Estima-se que 1 a cada 36 crianças no mundo seja diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo dados do CDC de 2025/2026. No Brasil, a prevalência gira em torno de 2 milhões de pessoas, e o diagnóstico precoce continua sendo o principal fator para melhor prognóstico.
Você recebeu um atestado ou diagnóstico com o código CID 6A02 e quer saber o que significa? Esse código corresponde ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Classificação Internacional de Doenças, 11ª edição (CID-11), adotada pela OMS. Neste artigo, explicamos detalhadamente o que é, como é feito o diagnóstico, quais os tratamentos e como lidar com essa condição no dia a dia.
- Código: 6A02
- Descrição: Transtorno do Espectro Autista (TEA)
- Categoria: Capítulo 6 – Transtornos mentais, comportamentais ou do neurodesenvolvimento (CID-11)
- Versão: CID-11 (OMS), correspondente ao antigo F84.0 na CID-10
- Subcategorias: 6A02.0 – TEA sem comprometimento intelectual e sem comprometimento da linguagem funcional; 6A02.1 – TEA com comprometimento intelectual e sem comprometimento da linguagem funcional; 6A02.2 – TEA com comprometimento da linguagem funcional e sem comprometimento intelectual; 6A02.3 – TEA com comprometimento intelectual e comprometimento da linguagem funcional; 6A02.Y – Outro TEA especificado; 6A02.Z – TEA não especificado
Paciente: Lucas M., 4 anos, filho único, residente em Fortaleza/CE
Queixa principal: Atraso na fala, dificuldade de interação social e comportamentos repetitivos (balançar o corpo, alinhar brinquedos).
Avaliação clínica: A mãe relatou que Lucas não atendia pelo nome aos 12 meses, evitava contato visual e não apontava para objetos de interesse. Aos 2 anos, ainda não falava palavras isoladas. Na consulta com o pediatra, foi observado comportamento de ecolalia imediata, hipersensibilidade a sons altos e falta de jogo simbólico. Foram solicitados avaliação neuropsicológica, teste M-CHAT (Modified Checklist for Autism in Toddlers) e audiometria para descartar perda auditiva.
Diagnóstico: Apos avaliação completa, o médico registrou o CID 6A02 (Transtorno do Espectro Autista) — o que significa que Lucas preenche critérios diagnósticos para TEA com comprometimento da linguagem funcional e sem comprometimento intelectual (subcategoria 6A02.2).
Conduta terapêutica: Iniciou terapia ocupacional com integração sensorial 2x/semana, fonoaudiologia 2x/semana para estimulação de linguagem, e psicoterapia comportamental (ABA – Applied Behavior Analysis) 10h/semana. Foi orientada a rotina visual com cartões de comunicação (PECS) e adaptações na escola (professor de apoio, sala de recursos).
Evolução: Após 6 meses de intervenção intensiva, Lucas começou a usar cerca de 20 palavras funcionais, reduziu os comportamentos repetitivos e passou a interagir brevemente com colegas durante atividades estruturadas. O contato visual melhorou, embora ainda evite em situações de estresse.
Lição clínica: O diagnóstico precoce do TEA (antes dos 3 anos) e o início imediato de terapias baseadas em evidência são cruciais para o desenvolvimento da comunicação e autonomia. Cada criança responde de forma única, e o suporte familiar é indispensável.
O que é o CID 6A02 na prática médica
O código CID 6A02, segundo a Classificação Internacional de Doenças – 11ª edição (CID-11), designa o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
Na prática clínica, o CID 6A02 substitui o antigo F84.0 (Autismo infantil) da CID-10 e amplia o espectro para incluir diferentes níveis de gravidade e comorbidades. O termo “espectro” reflete a enorme variabilidade de apresentações: desde indivíduos com alto funcionamento (antiga Síndrome de Asperger) até aqueles com grave comprometimento intelectual e necessidade de suporte intensivo.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em história detalhada do desenvolvimento, observação comportamental e aplicação de instrumentos padronizados. Não existem exames laboratoriais ou de imagem que confirmem o TEA, embora exames genéticos possam identificar síndromes associadas.
Subcategorias e variantes do CID 6A02
A CID-11 organiza o TEA em subcategorias que levam em conta dois eixos principais: a presença ou ausência de comprometimento intelectual (CI) e de comprometimento da linguagem funcional (CLF). As principais subcategorias são:
- 6A02.0 – TEA sem comprometimento intelectual e sem comprometimento da linguagem funcional (corresponde aproximadamente ao antigo Asperger).
