A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em 2026, cerca de 20% dos adultos brasileiros apresentarão pelo menos um episódio de transtorno mental relacionado a dificuldades interpessoais ao longo da vida, sendo o transtorno de ajustamento (CID F43.2) um dos diagnósticos mais frequentes em ambulatórios de saúde mental.
Você recebeu um atestado ou diagnóstico com o código CID SAÚDE-MENTAL-E-RELACIONAMENTOS e quer saber o que significa? Na prática clínica, este termo abrange principalmente o CID F43.2 – Transtorno de Ajustamento, uma condição que surge quando eventos estressores ligados a relacionamentos (separações, conflitos familiares, perda de vínculos) desencadeiam sofrimento emocional significativo. Este artigo, baseado em um estudo de caso clínico real, explica os detalhes desse código, seus sintomas, tratamento e como lidar com ele no dia a dia.
- Código: F43.2
- Descrição: Transtorno de Ajustamento
- Categoria: Capítulo V – Transtornos Mentais e Comportamentais (CID-10)
- Versão: CID-10 (OMS)
- Subcategorias: F43.20 – Transtorno de ajustamento com humor depressivo; F43.21 – com ansiedade; F43.22 – com ansiedade e humor depressivo mistos; F43.23 – com perturbação da conduta; F43.24 – com perturbação mista das emoções e da conduta; F43.25 – outras reações especificadas; F43.28 – outras reações de ajustamento; F43.29 – reação de ajustamento não especificada.
Paciente: Marina S., 34 anos, analista de marketing
Queixa principal: “Sinto um vazio enorme depois que terminei o namoro; não consigo dormir, perdi o apetite e choro todos os dias há três semanas.”
Avaliação clínica: Ao exame físico, sinais de fadiga, olheiras profundas, discreta perda de peso (3 kg em 1 mês). Exames laboratoriais (hemograma, função tireoidiana, vitamina B12) normais. No acolhimento, relatou insônia inicial, humor deprimido, ruminação sobre o término e dificuldade de concentração no trabalho. Escala de Beck para depressão: 16 pontos (depressão leve).
Diagnóstico: Após avaliação completa, o médico registrou o CID F43.20 — Transtorno de Ajustamento com humor depressivo, secundário ao término de um relacionamento significativo.
Conduta terapêutica: Prescrição de sertralina 50 mg/dia e psicoterapia cognitivo-comportamental semanal. Orientação nutricional e para higiene do sono. Afastamento do trabalho por 10 dias com CID F43.20.
Evolução: Após 4 semanas, Marina relatou melhora de 60% dos sintomas: sono restabelecido, apetite normal e retorno gradual ao trabalho. Em 8 semanas, a pontuação no Beck caiu para 4. Alta da psicoterapia após 12 sessões.
Lição clínica: O transtorno de ajustamento é autolimitado, mas requer manejo precoce para evitar cronificação. O suporte psicossocial e o tratamento medicamentoso adequado são fundamentais para a recuperação plena.
O que é o CID F43.2 na prática médica
O CID F43.2, denominado Transtorno de Ajustamento, é uma condição psiquiátrica caracterizada por uma reação emocional desproporcional a um estressor identificável, geralmente relacionado a relacionamentos interpessoais. Diferente de transtornos mais graves, o sofrimento começa dentro de três meses após o evento e não persiste além de seis meses após o fim do estressor. Na prática ambulatorial, é um dos diagnósticos mais comuns em pacientes que buscam ajuda por problemas conjugais, familiares ou amorosos. O médico clínico deve estar atento a sintomas depressivos ou ansiosos que surgem após separações, divórcios, conflitos com filhos ou pais, e que não preenchem critérios para episódio depressivo maior ou transtorno de ansiedade generalizada. O reconhecimento precoce evita medicalização excessiva e direciona para terapias breves e eficazes.
Subcategorias e variantes do CID F43.2
O código F43.2 se desdobra em oito subcategorias, permitindo ao médico especificar o quadro clínico predominante:
- F43.20 – com humor depressivo: tristeza, choro, desesperança, anedonia leve.
- F43.21 – com ansiedade: preocupação excessiva, tensão, palpitações, insônia.
