Em 2025, a liraglutida (Saxenda®) foi aprovada pela ANVISA para controle de peso em adolescentes de 12 a 17 anos com obesidade, ampliando seu uso no Brasil. Estima‑se que mais de 2,5 milhões de brasileiros adultos já tenham utilizado o medicamento para perda de peso ou controle do diabetes tipo 2.
Seu médico acabou de prescrever a liraglutida e você quer saber exatamente para que serve, como tomar e se o custo vale a pena? Este artigo foi escrito por um farmacêutico clínico e redator médico especialista para esclarecer todas as suas dúvidas sobre a eficácia e segurança da liraglutida, um dos medicamentos mais discutidos atualmente no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.
- Classe terapêutica: Agonista do receptor GLP‑1 (incretinomimético)
- Princípio ativo: Liraglutida
- Fabricante principal: Novo Nordisk
- Apresentações: Solução injetável em caneta preenchida (Saxenda® 6 mg/mL para obesidade; Victoza® 6 mg/mL para diabetes tipo 2)
- Requer receita: Sim — venda sob prescrição médica (Receita de Controle Especial, tarja vermelha)
- Registro ANVISA: Sim (números 112720020 e 112720056)
Dona Maria, 52 anos, foi diagnosticada com diabetes tipo 2 há cinco anos e sempre lutou contra a balança. Com 1,62 m e 94 kg (IMC 35,8), ela apresentava glicemia de jejum em 180 mg/dL e HbA1c de 8,5%. O endocrinologista prescreveu liraglutida (Victoza®) iniciando com 0,6 mg/dia, aumentando 0,6 mg a cada semana até chegar a 1,8 mg/dia. Após três meses, Maria perdeu 7,2 kg, sua glicemia de jejum caiu para 112 mg/dL e a HbA1c para 6,9%. Ela relata náuseas leves no início, mas que desapareceram com a adaptação. O custo mensal do tratamento (R$ 380) foi parcialmente coberto pelo plano de saúde, e Maria considera o resultado excelente.
Para que serve a Liraglutida: indicações oficiais
A liraglutida é um análogo do hormônio GLP‑1 (peptídeo semelhante ao glucagon), que atua aumentando a secreção de insulina de forma glicose‑dependente, reduzindo a produção de glucagon e retardando o esvaziamento gástrico. Isso resulta em melhor controle glicêmico, redução do apetite e perda de peso.
No Brasil, a ANVISA aprovou duas apresentações principais:
- Victoza® (liraglutida 1,2 mg ou 1,8 mg/dia): indicado para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2 em adultos, como adjuvante à dieta e exercícios, quando a metformina isolada não é suficiente. Também é aprovado para reduzir o risco de eventos cardiovasculares maiores em adultos com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular estabelecida.
- Saxenda® (liraglutida 3 mg/dia): indicado para o controle de peso em adultos com obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²) ou sobrepeso (IMC ≥ 27 kg/m²) com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso (como hipertensão, dislipidemia ou diabetes tipo 2). Em 2025, a ANVISA estendeu a indicação para adolescentes de 12 a 17 anos com obesidade.
Estudos clínicos demonstram que a liraglutida, na dose de 3 mg/dia, promove perda média de 8‑10% do peso corporal em um ano, quando combinada com mudanças no estilo de vida. Para diabetes, reduz a HbA1c em cerca de 1‑1,5% e diminui a incidência de eventos cardiovasculares em 13% (ensaio LEADER).
Importante: a liraglutida não é um medicamento de uso contínuo para emagrecimento “milagroso” — seu uso deve ser sempre associado a dieta hipocalórica e atividade física, sob supervisão médica.
Como tomar a Liraglutida: dosagem e administração
A liraglutida é administrada por via subcutânea, uma vez ao dia, em qualquer horário, independentemente das refeições. O local de aplicação pode ser abdômen, coxa ou braço, e deve ser rodiziado para evitar lipodistrofia.
Para diabetes tipo 2 (Victoza®): iniciar com 0,6 mg/dia por uma semana, depois aumentar para 1,2 mg/dia. Se necessário, após mais uma semana, pode‑se aumentar para 1,8 mg/dia (dose máxima para diabetes). A dose é ajustada conforme a resposta glicêmica e tolerância.
Para perda de peso (Saxenda®): o esquema de escalonamento é semanal: 0,6 mg → 1,2 mg → 1,8 mg → 2,4 mg → 3,0 mg. Cada dose é mantida por sete dias antes do aumento. A dose alvo é 3,0 mg/dia. Se o paciente não perder pelo menos 5% do peso inicial após 12 semanas na dose máxima, o tratamento deve ser reavaliado (provavelmente interrompido).