- 6A02.1 – TEA com comprometimento intelectual e sem comprometimento da linguagem funcional.
- 6A02.2 – TEA com comprometimento da linguagem funcional e sem comprometimento intelectual.
- 6A02.3 – TEA com comprometimento intelectual e comprometimento da linguagem funcional (quadro mais grave).
- 6A02.Y – Outro TEA especificado (para apresentações atípicas).
- 6A02.Z – TEA não especificado (quando a informação é insuficiente para subcategorizar).
Além disso, a CID-11 permite codificar comorbidades comuns, como transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), transtornos de ansiedade, epilepsia e deficiência intelectual, usando códigos adicionais.
Sintomas e como a doença se manifesta
Os sintomas do TEA geralmente se tornam evidentes na primeira infância, antes dos 3 anos, mas podem ser notados apenas mais tarde em casos leves. As principais manifestações incluem:
- Déficits na reciprocidade socioemocional: dificuldade em iniciar ou responder a interações sociais, compartilhar emoções, compreender jogos de faz de conta.
- Déficits na comunicação não verbal: contato visual reduzido ou ausente, expressões faciais limitadas, uso atípico de gestos.
- Dificuldade em desenvolver, manter e compreender relacionamentos: falta de interesse por pares, dificuldade em fazer amizades, ausência de jogo cooperativo.
- Padrões restritos e repetitivos: movimentos estereotipados (balançar, girar), insistência em rotinas, interesses fixos e intensos (ex: trens, dinossauros), hipo ou hipersensibilidade sensorial (aversão a sons altos, texturas específicas).
- Linguagem: pode variar de ausência total de fala a linguagem formal e pedante; ecolalia (repetição de palavras/frases) é comum.
Importante: cada pessoa no espectro apresenta um perfil único. O diagnóstico precoce permite intervenções que melhoram significativamente a qualidade de vida.
Causas e fatores de risco
A causa exata do TEA ainda não é totalmente conhecida, mas sabe-se que há forte componente genético. Estudos com gêmeos mostram concordância de 70-90% em gêmeos monozigóticos. Fatores ambientais podem modular o risco, especialmente durante a gestação:
- Genéticos: mutações em genes como SHANK3, CHD8, NRXN1, entre outros. Alterações cromossômicas (ex: síndrome do X frágil, esclerose tuberosa) estão associadas a maior prevalência de TEA.
- Ambientais pré-natais: idade parental avançada, exposição a ácido valproico, infecções maternas graves (rubéola, citomegalovírus), diabetes gestacional não controlada.
- Fatores perinatais: prematuridade extrema (< 26 semanas), baixo peso ao nascer, hipóxia neonatal.
- Ausência de relação com vacinas: numerosos estudos refutam qualquer ligação entre vacinas (como a tríplice viral) e o desenvolvimento de TEA.
O risco de recorrência em irmãos de uma criança com TEA é de cerca de 10-20%, podendo ser maior se houver mais de um afetado na família.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do TEA é clínico e multidisciplinar. Envolve:
- Anamnese detalhada: história do desenvolvimento (marcos motores, linguagem, socialização), história familiar, queixas dos pais.
- Observação direta: uso de instrumentos padronizados como ADOS-2 (Autism Diagnostic Observation Schedule) e ADI-R (Autism Diagnostic Interview-Revised), considerados padrão-ouro.
- Avaliação de comorbidades: testes de inteligência (WISC, SON-R), avaliação de linguagem, triagem para TDAH, ansiedade, epilepsia.
- Exames complementares: audiometria para descartar perda auditiva; EEG se houver suspeita de crises; teste genético (cariótipo, microarray, painel de genes) quando indicado.
- Critérios diagnósticos: conforme CID-11 ou DSM-5, os sintomas devem estar presentes desde a infância e causar prejuízo funcional significativo.
O diagnóstico pode ser feito por neuropediatra, psiquiatra infantil, psicólogo clínico especializado ou equipe multidisciplinar. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece avaliação em serviços de referência como CAPSi e centros especializados.
Tratamento disponível e opções terapêuticas
O TEA não tem cura, mas intervenções precoces e intensivas promovem ganhos significativos. O tratamento é multidisciplinar e individualizado:
- Terapia comportamental: Análise Aplicada do Comportamento (ABA) é a abordagem com maior evidência para ensinar habilidades sociais, acadêmicas e de comunicação, reduzindo comportamentos disruptivos.
