No Brasil, estima-se que cerca de 2,5% dos pacientes internados em UTIs desenvolvem obstrução urinária baixa que pode necessitar de derivação urinária como a vesicostomia. Em 2025, o número de procedimentos de cistostomia e vesicostomia no SUS superou 12 mil, segundo dados do DATASUS (2026).
Você ou algum familiar já teve dificuldade extrema para urinar, dor na barriga e sensação de bexiga cheia sem conseguir esvaziar? Essa situação, conhecida como retenção urinária, pode ser temporária ou crônica e, em alguns casos, a solução é a vesicostomia. Neste artigo completo, explicamos o que é esse procedimento, quando é indicado, como é feito, quais os cuidados e as respostas para as principais dúvidas.
- O que é: Cirurgia que cria uma abertura (óstoma) da bexiga até a pele do abdome, permitindo a drenagem contínua da urina.
- Quando ocorre: Principalmente em obstruções uretrais graves, tumores pélvicos, estenose de uretra ou bexiga neurogênica.
- Quem trata: Urologista e cirurgião geral.
- Urgência: Moderada a alta, quando há retenção urinária aguda com risco de lesão renal.
- Tratamento: Procedimento cirúrgico (aberto ou percutâneo) seguido de cuidados com o estoma e o saco coletor.
Seu João, 72 anos, após uma cirurgia de próstata, desenvolveu uma estenose (estreitamento) da uretra. Passou semanas com dificuldade para urinar, jato fraco e dor abdominal. Uma noite, não conseguiu urinar por mais de 12 horas e foi ao pronto-socorro com muita dor. O médico diagnosticou retenção urinária aguda e tentou passar uma sonda, mas não foi possível devido à estenose severa. A solução de emergência foi realizar uma vesicostomia: uma pequena incisão no baixo ventre para colocar um tubo diretamente na bexiga, aliviando a dor imediatamente. Após três meses, com a estenose tratada, o estoma foi fechado e o Seu João voltou a urinar normalmente.
O que é vesicostomia e quando é indicada
A vesicostomia é um procedimento cirúrgico que cria uma comunicação entre a bexiga urinária e a pele do abdome inferior, permitindo que a urina seja drenada para o exterior por meio de um cateter ou diretamente em um saco coletor. Diferente da cistostomia suprapúbica (que também drena a bexiga por um tubo), a vesicostomia pode ser temporária ou definitiva, dependendo da causa de base.
As principais indicações incluem:
- Obstrução uretral grave – estenose de uretra, tumores prostáticos ou pélvicos que comprimem o canal uretral, impossibilitando a passagem de uma sonda.
- Bexiga neurogênica – em pacientes com lesão medular, espinha bífida ou doenças neurológicas que impedem o esvaziamento voluntário da bexiga.
- Retenção urinária crônica refratária – quando o cateterismo intermitente não é possível ou o paciente não consegue realizá-lo.
- Preparação para cirurgia reconstrutora – em alguns casos, a vesicostomia é feita temporariamente para desviar o fluxo de urina antes de uma cirurgia complexa da uretra ou bexiga.
- Trauma uretral – em acidentes ou lesões que rompem a uretra, a vesicostomia permite a drenagem segura enquanto a uretra cicatriza.
A decisão de realizar uma vesicostomia é tomada pelo urologista, considerando os riscos e benefícios para cada paciente. Em crianças com obstrução congênita, como válvula de uretra posterior, a vesicostomia pode ser uma ponte até a correção definitiva.
Como o procedimento é realizado
O procedimento pode ser feito de duas formas principais: aberta (cirurgia convencional) ou percutânea (guiada por imagem). A via percutânea é a mais comum atualmente, por ser menos invasiva.
Vesicostomia percutânea: Realizada com anestesia local ou sedação. O médico insere uma agulha através da pele do baixo ventre até a bexiga (guia por ultrassom ou cistoscopia). Em seguida, um fio-guia é passado e um cateter (tipo Foley) é posicionado na bexiga. A extremidade do cateter fica exteriorizada na pele e é fixada com um curativo. O procedimento dura cerca de 20 a 30 minutos.
Vesicostomia aberta: Indicada em casos de anatomia complicada ou quando o acesso percutâneo falha. Sob anestesia geral ou raquidiana, o cirurgião faz uma incisão de 2 a 4 cm na linha média do abdome inferior, identifica a bexiga e insere um cateter diretamente. A bexiga é suturada à parede abdominal para evitar vazamentos. O período de internação pode ser de 1 a 2 dias.