Populações especiais: idosos (>65 anos) não necessitam de ajuste de dose, mas devem ser monitorados. Não há dados suficientes para crianças menores de 12 anos (exceto adolescentes conforme indicação). Em insuficiência renal grave (TFG < 30 mL/min) ou hepática grave, o uso é contraindicado.
A caneta deve ser armazenada em geladeira (2‑8°C) antes do primeiro uso; após aberta, pode ser mantida em temperatura ambiente (≤30°C) por até 30 dias.
Efeitos colaterais da Liraglutida
Muito comuns (>10%): náusea, diarreia, vômitos, constipação, dor de cabeça. As náuseas ocorrem principalmente no início do tratamento e tendem a diminuir com o tempo. Estratégias como comer refeições menores e menos gordurosas ajudam.
Comuns (1‑10%): hipoglicemia (especialmente quando combinada com sulfonilureia ou insulina), dispepsia, dor abdominal, flatulência, fadiga, tontura, aumento da frequência cardíaca (2‑4 bpm), reações no local da injeção (vermelhidão, coceira).
Incomuns a raros (<1%): pancreatite aguda (sinais: dor abdominal intensa irradiando para as costas, náusea/vômito), colecistite/colelitíase, distúrbios renais (desidratação por vômitos), reações alérgicas graves (urticária, angioedema).
Sinais de alerta que exigem parar o uso e procurar atendimento: dor abdominal persistente e intensa, vômitos incoercíveis, icterícia, inchaço da face/lábios, palpitações ou batimentos cardíacos irregulares, sinais de desidratação (sede excessiva, boca seca, urina escassa).
Em estudos de longo prazo, foi observado um pequeno aumento no risco de pancreatite, mas a relação causal não é totalmente estabelecida. Pacientes com histórico de pancreatite devem evitar o uso.
Contraindicações e quem não deve usar
A liraglutida é contraindicada para:
- Pacientes com hipersensibilidade ao princípio ativo ou a qualquer excipiente.
- História pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide (CMT) ou Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 (NEM‑2).
- Insuficiência renal grave (taxa de filtração glomerular < 30 mL/min) ou doença renal terminal.
- Insuficiência hepática grave (Child‑Pugh classe C).
- Pancreatite aguda ou crônica (uso não recomendado).
- Gravidez e amamentação: não há estudos suficientes; deve‑se usar método contraceptivo eficaz durante o tratamento e por pelo menos dois meses após a interrupção.
- Crianças menores de 12 anos (exceto indicação específica para adolescentes de 12‑17 anos com obesidade).
Pacientes com gastroparesia grave ou doença inflamatória intestinal devem usar com cautela, pois o medicamento retarda o esvaziamento gástrico.
Interações medicamentosas importantes
A liraglutida retarda o esvaziamento gástrico, podendo reduzir a velocidade de absorção de medicamentos administrados por via oral. Isso é clinicamente relevante para:
- Anticoncepcionais orais: a eficácia pode ser reduzida; recomenda‑se usar método de barreira adicional ou anticoncepcional de longa duração.
- Antibióticos e outros medicamentos de janela terapêutica estreita: monitorar efeitos (ex.: varfarina, digoxina, levotiroxina).
- Insulina e sulfonilureias (glibenclamida, gliclazida, etc.): risco aumentado de hipoglicemia; pode ser necessário reduzir a dose desses agentes.
- Álcool: pode potencializar o efeito hipoglicemiante e aumentar náuseas; evitar consumo excessivo.
- Alimentos: não há restrições específicas, mas refeições ricas em gordura podem piorar os sintomas gastrointestinais.
Sempre informe ao seu médico todos os medicamentos que você usa, inclusive fitoterápicos e suplementos.
Preço e onde encontrar a Liraglutida
A liraglutida (Saxenda® e Victoza®) é comercializada em canetas injetáveis contendo 3 mL de solução (6 mg/mL). O preço de uma caixa com 3 canetas (dose para 30 dias na dose máxima) varia entre R$ 350 e R$ 800 no Brasil em 2026, dependendo da região e do laboratório.
Versão genérica: atualmente não existe genérico de liraglutida aprovado no Brasil, pois a patente do princípio ativo ainda está vigente. Em alguns países já há biossimilares, mas no mercado brasileiro apenas o produto de referência (Novo Nordisk) está disponível.
SUS: a liraglutida (Victoza®) está incorporada ao Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabetes Mellitus tipo 2 para pacientes com alto risco cardiovascular ou que não atingiram a meta com metformina. O acesso é mediante processo de judicialização ou através de programas de dispensação excepcional em alguns estados. Já o Saxenda® para obesidade não é padronizado no SUS, sendo adquirido apenas na rede privada.
