA são:
- Diabetes mellitus tipo 2: Para adultos e crianças a partir de 10 anos, como adjuvante à dieta e exercícios, em monoterapia ou combinado com metformina, sulfonilureias, insulina basal ou outros hipoglicemiantes orais. Melhora o controle glicêmico e reduz o risco de eventos cardiovasculares maiores em pacientes com doença cardiovascular estabelecida.
- Obesidade e sobrepeso: Para adultos com IMC ≥ 30 kg/m² (obesidade) ou IMC ≥ 27 kg/m² com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso (hipertensão, dislipidemia, apneia do sono). Também aprovado para adolescentes de 12 a 17 anos com obesidade. A dose usada é mais alta (3,0 mg/dia) sob o nome Saxenda®.
- Redução do risco cardiovascular: Em pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular estabelecida, a liraglutida demonstrou redução de 13% no risco de morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal (estudo LEADER).
Além disso, há evidências de benefícios renais (redução da progressão da doença renal crônica) e melhora dos marcadores inflamatórios. No entanto, é importante lembrar que a liraglutida não é indicada para diabetes tipo 1 nem para cetoacidose diabética.
Como tomar liraglutida: dosagem e administração
A liraglutida é administrada por via subcutânea, uma vez ao dia, independentemente das refeições. O local de aplicação pode ser abdômen, coxa ou braço, sempre com rodízio para evitar lipodistrofia.
Para diabetes tipo 2 (Victoza®):
- Dose inicial: 0,6 mg uma vez ao dia durante a primeira semana.
- A partir da segunda semana: aumentar para 1,2 mg/dia.
- Se necessário, após pelo menos uma semana com 1,2 mg, pode-se aumentar para 1,8 mg/dia (dose máxima para diabetes).
Para obesidade/sobrepeso (Saxenda®):
- Dose inicial: 0,6 mg/dia na primeira semana.
- Aumentos semanais: 1,2 mg (semana 2), 1,8 mg (semana 3), 2,4 mg (semana 4) e 3,0 mg (semana 5 e manutenção).
- A dose máxima é de 3,0 mg/dia. Se o paciente não tolerar a escalada, pode-se manter na dose mais baixa tolerada.
Orientações gerais:
- Use sempre a caneta na mesma hora do dia (ex.: café da manhã ou jantar).
- A caneta deve ser armazenada na geladeira (2 °C a 8 °C) antes do primeiro uso; após aberta, pode ficar em temperatura ambiente (até 30 °C) por até 30 dias.
- Não agite a caneta – se a solução estiver turva ou com partículas, descarte.
- O tratamento é crônico; a decisão de interromper deve ser médica, pois a descontinuação abrupta pode levar a ganho de peso e piora glicêmica.
Efeitos colaterais da liraglutida
Os efeitos adversos são mais comuns no início do tratamento e tendem a diminuir com a continuidade. Os principais:
- Muito comuns (>10%): náuseas, diarreia, vômitos, dor de cabeça. Náuseas ocorrem em até 40% dos pacientes na primeira semana.
- Comuns (1-10%): dispepsia, constipação, flatulência, fadiga, tontura, hipoglicemia (especialmente quando associado a sulfonilureias ou insulina), aumento das enzimas hepáticas (transaminases), reações no local da aplicação (eritema, prurido).
- Incomuns (0,1-1%): pancreatite aguda (dor abdominal intensa, irradiada para dorso), colangite, colecistite, urticária, angioedema, taquicardia.
- Raros (<0,1%): carcinoma medular de tireoide (em estudos animais, mas monitorização é recomendada), reações anafiláticas, necrose pancreática, insuficiência renal aguda (geralmente associada a desidratação por vômitos).
Sinais de alerta que exigem parar o uso e buscar emergência: dor abdominal súbita e intensa, vômitos incoercíveis, icterícia, urina escura, febre, reação alérgica grave (falta de ar, inchaço no rosto), batimentos cardíacos irregulares, nódulo no pescoço (possível indicativo de alteração tireoidiana).