Em ambos os métodos, o cateter é conectado a um sistema de drenagem fechado (bolsa urinária) que deve ser trocada regularmente. O tipo de cateter (Foley, Malecot, Pezzer) depende do tempo de permanência e da preferência do cirurgião.
Preparo e cuidados antes do procedimento
Antes da vesicostomia, o paciente passa por uma avaliação pré-operatória que inclui exames de sangue (hemograma, coagulação, função renal), urinálise e urocultura para descartar infecção urinária ativa. Caso haja infecção, o procedimento é adiado e tratado com antibióticos.
- Jejum: O paciente deve ficar em jejum de 6 a 8 horas antes da cirurgia, conforme orientação médica.
- Medicações: Informe ao médico sobre todos os remédios que usa, especialmente anticoagulantes (varfarina, rivaroxabana, ácido acetilsalicílico). Eles geralmente são suspensos alguns dias antes.
- Higiene: No dia do procedimento, é feita uma higiene local com antisséptico. Pode ser necessário tricotomia (raspagem) dos pelos pubianos.
- Antibiótico profilático: Uma dose de antibiótico endovenoso é administrada antes da incisão para reduzir o risco de infecção.
- Conversa com o médico: O urologista explica como será a drenagem, a troca de bolsa e os sinais de alerta. Leve um acompanhante para ajudar a absorver as informações.
É essencial que o paciente esteja estável clinicamente. Em casos de emergência (retenção aguda com insuficiência renal), o preparo é mínimo e o procedimento é feito o mais rápido possível.
O que esperar durante o procedimento
No ambiente cirúrgico, o paciente é posicionado deitado de costas (decúbito dorsal). A equipe monitora os sinais vitais continuamente.
Na via percutânea: O médico aplica anestesia local na região suprapúbica. Pode haver um leve desconforto na hora da punção, mas não dor intensa. O paciente permanece acordado e pode conversar com a equipe. Após a inserção do cateter, a urina começa a sair imediatamente, aliviando a sensação de bexiga cheia.
Na via aberta: Com anestesia geral ou raquidiana, o paciente não sente nada. A incisão é pequena e a cirurgia dura de 30 a 60 minutos. Ao final, um curativo estéril é colocado sobre o local.
Em ambos os casos, o cateter é testado com soro fisiológico para garantir que está bem posicionado. A equipe verifica se não há vazamentos e se a drenagem está adequada. O paciente é levado à sala de recuperação, onde fica por algumas horas em observação. A alta hospitalar, se não houver intercorrências, ocorre no mesmo dia (via percutânea) ou no dia seguinte (via aberta).
Recuperação e cuidados pós-procedimento
A recuperação da vesicostomia é relativamente rápida, mas exige dedicação aos cuidados com o estoma e o cateter.
- Higiene do local: Lave a região ao redor do cateter com água e sabão neutro diariamente. Seque com gaze estéril sem esfregar. Evite cremes ou pomadas sem orientação médica.
- Troca da bolsa coletora: A bolsa deve ser trocada a cada 5 a 7 dias ou sempre que estiver cheia. A conexão com o cateter deve ser mantida fechada para evitar infecções.
- Hidratação: Beba bastante água (cerca de 2 litros por dia, salvo restrições) para manter o fluxo urinário e evitar cristais que obstruam o cateter.
- Alimentação: Não há restrições alimentares, mas evite alimentos que irritem a bexiga (cafeína, álcool, pimenta) nos primeiros dias.
- Atividades físicas: Evite esforços abdominais, levantamento de peso (>5 kg) e exercícios intensos por 2 a 4 semanas. Caminhadas leves são permitidas.
- Retorno ao trabalho: Depende da atividade profissional. Trabalhos sedentários podem ser retomados em 1 semana; trabalhos braçais, após liberação médica (cerca de 4 a 6 semanas).
- Sinais de alerta: Qualquer sangramento no local, saída de urina ao redor do cateter, febre, calafrios, dor abdominal intensa ou diminuição do débito urinário exigem contato imediato com o médico.
O acompanhamento com o urologista é fundamental. Na primeira consulta de retorno (7 a 10 dias), o médico avalia o estoma, troca o cateter (se necessário) e programa exames de controle, como ultrassom e função renal.
Riscos e complicações possíveis
Embora seja um procedimento seguro, a vesicostomia apresenta riscos inerentes a qualquer cirurgia e ao uso de cateteres.
- Infecção do trato urinário (ITU): A mais comum. O cateter é uma porta de entrada para bactérias. O uso de sistema fechado e a higiene adequada reduzem o risco. Sinais como urina turva, cheiro forte, febre e dor na bexiga indicam infecção.