Alguns planos de saúde privados cobrem o medicamento com coparticipação; vale a pena consultar a operadora.
O que perguntar ao médico antes de usar
Antes de iniciar o tratamento, anote estas perguntas para levar à consulta:
- Qual a dose inicial e como devo aumentá‑la?
- Preciso parar ou ajustar meus outros medicamentos para diabetes (metformina, insulina)?
- Quais sintomas devo observar que indicam que preciso parar o tratamento?
- Por quanto tempo devo usar a liraglutida? Quando saberemos se está funcionando?
- Posso tomar outros medicamentos junto, como anti‑inflamatórios ou anticoncepcional?
- Há alguma restrição alimentar específica durante o uso?
- O plano de saúde ou SUS cobre esse medicamento? Qual o custo estimado?
- 01. Aplique a injeção sempre no mesmo horário, se possível, para criar uma rotina. Utilize o abdômen (evitando o umbigo) e alterne os lados a cada aplicação.
- 02. Mantenha a caneta na geladeira até o primeiro uso. Depois de aberta, guarde em temperatura ambiente (até 30°C) por no máximo 30 dias. Nunca congele.
- 03. Se esquecer uma dose, pule essa dose e aplique a próxima no horário habitual. Não aplique dose dobrada.
- 04. Para minimizar náuseas, faça refeições menores e mais frequentes, evite frituras e alimentos muito gordurosos, e beba bastante água.
- 05. Monitore sua glicemia capilar regularmente, especialmente se você também usa insulina ou comprimidos para diabetes. Hipoglicemia pode ocorrer.
- 06. Informe qualquer dor abdominal intensa, vômitos persistentes ou icterícia ao seu médico imediatamente — podem ser sinais de pancreatite.
Perguntas frequentes sobre a Liraglutida
Liraglutida engorda ou emagrece?
Emagrece. A liraglutida reduz o apetite e retarda o esvaziamento gástrico, promovendo perda de peso significativa em pacientes com obesidade ou sobrepeso com comorbidades. Em média, ocorre redução de 8 a 10% do peso corporal em um ano.
Posso tomar liraglutida na gravidez?
Não. A liraglutida é contraindicada na gravidez. Mulheres em idade fértil devem usar método contraceptivo eficaz durante o tratamento e por no mínimo dois meses após a interrupção. Se você engravidar, interrompa o uso imediatamente e avise seu médico.
Quanto tempo leva para a liraglutida fazer efeito?
Os efeitos na glicemia começam nas primeiras semanas. Para perda de peso, a redução do apetite é percebida já na primeira semana, mas a perda de peso significativa geralmente aparece após 4 a 8 semanas. A avaliação formal é feita após 12 semanas na dose máxima (3 mg/dia).
Liraglutida causa hipoglicemia?
Sozinha, raramente causa hipoglicemia grave. Porém, quando combinada com medicamentos que aumentam a insulina (como sulfonilureias ou insulina), o risco é maior. Por isso, o médico pode reduzir a dose desses outros remédios.
Posso tomar liraglutida com metformina?
Sim, é uma combinação comum e segura. A metformina não aumenta o risco de hipoglicemia com liraglutida e ambos têm efeitos sinérgicos no controle do diabetes.
Liraglutida precisa de receita?
Sim. É um medicamento de venda sob prescrição médica (tarja vermelha). A receita deve ser de controle especial (notificação de receita B) para diabetes, e para obesidade a prescrição é comum, mas a ANVISA exige retenção da receita.
Quais os efeitos colaterais mais comuns?
Náusea, diarreia, vômitos e constipação são os mais frequentes. Geralmente melhoram após as primeiras semanas. Tomar a injeção antes de dormir pode reduzir as náuseas.
Liraglutida interage com anticoncepcionais orais?
Sim, pode reduzir a absorção e a eficácia de anticoncepcionais orais. Recomenda‑se usar um método de barreira adicional (preservativo) ou um método de longa duração (DIU, implante).
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clinica Popular Fortaleza, com base em bulas oficiais ANVISA, evidências científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 29/06/2026
Na Clinica Popular Fortaleza você agenda uma consulta com especialistas que explicam seu tratamento, ajustam doses e orientam o uso correto dos medicamentos.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui a bula do medicamento, orientação médica ou farmacêutica. Nunca use medicamentos sem prescrição ou orientação de um profissional de saúde habilitado.
Fontes científicas:
MedlinePlus – Liraglutide |
ANVISA – Bulário Eletrônico |
Bula.med.br – Liraglutida |
Hospital Israelita Albert Einstein – Guia de Medicamentos
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