- Fonoaudiologia: estimula a comunicação verbal e alternativa (PECS, pranchas de comunicação, dispositivos eletrônicos).
- Terapia ocupacional: integração sensorial, coordenação motora fina, atividades de vida diária.
- Psicoterapia: para crianças maiores e adultos, terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode ajudar na ansiedade, rigidez e habilidades sociais.
- Intervenção psiquiátrica: medicamentos podem ser usados para comorbidades como irritabilidade (risperidona, aripiprazol), TDAH (metilfenidato) e ansiedade (ISRS). Não existem drogas específicas para o TEA.
- Apoio educacional: plano de ensino individualizado (PEI), professor de apoio, sala de recursos multifuncionais.
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) e a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Lei 12.764/2012) garantem atendimento prioritário, acesso à educação inclusiva e benefícios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Quantos dias de atestado médico
O TEA em si não é uma condição que gere atestado médico por tempo determinado, pois se trata de um transtorno permanente do neurodesenvolvimento. No entanto, **situações pontuais podem exigir afastamento do trabalho ou escola**:
- Crises comportamentais ou de ansiedade intensas: o médico pode prescrever de 1 a 5 dias para manejo da crise e ajuste de medicação.
- Infecções intercorrentes ou procedimentos cirúrgicos: o atestado segue as regras comuns (ex: 2-3 dias para amigdalite, 7-14 dias para cirurgia).
- Consulta inicial diagnóstica ou reavaliação: em geral não justifica afastamento, mas pode ser concedido 1 dia para comparecimento à consulta.
- Para crianças: não há “atestado de doença”, mas sim relatório médico para justificar faltas escolares ou adaptações curriculares.
- Para adultos: o TEA pode ser considerado deficiência para fins de aposentadoria ou licença, mas o INSS avalia caso a caso com perícia médica.
Não existe um número fixo de dias para o CID 6A02. O atestado é sempre individualizado, baseado na necessidade clínica do momento.
Quando procurar médico urgente / sinais de alerta
Embora o TEA seja uma condição crônica, algumas situações exigem atendimento médico imediato:
- Comportamentos autolesivos: bater a cabeça, morder-se, arranhar-se com frequência ou gravidade.
- Agressão a terceiros: comportamentos que ponham em risco a segurança de cuidadores ou colegas.
- Regressão repentina de habilidades: perda de fala, de interação social ou de controle esfincteriano já adquirido.
- Sinais de crise convulsiva: movimentos repetitivos não intencionais, perda de consciência, confusão pós-ictal.
- Sinais de depressão ou ansiedade graves: isolamento extremo, choro constante, recusa alimentar, ideação suicida (em adolescentes e adultos).
- Sobrecarga familiar: quando os cuidadores não conseguem mais manejar o comportamento ou estão em sofrimento psíquico intenso, procurem apoio profissional.
Nesses casos, o pronto-socorro ou o CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil) são os locais mais indicados.
Prevenção e cuidados contínuos
Não há prevenção primária para o TEA, uma vez que a origem é multifatorial e genética. No entanto, algumas medidas podem reduzir riscos ou melhorar o prognóstico:
- Acompanhamento pré-natal adequado: controle de doenças maternas, evitar teratógenos (álcool, drogas, medicamentos contraindicados).
- Estimulação precoce: mesmo sem diagnóstico, pais devem estimular linguagem, interação e brincadeiras simbólicas desde o nascimento.
- Triagem universal: o pediatra deve aplicar o M-CHAT entre 18 e 24 meses. Se houver sinais de alerta, encaminhar para avaliação especializada.
- Intervenção precoce: quanto mais cedo o tratamento começar, melhores os resultados em longo prazo.
- Cuidados contínuos: acompanhamento regular com equipe multidisciplinar, revisão periódica do plano terapêutico, suporte à família (grupos de apoio, terapia familiar).
Cuidadores devem priorizar a própria saúde mental, pois o estresse crônico é comum. Organizações como a AMA (Associação de Amigos do Autista) e a ABRAÇA (Associação Brasileira para Ações de Inclusão) oferecem suporte e informação.
- 01. Nunca ignore marcos do desenvolvimento. Se seu filho não balbuciou aos 12 meses, não apontou aos 18 meses ou não falou frases simples aos 2 anos, busque avaliação.