- Obstrução do cateter: Pode ocorrer por coágulos, cristais ou dobras no tubo. Se a urina parar de drenar, o paciente sente dor e distensão abdominal. A troca ou lavagem do cateter pode ser necessária.
- Sangramento: Pequenos sangramentos no local de inserção são normais nos primeiros dias. Sangramento volumoso ou hematoma requer avaliação.
- Extravasamento de urina: Se o cateter não estiver bem posicionado ou a bexiga não suturar corretamente, a urina pode vazar para o tecido subcutâneo (urinoma), causando inflamação e abscesso.
- Lesão de órgãos adjacentes: Raro, mas possível (lesão de alça intestinal, vasos sanguíneos). Ocorre mais em cirurgias abertas ou em pacientes com anatomia alterada.
- Formação de falso trajeto: Durante a inserção percutânea, o cateter pode se desviar para fora da bexiga. Geralmente é identificado na hora e corrigido.
- Estenose do estoma: Com o tempo, a abertura pode estreitar, dificultando a troca do cateter. Em alguns casos, é necessário um procedimento para dilatação.
O médico deve ser informado de qualquer sinal de complicação para que o tratamento seja iniciado precocemente.
Alternativas ao procedimento
A vesicostomia não é a única opção para drenagem urinária. As principais alternativas incluem:
- Sonda vesical de demora (uretral): Cateter inserido pela uretra até a bexiga. É a primeira escolha em muitas situações, mas pode não ser possível em obstruções uretrais severas.
- Cistostomia suprapúbica percutânea: Muito semelhante à vesicostomia, mas o cateter é inserido por punção suprapúbica. A diferença é que na cistostomia o trajeto não é suturado; a vesicostomia geralmente envolve uma pequena fixação cirúrgica. Na prática, os termos às vezes são usados como sinônimos.
- Ureterostomia cutânea: Derivação urinária em que os ureteres são trazidos diretamente para a pele, sem passar pela bexiga. Indicada quando a bexiga é removida ou está gravemente comprometida (ex.: cistectomia radical).
- Cateterismo intermitente limpo: Paciente (ou cuidador) insere um cateter fino na uretra várias vezes ao dia para esvaziar a bexiga. Exige habilidade, ausência de obstrução e boa coordenação motora.
- Cirurgia corretiva da obstrução: Dependendo da causa (estenose, tumor, hiperplasia prostática), pode ser possível tratar a causa e restaurar o fluxo urinário normal, eliminando a necessidade de qualquer derivação.
A escolha da alternativa depende da condição clínica, da duração prevista, das preferências do paciente e da experiência da equipe.
Resultado e o que ele indica
O resultado esperado da vesicostomia é a drenagem eficaz da urina, aliviando os sintomas de retenção e prevenindo danos renais. A melhora clínica é geralmente imediata: a dor abdominal desaparece, a pressão na bexiga diminui e o paciente sente grande alívio.
O débito urinário pelo cateter deve ser monitorado: um adulto saudável produz cerca de 1 a 2 litros de urina em 24 horas. Valores muito baixos podem indicar desidratação, obstrução do cateter ou insuficiência renal. Valores muito altos (poliúria) podem sugerir diabetes ou uso excessivo de diuréticos.
A cor e o aspecto da urina também fornecem pistas: urina clara e amarela é normal; avermelhada pode indicar sangue; turva e com odor forte sugere infecção. O médico pode solicitar exames periódicos (urinálise, urocultura, ultrassom) para avaliar a função renal e a integridade da bexiga.
Para muitos pacientes, a vesicostomia é temporária: após o tratamento da causa (ex.: cirurgia de uretra, tratamento de tumor), o cateter pode ser removido e o orifício cicatriza espontaneamente em poucos dias. Em casos de lesão irreversível da bexiga ou uretra, a vesicostomia pode se tornar permanente, exigindo cuidados contínuos com o estoma.
Quando é urgente procurar médico
Alguns sinais e sintomas após a vesicostomia requerem atenção médica imediata, sem esperar consulta agendada:
- Parada da drenagem de urina por mais de 4 horas, associada a dor ou distensão abdominal.
- Sangramento ativo no local do cateter (grande quantidade de sangue na bolsa ou ao redor do estoma).
- Febre (temperatura ≥38,5 °C) com calafrios, indicando possível infecção sistêmica.
- Dor abdominal intensa, rigidez ou náuseas/vômitos, que podem sinalizar peritonite ou extravasamento urinário.
- Saída de urina ao redor do cateter (vazamento) com piora progressiva.
- Cateter deslocado (saiu parcialmente ou completamente). Não tente recolocá-lo sozinho.