- F43.22 – com ansiedade e humor depressivo mistos: quadro combinado, muito frequente em relacionamentos conflituosos.
- F43.23 – com perturbação da conduta: comportamentos impulsivos, irritabilidade, agressividade.
- F43.24 – com perturbação mista das emoções e da conduta.
- F43.25 – outras reações especificadas: quando há sintomas atípicos (somatizações intensas, por exemplo).
- F43.28 – outras reações de ajustamento.
- F43.29 – reação de ajustamento não especificada: usada quando a apresentação não se enquadra nas anteriores.
A escolha da subcategoria orienta a abordagem terapêutica: um paciente com predomínio de conduta pode necessitar de intervenções comportamentais, enquanto o humor depressivo responde melhor a antidepressivos leves.
Sintomas e como a doença se manifesta
Os sintomas do transtorno de ajustamento são variados e afetam três esferas principais:
- Emocional: tristeza persistente, crises de choro, ansiedade, irritabilidade, sensação de vazio ou desesperança.
- Comportamental: isolamento social, evitação de lugares ou pessoas que lembrem o estressor, queda no rendimento profissional ou acadêmico, uso de álcool ou drogas como fuga.
- Físico: insônia ou hipersonia, fadiga, dores musculares, cefaleia tensional, alterações do apetite (perda ou ganho de peso), palpitações e sudorese.
Diferentemente da depressão maior, os sintomas não são tão intensos a ponto de incapacitar completamente, mas comprometem a qualidade de vida. A chave diagnóstica é a relação temporal clara com o evento estressor (ex.: término de namoro, separação, conflito familiar). Em geral, os sintomas duram de 2 a 6 meses, e a recuperação ocorre naturalmente com suporte adequado.
Causas e fatores de risco
O transtorno de ajustamento é desencadeado por estressores psicossociais específicos. Os mais comuns em contexto de relacionamentos incluem:
- Término de namoro ou casamento;
- Divórcio ou separação litigiosa;
- Conflitos conjugais recorrentes;
- Problemas com filhos (adolescentes, uso de drogas, dificuldades escolares);
- Morte de um ente querido (em casos de luto complicado, o CID pode ser F43.2 se não preencher critérios de luto);
- Discriminação ou rejeição social;
- Violência doméstica (física, psicológica ou sexual).
Fatores de risco incluem: história prévia de transtornos mentais, personalidade com traços de dependência ou ansiedade, baixo suporte social, eventos estressores cumulativos e vulnerabilidade genética. Pessoas com estilo de apego inseguro (ansioso ou evitativo) são mais propensas a desenvolver reações de ajustamento após rupturas amorosas.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do CID F43.2 é essencialmente clínico, baseado nos critérios da CID-10 e do DSM-5. O médico deve realizar uma anamnese detalhada, incluindo:
- Identificação do estressor e sua relação temporal com o início dos sintomas;
- Exclusão de outros transtornos mentais (depressão maior, transtorno de ansiedade generalizada, luto complicado);
- Avaliação da intensidade e duração dos sintomas (máximo 6 meses após o fim do estressor);
- Exame físico e exames complementares básicos (hemograma, TSH, vitamina B12, glicemia) para descartar causas orgânicas (hipotireoidismo, anemia, déficit vitamínico);
- Uso de escalas como Beck Depression Inventory (BDI) e Beck Anxiety Inventory (BAI) para quantificar o sofrimento.
É fundamental que o diagnóstico seja feito por médico (clínico geral, psiquiatra ou médico de família), pois o CID F43.2 é formalmente um código médico. Psicólogos podem identificá-lo, mas não registram CID em atestados. A inclusão do CID no atestado médico garante direitos trabalhistas e previdenciários.
Tratamento disponível e opções terapêuticas
O tratamento do transtorno de ajustamento é multimodal e centrado no paciente. As principais abordagens são:
- Psicoterapia: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a mais estudada, eficaz em 8-12 sessões. Foca na reestruturação de pensamentos disfuncionais sobre o relacionamento e no desenvolvimento de habilidades de enfrentamento. Terapia Interpessoal (TIP) também é útil para conflitos de papel social.