Contraindicações e quem não deve usar
A liraglutida não deve ser usada nos seguintes casos:
- História pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide (CMT) ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM-2).
- Hipersensibilidade ao princípio ativo ou a qualquer componente da fórmula.
- Diabetes tipo 1 ou cetoacidose diabética (não é eficaz nesses casos).
- Insuficiência renal grave (TFG < 30 mL/min/1,73 m²) ou doença renal terminal (não há estudos suficientes; usar com cautela).
- Insuficiência hepática grave (Child-Pugh C).
- Pancreatite aguda prévia (relacionada ao uso de incretinas ou não).
- Gravidez e amamentação: contraindicação absoluta. Mulheres em idade fértil devem usar método contraceptivo eficaz. A liraglutida pode prejudicar o feto e é excretada no leite materno em estudos animais.
- Crianças menores de 10 anos (para diabetes) e menores de 12 anos (para obesidade) – falta de dados de segurança.
Interações medicamentosas importantes
A liraglutida retarda o esvaziamento gástrico, o que pode alterar a absorção de outros medicamentos orais. As principais interações incluem:
- Insulina e sulfonilureias (glibenclamida, gliclazida, glimepirida): risco aumentado de hipoglicemia. Pode ser necessário reduzir a dose desses agentes. Monitore a glicemia capilar frequentemente.
- Anticoagulantes orais (varfarina, rivaroxabana): o retardo do esvaziamento pode alterar a exposição; recomenda-se monitorar o INR ou a atividade anticoagulante.
- Anticoncepcionais orais: a eficácia pode ser reduzida, especialmente no início do tratamento com liraglutida. Considere método adicional não hormonal (ex.: preservativo).
- Medicamentos que dependem de rápida absorção (ex.: antibióticos, antifúngicos, analgésicos): podem ter eficácia diminuída. Prefira administrar esses fármacos pelo menos 1 hora antes da liraglutida.
- Álcool: pode potencializar o efeito hipoglicemiante e aumentar o risco de pancreatite. Recomenda-se evitar ou limitar o consumo.
- Outros agonistas GLP-1 ou inibidores de DPP-4 (exenatida, dulaglutida, sitagliptina): não há recomendação de uso concomitante por potencializar efeitos adversos. Em geral, não se associa a inibidores de DPP-4.
Preço e onde encontrar liraglutida no Brasil
No Brasil, a liraglutida é comercializada exclusivamente como medicamento de referência (Victoza® e Saxenda®) pela Novo Nordisk. Não existem genéricos ou biossimilares aprovados até junho de 2026. O preço ao consumidor varia entre R$ 250 e R$ 450 por caneta (3 mL), dependendo do estado e da farmácia. Uma caneta de Victoza® (1,8 mg/dia) dura cerca de 10 dias; a de Saxenda® (3,0 mg/dia) dura aproximadamente 5 dias. O custo mensal pode chegar a R$ 1.200 a R$ 2.000.
O medicamento está na lista de medicamentos de alto custo do SUS? Não – não faz parte do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF) para diabetes. Para obesidade, também não é fornecido pelo SUS de forma rotineira. No entanto, pacientes com diabetes tipo 2 que comprovem necessidade podem solicitar via judicial com parecer médico. Alguns planos de saúde privados cobrem parcialmente, mediante autorização prévia.
Para economizar, pesquise em programas de desconto das farmácias (ex.: Pague Menos, Droga Raia, Drogasil) ou no programa “Paciente do Bem” da Novo Nordisk.
O que perguntar ao médico antes de usar liraglutida
- 1. “Qual é a minha meta de HbA1c e de perda de peso com este tratamento?”
- 2. “Preciso parar ou ajustar minha metformina, insulina ou outro medicamento ao começar a liraglutida?”
- 3. “Quanto tempo leva para eu sentir os efeitos na glicemia e no peso? Quando devo retornar para avaliar?”
- 4. “Tenho histórico de pancreatite ou problema na tireoide. Ainda posso usar?”
- 5. “Quais sintomas de efeitos colaterais são normais e quais exigem que eu pare e procure ajuda?”