- Urina com pus ou odor fétido associado a mal-estar geral.
- Inchaço, vermelhidão ou calor intenso na pele ao redor do estoma, que pode indicar celulite.
Em caso de qualquer um desses sinais, dirija-se a um pronto-socorro ou entre em contato com seu urologista. Nunca ignore sintomas como febre ou dor, pois podem levar a complicações graves como sepse ou dano renal irreversível.
- 01. Mantenha sempre um cateter reserva e uma bolsa coletora extra em casa, conforme orientação do médico.
- 02. Anote a quantidade de urina em 24 horas nas primeiras semanas – qualquer queda brusca deve ser comunicada.
- 03. Use roupas largas e confortáveis, evitando cintos ou elásticos que pressionem o estoma.
- 04. Nunca reutilize bolsas coletoras – cada troca deve ser feita com material novo e estéril.
- 05. Para tomar banho, proteja o curativo com uma cobertura plástica impermeável ou utilize bolsas próprias para banho.
- 06. Tenha à mão o contato do urologista ou do serviço de estomaterapia para orientação rápida.
- 07. Evite usar talco ou cremes perfumados perto do estoma, pois podem irritar a pele.
Perguntas Frequentes sobre o que é vesicostomia tudo sobre
1. Vesicostomia dói?
O procedimento é feito com anestesia, portanto não dói no momento. Após a cirurgia, pode haver um desconforto leve a moderado no local, controlado com analgésicos comuns (paracetamol, dipirona). A dor intensa não é esperada e deve ser relatada.
2. Quanto tempo dura o cateter da vesicostomia?
Depende da indicação. Cateteres temporários podem ser trocados a cada 4 a 6 semanas. Se a vesicostomia for permanente, o cateter é substituído rotineiramente (por exemplo, a cada 2 meses) para evitar incrustações e infecções.
3. Posso tomar banho com a vesicostomia?
Sim, desde que a região do estoma e o cateter fiquem protegidos. Use uma cobertura impermeável (plástico adesivo ou bolsa própria para banho) e seque bem após o banho. Evite imersão em banheiras, piscinas ou mar.
4. A vesicostomia é reversível?
Na maioria dos casos, sim. Se a causa da obstrução for tratada (cirurgia de uretra, tratamento de tumor), o cateter pode ser removido e o orifício fecha espontaneamente em alguns dias. Em situações irreversíveis, a vesicostomia pode ser mantida indefinidamente.
5. Quais as diferenças entre vesicostomia e cistostomia?
Na prática, os termos são frequentemente usados como sinônimos. Tecnicamente, a cistostomia refere-se à abertura na bexiga (do grego “kystis” = bexiga), enquanto vesicostomia tem o mesmo significado. Ambos descrevem a derivação urinária suprapúbica.
6. É possível praticar esportes com vesicostomia?
Atividades leves (caminhada, alongamento) são liberadas. Esportes de impacto ou que exijam esforço abdominal intenso (musculação pesada, luta, corrida de longa distância) devem ser evitados ou liberados pelo médico após avaliação individual.
7. A vesicostomia afeta a vida sexual?
Geralmente não interfere diretamente, pois não envolve os órgãos genitais. No entanto, o desconforto psicológico ou a presença do cateter podem diminuir a libido. Converse com seu médico sobre estratégias para adaptação, como a troca do cateter antes da relação.
8. Como saber se o cateter está obstruído?
Os principais sinais são: diminuição ou parada do fluxo de urina na bolsa, dor ou desconforto na região da bexiga, sensação de bexiga cheia, e, em alguns casos, saída de urina ao redor do cateter. Se isso ocorrer, tente lavar o cateter com soro fisiológico (conforme orientação médica) ou procure o serviço de saúde.
9. Crianças também podem fazer vesicostomia?
Sim. É relativamente comum em crianças com obstruções congênitas (válvula de uretra posterior) ou bexiga neurogênica (mielomeningocele). O procedimento é seguro e adaptado ao tamanho da criança.
10. Existe risco de alergia ao material do cateter?
Algumas pessoas podem apresentar sensibilidade ao látex (presente em alguns cateteres). Atualmente existem cateteres de silicone hipoalergênicos que reduzem esse risco. Informe ao médico se você tem alergia conhecida ao látex.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clinica Popular Fortaleza, com base em evidências científicas atualizadas e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 25/06/2026
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica profissional. Sempre consulte um médico ou profissional de saúde habilitado para diagnóstico e tratamento.
Fontes e leitura adicional:
MedlinePlus – Cistostomia suprapúbica (em espanhol)
Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) – Derivação urinária
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