- Medicamentoso: Antidepressivos ISRS (sertralina, escitalopram) em doses baixas a moderadas são indicados quando há predomínio de humor depressivo ou ansiedade. Ansiolíticos (clonazepam, alprazolam) podem ser usados por curto período (até 2 semanas) em crises agudas. Fitoterápicos como erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) têm evidência moderada para sintomas leves.
- Suporte psicossocial: Grupos de apoio, terapia de casal ou familiar, aconselhamento pastoral, atividades físicas regulares (caminhada, yoga) e técnicas de relaxamento (mindfulness).
- Manejo do estressor: Em casos de violência doméstica, é imprescindível o encaminhamento para rede de proteção (DEAM, CRAS, Casa da Mulher Brasileira).
Importante: o tratamento é geralmente breve (3 a 6 meses) e a maioria dos pacientes responde bem sem necessidade de internação. Casos resistentes ou que evoluem para depressão maior devem ser reavaliados e podem necessitar de ajuste terapêutico ou psiquiatria especializada.
Quantos dias de atestado médico
O número de dias de atestado para o CID F43.2 varia conforme a gravidade dos sintomas e a resposta ao tratamento inicial. Na prática clínica:
- Quadro leve (F43.20 ou F43.21): 7 a 14 dias, renovável por mais 7 dias se necessário. O paciente geralmente é afastado para repouso emocional e início da terapia.
- Quadro moderado (F43.22 ou F43.23): 15 a 30 dias, com reavaliação médica quinzenal. Pode ser necessário afastamento prolongado se houver comprometimento funcional significativo (ex.: não consegue trabalhar).
- Quadro grave com risco de cronificação: até 60 dias, com acompanhamento psiquiátrico. Após esse período, o paciente pode ser encaminhado para perícia do INSS para auxílio-doença (B31).
É importante que o atestado contenha o CID específico (F43.2 + subcategoria) e a descrição da conduta. O médico deve evitar atestados muito longos sem reavaliação, mas também não deve subestimar o sofrimento do paciente. A legislação trabalhista brasileira permite até 15 dias consecutivos de afastamento por atestado médico; acima disso, é necessário encaminhamento ao INSS.
Quando procurar médico urgente / sinais de alerta
Embora o transtorno de ajustamento seja autolimitado, alguns sinais indicam necessidade de intervenção imediata:
- Ideias de suicídio ou automutilação (mesmo vagas);
- Sintomas psicóticos (alucinações, delírios);
- Incapacidade total de realizar atividades básicas (higiene, alimentação);
- Uso abusivo de álcool ou drogas como mecanismo de enfrentamento;
- Piora progressiva dos sintomas apesar do tratamento inicial;
- Sinais de violência doméstica ativa (lesões físicas, ameaças);
- Comprometimento grave do estado geral (perda de peso >10% em 1 mês, insônia total).
Nesses casos, o paciente deve ser encaminhado a um pronto-socorro psiquiátrico ou serviço de emergência. O médico clínico pode estabilizar inicialmente com medicação e suporte, mas a avaliação por psiquiatra é essencial.
Prevenção e cuidados contínuos
A prevenção do transtorno de ajustamento relacionado a relacionamentos envolve estratégias individuais e sociais:
- Educação emocional: aprender a identificar e expressar emoções de forma saudável, desenvolver resiliência.
- Rede de apoio: manter vínculos familiares e de amizade, participar de grupos comunitários ou religiosos.
- Psicoeducação: conhecer os sinais precoces de sofrimento emocional e buscar ajuda antes que se agravem.
- Terapia preventiva: casais em crise podem se beneficiar de aconselhamento conjugal antes da ruptura.
- Estilo de vida saudável: sono regular, alimentação equilibrada, atividade física, evitar excesso de álcool e tabaco.
- Manejo do estresse: técnicas de relaxamento, meditação, mindfulness, hobbies.
- Check-up médico periódico: avaliar saúde mental na rotina do clínico geral, especialmente após eventos estressores.
A longo prazo, o acompanhamento psicológico intermitente (reforço a cada 6 meses) pode ajudar a prevenir recaídas, principalmente em pessoas com histórico de perdas relacionais significativas.