- 6. “Existe risco de hipoglicemia com a liraglutida? O que fazer se ocorrer?”
- 7. “Se eu engravidar ou quiser engravidar, como devo proceder?”
- 01. Comece com a dose mais baixa (0,6 mg/dia) para minimizar náuseas – aumente apenas conforme orientação médica.
- 02. Faça refeições leves e fracionadas nas primeiras semanas; evite frituras e alimentos gordurosos.
- 03. Mantenha jejum de pelo menos 4 horas entre as doses noturnas? Não é necessário – mas se ocorrerem náuseas, tome a injeção perto da refeição maior.
- 04. Monitore a glicemia capilar, especialmente se usar insulina ou sulfonilureia – tenha sempre glicose de rápida ação (suco, bala) para hipoglicemia.
- 05. Não reutilize agulhas nem compartilhe a caneta – risco de infecção (hepatite B, HIV).
- 06. Beba bastante água (1,5 a 2 L/dia) para evitar desidratação se tiver vômitos ou diarreia.
- 07. Registre seu peso e glicemia em um diário para discutir com o médico na consulta de acompanhamento.
Perguntas frequentes sobre liraglutida
Liraglutida engorda ou emagrece?
Ela promove perda de peso, não ganho. Em média, pacientes perdem 5 a 10% do peso corporal em 6 meses com a dose de 3,0 mg. O efeito ocorre por aumento da saciedade e redução da ingestão calórica.
Posso tomar liraglutida na gravidez?
Não. É contraindicada durante a gestação e amamentação. Mulheres em idade fértil devem usar métodos contraceptivos eficazes. Se ocorrer gravidez, suspenda imediatamente e informe o médico.
Quanto tempo leva para fazer efeito?
Os efeitos na glicemia podem ser notados na primeira semana, mas a perda de peso significativa geralmente aparece após 4 a 8 semanas. O máximo de efeito pode levar de 3 a 6 meses.
Liraglutida interage com metformina?
Sim, mas de forma favorável – a combinação é comum e segura. Pode ser necessário ajuste de dose da metformina em caso de efeitos gastrintestinais intensos.
Posso parar de tomar a qualquer momento?
Não é recomendado parar abruptamente sem orientação médica. A suspensão pode levar a ganho de peso e piora do controle glicêmico. Se houver necessidade, faça redução gradual conforme orientação.
O que fazer se eu esquecer de aplicar uma dose?
Se faltarem menos de 12 horas para a próxima dose, pule a dose esquecida. Se mais de 12 horas, aplique assim que lembrar. Nunca dobre a dose.
Liraglutida causa hipoglicemia?
Quando usada isoladamente, raramente causa hipoglicemia (risco baixo). Porém, quando combinada com insulina ou sulfonilureias, o risco aumenta. Monitore a glicemia e ajuste conforme necessário.
Como aplicar a caneta corretamente?
Escolha um local (abdômen, coxa ou braço) com pelo menos 2 cm de distância do último local. Limpe a pele com álcool, segure uma prega cutânea, insira a agulha em ângulo de 90°, pressione o botão e conte 6 segundos antes de retirar. Descarte a agulha em recipiente apropriado.
Posso usar liraglutida se tenho doença renal?
Com cautela. Em doença renal moderada a grave (TFG < 30) não é recomendado. Em casos leves, pode ser usado, mas com monitoramento da função renal.
Liraglutida é a mesma coisa que Ozempic (semaglutida)?
Não. Ambas são agonistas GLP-1, mas a semaglutida (Ozempic, Wegovy) tem estrutura molecular diferente, maior meia-vida e potência. A semaglutida é tomada uma vez por semana; a liraglutida, uma vez ao dia. As indicações e doses também diferem.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clínica Popular Fortaleza, com base em bulas oficiais ANVISA, evidências científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 29/06/2026
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui a bula do medicamento, orientação médica ou farmacêutica. Nunca use medicamentos sem prescrição ou orientação de um profissional de saúde habilitado.
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