- 02. Evite pseudoterapias sem evidência, como dietas restritivas (sem glúten/caseína) sem orientação nutricional, chelates ou oxigênio hiperbárico. Elas não têm comprovação científica e podem ser prejudiciais.
- 03. Conheça seus direitos: a pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Isso inclui atendimento prioritário, filas preferenciais, transporte gratuito em algumas cidades e isenção de IR na aquisição de veículos.
- 04. Estabeleça uma rotina visual previsível. Use calendários, pictogramas e listas de tarefas. Isso reduz ansiedade e ajuda na autonomia.
- 05. Cuide da sua saúde mental como cuidador. Busque grupos de apoio, terapia individual e não hesite em pedir ajuda. Uma família equilibrada é o melhor ambiente para o desenvolvimento da criança.
- 06. Na escola, exija um Plano Educacional Individualizado (PEI) e professor de apoio se necessário. A educação inclusiva é um direito garantido por lei.
Perguntas Frequentes sobre o CID 6A02
O CID 6A02 garante quantos dias de atestado?
Não há um número fixo de dias para o TEA, pois é um transtorno permanente. Atestados são concedidos para situações agudas (crises, comorbidades, procedimentos) e variam de 1 a 5 dias, dependendo da avaliação médica.
O CID 6A02 é laudo permanente?
Sim, quando diagnosticado por profissional habilitado, o CID 6A02 é considerado um diagnóstico vitalício. No entanto, o grau de suporte pode mudar ao longo da vida com intervenções adequadas.
Criança com CID 6A02 precisa de atestado para faltar na escola?
Sim, a escola pode exigir um relatório médico para justificar faltas devido a crises ou consultas. O atestado comum (1 dia) é suficiente para consultas, mas faltas prolongadas necessitam de relatório detalhado.
Posso usar o CID 6A02 para pedir aposentadoria ou BPC?
Sim, desde que comprovada a incapacidade para o trabalho ou baixa renda. O Benefício de Prestação Continuada (BPC) é concedido a pessoas com deficiência cuja renda familiar per capita seja inferior a 1/4 do salário mínimo. A perícia médica do INSS avaliará o grau de comprometimento.
O CID 6A02 tem cura?
Não. O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento que persiste por toda a vida. No entanto, com terapias adequadas, muitos indivíduos desenvolvem habilidades sociais, comunicativas e funcionais que permitem vida independente.
Quais exames confirmam o CID 6A02?
Não existe exame laboratorial ou de imagem que confirme o TEA. O diagnóstico é clínico, baseado em história, observação e instrumentos padronizados como ADOS-2 e ADI-R.
Adultos podem receber o diagnóstico de CID 6A02?
Sim. Muitos adultos recebem o diagnóstico tardiamente, especialmente os de alto funcionamento. A avaliação por psiquiatra ou psicólogo especializado é necessária para diferenciar de outros transtornos.
O CID 6A02 é a mesma coisa que autismo?
Sim. Na CID-11, o código 6A02 substitui o antigo “autismo infantil” e inclui todo o espectro, inclusive a Síndrome de Asperger (que agora é codificada como 6A02.0).
Quais medicamentos são usados para o CID 6A02?
Não existem medicamentos específicos para o TEA. Fármacos são utilizados para comorbidades: risperidona e aripiprazol para irritabilidade e agressividade; metilfenidato para TDAH; ISRS para ansiedade/obsessões.
O plano de saúde cobre as terapias para CID 6A02?
A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) determina que os planos devem cobrir tratamentos multidisciplinares para TEA, incluindo fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e fisioterapia, desde que prescritos e com número de sessões definido pelo médico. Verifique o contrato e, se houver negativa, recorra à ANS.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clínica Popular Fortaleza, com base na CID-11 (OMS) e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil, incluindo a Diretriz de Atenção à Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (2025).
Última atualização: 21/06/2026
Na Clínica Popular Fortaleza você encontra consultas acessíveis com médicos que explicam seu diagnóstico e orientam o melhor tratamento. Agende sua consulta e tenha suporte para lidar com o CID 6A02.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. O diagnóstico e o tratamento indicados pelo CID devem ser definidos pelo médico responsável com base no exame clínico completo. Não use este artigo como base para autodiagnóstico ou prescrição.
Fontes confiáveis:
Classificação Internacional de Doenças – OMS |
Biblioteca Virtual em Saúde (BVS)
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