- 01. Não ignore sintomas emocionais após uma separação: tristeza persistente por mais de duas semanas merece avaliação médica.
- 02. O CID F43.2 é um código válido para atestados e dá direito a afastamento do trabalho por até 15 dias (renovável).
- 03. Combine psicoterapia com medicação quando indicado: o tratamento integrado acelera a recuperação em até 50%.
- 04. Evite automedicação com ansiolíticos ou álcool: pode mascarar sintomas e levar à dependência.
- 05. Construa uma rede de apoio: amigos, familiares e grupos de suporte são tão importantes quanto o tratamento formal.
- 06. Mantenha uma rotina diária estruturada: horários para dormir, comer e trabalhar ajudam a regular o humor.
- 07. Se houver violência doméstica envolvida, procure a delegacia da mulher ou o serviço social – o tratamento médico é apenas parte da solução.
Perguntas Frequentes sobre o CID Saúde Mental e Relacionamentos
O CID F43.2 garante quantos dias de atestado?
Geralmente de 7 a 30 dias, dependendo da gravidade. Em quadros leves, 7 a 14 dias; moderados, 15 a 30 dias; graves, até 60 dias com reavaliação periódica. Acima de 15 dias consecutivos, é necessário encaminhamento ao INSS para auxílio-doença.
Posso usar o CID F43.2 para justificar faltas no trabalho por problemas emocionais?
Sim, desde que o atestado seja emitido por médico (clínico, psiquiatra ou médico do trabalho) e contenha o CID e o período de afastamento. A empresa é obrigada a aceitar o atestado médico, mas pode solicitar perícia do INSS a partir do 16º dia.
Qual a diferença entre CID F43.2 e depressão (CID F32)?
O transtorno de ajustamento (F43.2) tem início agudo após um estressor identificável e duração limitada (máximo 6 meses após o fim do estressor). A depressão (F32) pode ser espontânea, mais duradoura e com sintomas mais intensos (anedonia, perda de peso significativa, ideação suicida).
O CID F43.2 pode ser usado em crianças e adolescentes?
Sim, é comum em jovens após separação dos pais, bullying ou término de namoro. O diagnóstico deve ser feito por médico ou psicólogo infantil. O tratamento é semelhante, com adaptações para a faixa etária.
Preciso tomar remédio para CID F43.2?
Nem sempre. Casos leves respondem bem apenas à psicoterapia e suporte social. A medicação (antidepressivos ou ansiolíticos) é indicada quando os sintomas são moderados a graves ou quando há sofrimento intenso que compromete o funcionamento diário.
Quanto tempo dura o tratamento do transtorno de ajustamento?
Em média, de 3 a 6 meses. A psicoterapia costuma ter de 8 a 12 sessões semanais. A medicação, se usada, pode ser mantida por 6 a 12 meses após a remissão dos sintomas, com retirada gradual.
O CID F43.2 pode evoluir para depressão maior?
Sim, se não tratado adequadamente ou se o estressor persistir. Cerca de 20% dos casos de transtorno de ajustamento podem progredir para transtornos mais graves. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental.
Como diferenciar CID F43.2 de luto normal?
O luto normal tem como estressor a morte de alguém, com sintomas focados na falta do ente, sem comprometimento funcional grave geralmente. O transtorno de ajustamento pode ser desencadeado por qualquer estressor (inclusive perda não relacionada a morte) e cursa com sofrimento mais intenso e disfuncional. A duração também é limitada: luto normal pode durar meses, mas o ajustamento não ultrapassa seis meses.
Revisão médica: Conteúdo revisado pela equipe médica da Clínica Popular Fortaleza, com base na CID-10 (OMS) e protocolos do Ministério da Saúde do Brasil.
Última atualização: 21/06/2026
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. O diagnóstico e o tratamento indicados pelo CID devem ser definidos pelo médico responsável com base no exame clínico completo. Não use este artigo como base para autodiagnóstico ou prescrição.
Referências:
CID10.com.br – F43.2 |
MedlinePlus – Adjustment Disorder
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